Seção Necromania & Política: “Ele” (Néstor Kirchner), apesar de morto há 3 anos, é protagonista do cotidiano político argentino
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Seção Necromania & Política: “Ele” (Néstor Kirchner), apesar de morto há 3 anos, é protagonista do cotidiano político argentino

arielpalacios

27 de outubro de 2013 | 07h48

Imagem que circula na web que mostra o peronista ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010, ao lado do presidente Juan Domingo Perón, defunto desde 1974. Locacação: o Céu. É uma fotomontagem.

“Ele”. Esta é a forma que a presidente Cristina Kirchner utiliza para referir-se ao ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), seu marido morto por um fulminante ataque cardíaco na manhã do 27 de outubro de 2010, cujo terceiro aniversário de sua morte coincide hoje (domingo) com as eleições parlamentares. Segundo Pablo Mendelevich, autor de “O relato kirchnerista em 200 expressões”, com o uso desse pronome a presidente Cristina “equivale seu marido morto com Deus”.

Nos últimos três anos Cristina citou “Ele” em todos seus discursos feitos na Argentina. Em diversas ocasiões disse que “Ele” a observava “dali de cima”. Em outras, que ele estava “caminhando” no meio da plateia que a ouvia. Em 2011, durante um discurso na residência oficial de Olivos, a janela que estava atrás da presidente abriu-se rangendo. Cristina, em rede nacional de TV, sem vacilar, exclamou em tom místico: “é Ele…o vento do sul!”

Cristina Kirchner usa os vestidos (e também leggins) de luto, ininterruptamente, há três anos. O luto – neste formato – é raríssimo na Argentina, embora ainda seja costumeiro entre viúvas octogenárias e conservadoras nos cafundós de regiões da Espanha, como Castilla, Extremadura e Andaluzia.

Na semana passada Kirchner foi protagonista de um vídeo publicitário em plena reta final da campanha para as eleições parlamentares. No vídeo artistas e pessoas do povo, enquanto Kirchner faz seu discurso de posse de maio de 2003, entoam o mesmo texto de forma melódica, especialmente a frase “venho lhes propor um sonho”.

Desde 2010, para homenagear o ex-presidente, houve uma onda de “batizados” e “rebatizados” de ruas, avenidas, escolas, uma rodoviária, um túnel, pontes, torneios de futebol, bolsas de estudo, hospitais, conjuntos habitacionais e até um laboratório de estudos genéticos bovinos. Uma das duas maiores hidrelétricas do país, na Patagônia, ostentará o nome do ex-presidente morto, homenagem que nenhum outro ex-presidente obteve em toda a História argentina.

Além disso, as autoridades inauguraram estátuas de Kirchner em diversos pontos do país. Seu nome também designa o prédio da Faculdade de Jornalismo da Universidade de La Plata, embora o ex-presidente jamais tenha dado uma coletiva de imprensa.

Na semana passada a imagem de Kirchner foi utilizada em um outdoor no qual aparecia ao lado de Cristina. Na frente do casal Kirchner, a modo de um encontro entre os peronistas atuais e os fundadores do movimento, aparecia o sorridente casal Juan Domingo e Evita Perón. Dos três integrantes da foto apenas uma, a presidente Cristina, está viva.

Candidatos kirchneristas para as eleições parlamentares deste domingo usam nos outdoors fotos que fizeram com Kirchner quando estava vivo. Mas, recorrer às fotomontagens tampouco é visto como um pecado.

Diversos peronistas kirchneristas que afastaram-se de Cristina – entre eles o ex-chefe do gabinete de ambos, Alberto Fernández, além do líder sindical Hugo Moyano – usam a figura de Kirchner para criticar sua viúva. Segundo eles, Cristina saiu do caminho marcado pelo ex-presidente, “deturpando” o kirchnerismo original.

Outra fotomontagem que exibe Cristina (viva) ao lado dos (finados) Hugo Chávez e Néstor Kirchner.

BEATIFICAÇÃO – O historiador José Luis Romero me disse que a presidente Cristina “coloca Kirchner em uma esfera sobrenatural que, por um lado, motiva seus militantes. E, por outro, serve de inspiração à viúva, atual presidente”. Romero sustenta que Cristina “fez nos últimos anos um uso da figura de Kirchner similar ao que o imperador Augusto fez com a imagem de Júlio César, em referência à política de idolatria que o primeiro imperador romano aplicou com seu famoso tio general, assassinado dentro do Senado em Roma”.

O historiador sustenta que o governo realiza uma “espécie de beatificação” de Kirchner que é acompanhado da “elaboração de um relato mítico contraditório”.

Mito do “rock” político argentino: A satírica Revista Barcelona ilustrou em 2011 o falecido ex-presidente Néstor Kirchner como o rebelde James Douglas ‘Jim’ Morrison na emblemática foto feita por Gloria Staver, editora da Rolling Stone. Enquanto isso, parlamentares kirchneristas continuam batizando estradas, bairros e outras marcas do território argentino com o nome do defunto marido (e antecessor) da atual presidente.

ANEXO EGO-CARTOGRÁFICO: O EX-PRESIDENTE QUE VIROU…

TORNEIO DE FUTEBOL – Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA) desde 1979 – ano em plena ditadura militar – anunciou um mês depois da morte de Kirchner que o Torneio Clausura-2011 (um dos dois torneios nacionais da primeira divisão) seria rebatizado como “Torneio Néstor Kirchner”.

Motivos para a homenagem a Kirchner não faltam para Grondona, que em 2009 conseguiu um suculento acordo com o casal presidencial de US$ 160 milhões em troca da estatização das transmissões dos jogos de futebol. As verbas foram aumentadas nos anos seguintes, acumulando um total de US$ 1,06 bilhão nos últimos quatro anos.

Desta forma o governo Kirchner obteve o monopólio das transmissões dos jogos do esporte mais popular do país. O governo transmite os jogos pelo estatal Canal TV Pública, outrora um canal dedicado à cultura. A publicidade de empresas privadas foi cancelada pelo governo, que somente coloca propaganda oficial durante os jogos.

Grondona está no comando da AFA há 34 anos. No mesmo intervalo, a Federação de Futebol do Chile teve 14 presidentes.

GASODUTO – O gasoduto que está sendo construído entre a Argentina e a Bolívia ostentará o nome de Néstor Kirchner. A medida foi aprovada pela Câmara de Deputados estaduais da província de Jujuy, por onde passa o gasoduto.

MITO NA DELEGACIA – “Ele é um mito agora”. Este foi o argumento do governador da província de Misiones, Maurice Closs, que batizou uma delegacia com o nome do defunto ex-presidente Kirchner.

NA PEQUENA CIDADE, ‘VÁRIAS’ RUAS – O nome de “El Pinguino” também foi usado por Sergio Schmunck, prefeito da cidade de Viale, na província de Entre Ríos, para designar o novo parque industrial. Schmunck afirmou que “é totalmente merecido que o setor industrial ostente o nome de nosso ex-líder”. O prefeito também anunciou entusiasmado que “várias” ruas de Viale seriam rebatizadas com o nome de Kirchner. Isto é: várias ruas na mesma cidade, que possui 18 mil habitantes.

UM BAIRRO, PARA NÃO FICAR ATRÁS– Na mesma província de Entre Ríos, outra cidade, Colonia Avellaneda, não quis ficar atrás de Viale. Suas autoridades, também possuídas pelo fervor de rebatizar, decidiram designar um conjunto habitacional com o nome do falecido marido da presidente Cristina.

O nome Néstor Kirchner também foi usado nos últimos tempos para batizar ou re-batizar os seguintes lugares:

– O edifício do antigo Correio Central de Buenos Aires, que será o Centro Cultural do Bicentenário (o motivo oficial alegado pelos deputados kirchneristas: o pai de Kirchner havia trabalhado nos Correios)

– A Rodovia de 150 kms que une as cidades de General Pintos e Germânia (respectivamente, 11.129 e 1.433 habitantes). Esta estrada foi inaugurada pela presidente Cristina por teleconferência. Três dias depois choveu e a estrada exibiu uma brecha de mais de um metro de largura, partindo a via em duas partes.

O CASAL PERÓN – Apesar do uso intensivo do nome do ex-presidente Nestor Kirchner, o fenômeno não se compara ao ocorrido nos anos 50, após a morte de Evita Perón, quando o governo peronista transformou o território de La Pampa em “Província Eva Perón” e cidade de La Plata em “Ciudad Eva Perón”. Na mesma época, o território do Chaco recebeu o nome de “Província presidente Perón”. E uma linha de carros Made in Argentina foi batizada com o nome de “O Justicialista” (O Peronista). Além disso, todas as grandes cidades argentinas contavam na época com estátuas do presidente vivo, Perón, que foram destruídas após sua derrubada em 1955.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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