Sem jornais nesta 2afeira na Argentina. Mas por um bom motivo: é o dia do “Canillita” (e algo sobre a conexão Piazzolla-Gardel)
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Sem jornais nesta 2afeira na Argentina. Mas por um bom motivo: é o dia do “Canillita” (e algo sobre a conexão Piazzolla-Gardel)

arielpalacios

07 de novembro de 2011 | 19h42

Interrompemos brevemente a transmissão normal deste blog para uma homenagem especial aos jornaleiros argentinos, já que hoje, segunda-feira, é o “Dia del Canillita” (Dia do Jornaleiro). Isto é: hoje as bancas estão fechadas, e exceto alguma pequena distribuição de jornais, o país não conta hoje com seus tradicionais periódicos em papel. Portanto, dia de descanso para “don” Manuel, meu jornaleiro há 15 anos.

Os canillitas formam um poderoso sindicato há décadas na Argentina, já que no país nunca prosperou o sistema de assinaturas, tal como no Brasil.

As alternativas são:

a) descer na banca e comprar os jornais todos os dias

b) combinar com o jornaleiro a entrega diária dos jornais solicitados (em várias ocasiões os jornaleiros contam com as chaves dos prédios, e entram diretamente para deixar os jornais na porta dos apartamentos).

A palavra “canillita” provém de uma obra teatral do gênero “sainete” (uma peça leve, com música no meio) chamada “Canillita”.

Nessa peça, o dramaturgo uruguaio Florêncio Sánchez conta a história de um garoto de 15 anos que vende jornais na rua pata manter seus pais. O garoto é muito pobre e usa umas calças que ficaram velhas. Ele cresceu e aparecem suas “canillas” (palavra usada para “torneira” e também – no fim do século XIX – para “canelas”).

O termo rapidamente foi aplicado aos garotos que vendiam jornais nas ruas. Nas décadas posteriores começou a ser usado para referir-se às jornaleiros das bancas de jornais e revistas.

Mafalda, uma leitora ávida de jornais. Atualmente ela leria o Ipad? Ou preferiria o papel?

E porque o dia 7 de novembro é o dia do canillita na Argentina? É que nessa data, em 1910, morreu o dramaturgo Florêncio Sánchez, que havia nascido em 1875. Sánchez trabalhou 15 anos como jornalista em Montevidéu. Depois, quis mudar de ramo, foi morar em Buenos Aires (onde trabalhou com Juan Vucetich, o descobridor do sistema de impressões digitais, mas esta é outra história) e posteriormente foi para Rosário, onde trabalhou novamente em um jornal.

Ali inspirou-se para escrever “Canillita”, que estreou em 1902 (ele também escreveria uma peça emblemática da dramaturgia platina, o “M’hijo el doctor”).

Há uma relação entre o tango e os canillitas?

Sim, por tabela, e por acaso reúne dois grandes nomes do tango: Carlos Gardel e Astor Piazzolla.

Gardel estava protagonizando mais um filme em Nova York pela Paramount em 1934 quando um garoto de 13 anos, Astor, foi conhecê-lo. O garoto levava um presente do pai para Gardel, que consistia em uma figura de um homem tocando violão (o instrumento que Gardel tocava) esculpida em madeira e um convite para comer raviólis em sua casa.

Astor morava em Nova York praticamente desde que tinha quatro anos de idade (ali residiria até os 16) e tocava o bandoneón, instrumento que seu pai havia lhe dado de presente quando fez nove anos. Os Piazzollas moravam em um modesto apartamento na rua St Marks Place, atualmente o bairro boêmio do Village.

Gardel ficou fascinado pelo garoto que falava perfeito inglês e espanhol e o convidou a fazer uma ponta no filme “El Dia em que me quieras” como “canillita”. Astor tornou-se seu guia e tradutor em Nova York, especialmente pelo bairro italiano, onde Gardel – bom garfo – gostava de conhecer as cantinas. Ocasionalmente Gardel comia raviólis de ricota na casa dos Piazzolla.

No entanto, Gardel dizia a Astor que tinha que dar um touch mais argentino em seu jeito de tocar o instrumento, já que o jovem Piazzolla havia tido aulas de piano com o húngaro Bela Wilda, um discípulo de George Gershswin e tocava com os amigos judeus novai-orquinos nas festas do bairro.

Um dia Piazzolla foi ao apartamento de Gardel para mostrar como tocava o bandoneón. “Senta aí tranqüilo, bebe o leite e toca algo no bandoneón”.

Astor tocou umas valsinhas, umas rancheras, e finalmente um tango.

“Pibe, vos tocas el bandoneón como um gallego!” (“Guri, você toca o bandoneón como um galego”, sinédoque usada na Argentina para indicar um espanhol), disse brincando Gardel.

Astor Piazzolla aparece como um “canillita” de uma rua portenha (embora filmado em um estúdio em Manhattan) neste breve trecho, aqui.

Meses depois, Gardel convidou Astor para participar de sua troupe, que ia fazer uma tournée pela América Central e Colômbia.

O pai de Astor, Vicente (chamado de “Nonino”) achou que era muito novo, que seu filho não podia deixar a escola, e disse que desta vez não viajaria.

Gardel partiu. Quase no final da tournée, em Medellín, o cantor – e todos que estavam junto com ele – morreram em um acidente de avião.

Astor Piazzolla ficou com os pais mais uns anos em Nova York e depois voltaram para a Argentina.

Vicente Piazzolla, sua esposa Assunta, mãe de Astor. E o jovem Astor.

Neste link, “Adiós Nonino”, tango que Piazzolla dedicou ao pai. Aqui.

Neste link, “Prelúdio para um canillita” (Prelúdio para um jornaleiro), de Astor Piazzolla, de 1970, com Amelita Baltar. Aqui.

Em 1978 Piazzolla escreveu esta carta imaginária para Gardel:

“ …Jamás olvidaré la noche que ofreciste un asado al terminar la filmación de El día que me quieras. Fue un honor de los argentinos y uruguayos que vivían en Nueva York. Recuerdo que Alberto Castellano debía tocar el piano y yo el bandoneón, por supuesto para acompañarte a vos cantando. Tuve la loca suerte de que el piano era tan malo que tuve que tocar yo solo y vos cantaste los temas del filme. ¡Qué noche, Charlie! Allí fue mi bautismo con el tango. Primer tango de mi vida y ¡acompañando a Gardel! Jamás lo olvidaré. Al poco tiempo te fuiste con Lepera y tus guitarristas a Hollywood. ¿Te acordás que me mandaste dos telegramas para que me uniera a ustedes con mi bandoneón? Era la primavera del 35 y yo cumplía 14 años. Los viejos no me dieron permiso y el sindicato tampoco. Charlie, ¡me salvé! En vez de tocar el bandoneón estaría tocando el arpa”

Bom, em 1986 eu tinha 20 anos e era estudante de jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. Meus pais moravam em Curitiba, e, durante as férias de verão, coincidiu que Piazzolla apresentava-se no Teatro Guairá. Levei uma caixa de alfajores feitos por minha mãe e um disco para ele autografar. Cheguei no hotel onde ele se hospedava, na frente da Praça Santos Andrade, mas o porteiro me avisou: “ele saiu para dar uma caminhada”. Dez minutos depois ele entrou e eu me apresentei. Quando lhe dei a caixa de alfajores, ele arregalou os olhos: “alfajores! Mas como você conseguiu alfajores aqui no Brasil?”. Respondi: “minha mãe faz”. E ele: “tua mãe faz?? Em Curitiba??”.

Na seqüência, me disse: “esse disco é meu?”. Eu o mostrei. “Você não vai querer um autógrafo, não?”. Respondi: “claro!”. Ele autografou meu disco, comeu um dos alfajores e me perguntou o que ia fazer depois. “Nada, ia voltar para casa…”. E ele: “nada disso, você vai ser meu tradutor…, tenho que dar uma entrevista para a revista Veja e não entendo nada do que o repórter diz”.

Mas, a história desta tarde de tradutor de Piazzolla e o dia seguinte, quando fui convidado para ver o ensaio do mestre, deixo para depois, para o ano que vem, quando, dia 4 de julho completam-se 20 anos de sua morte.

 

Lenços e fóóónc: uma das cenas de “El día en que me quieras”. Aqui,

E “El día en que me quieras! com Daniel Barenboim e a Filarmônica de Berlim, aqui.

E voltando ao assunto do canillita….como eu sou jornalista – e não jornaleiro – mas estou com o dia atrapalhado por assuntos de fraldas, matérias do jornal e visita iminente de minha mãe, proveniente de Curitiba, aviso que colocarei os comentários e responderei aos mesmos (inclusive os atrasados) amanhã, 3afeira.

Abraços,

Ariel

PS: Meia década depois, voltando da casa de um amigo ao qual havia emprestado o disco do Pìazzolla, passei na frente da Livraria Ghignone, na rua XV, em Curitiba. Vi um alvoroço. “Quem está ali?” perguntei. Um amigo apareceu e me disse: “uau! É o Carlos Zéfiro!”. Entrei rapidamente e consegui me aproximar do desenhista emblema do erotismo brasileiro. Pedi um autógrafo a Zéfiro… mas percebi que não tinha um papel… nesse momento ele perguntou: “de quem é esse disco?”.

“Piazzolla”, disse eu.

“Ah, o dos tangos modernos… eu fiz uns tangos para a orquestra Tabajara”.

Na seqüência, pegou o disco e assinou ao lado do Piazzolla.

Assim, Don Astor e seu Zéfiro estão unidos na capa de um disco que há anos está na casa de meus pais.

Tempos de pluralidade: O revolucionário Ernesto “Che” Guevara de la Serna Lynch lê o portenho “La Nación” durante reunião da OEA na uruguaia Punta del Este em 1961.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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