Senado argentino expropriou a YPF (Cristina Kirchner remove espanhola Repsol e tenta seduzir as americanas Exxon e Chevron)
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Senado argentino expropriou a YPF (Cristina Kirchner remove espanhola Repsol e tenta seduzir as americanas Exxon e Chevron)

arielpalacios

27 de abril de 2012 | 09h11

Publicidade da YPF nos anos 30

Após 15 horas de intensos debates o Senado argentino aprovou na madrugada desta quinta-feira a expropriação da companhia YPF de gás e petróleo, que até dez dias antes havia sido propriedade da empresa espanhola Repsol. O governo da presidente Cristina Kirchner conseguiu 63 votos a favor do projeto de lei. Três senadores votaram contra a expropriação, enquanto que quatro preferiram a abstenção. Em meio a uma sessão na qual não faltaram trocas de críticas entre os parlamentares, referências às políticas econômicas dos ex-presidentes Hipólito Yrigoyen, Juan Domingo Perón e Néstor Kirchner (e até referências sobre a obra “Anna Karenina”, do russo conde anarquista León Tolstoi), o governo obteve amplo respaldo de partidos da oposição.

No entanto, os senadores da União Cívica Radical (UCR) e a socialista Frente Ampla (FAP) exigiram que o governo Kirchner administre a YPF “de forma transparente” e mais eficaz do que a reestatizada Aerolíneas Argentinas, companhia que não conseguiu sair do déficit nos três anos transcorridos desde o confisco realizado pela presidente Cristina.

Antes da expropriação, a composição acionária da YPF dividia-se entre 57,43% da Repsol; 25,46% do argentino Grupo Petersen, além de 17,11% cotados na Bolsa (principalmente investidores dos EUA).

Com a expropriação, a relação de forças na YPF dividem-se em 26,03% das ações para o Estado argentino; 25,46% para o Grupo Petersen; 24,99% das províncias e 6,43% que permanecerão nas mãos da Repsol. Outros 17,09% continuarão sendo cotados na Bolsa.

Cartaz pede uma YPF 100% estatal e argentina.

CAPITALISMOS E CAPITALISMOS – “Não dá para continuar importando petróleo”, exclamou no início da madrugada o kirchnerista senador Aníbal Fernández, ex-chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina, em defesa da expropriação da empresa. “Precisamos de auto-abastecimento”, afirmou. O senador Miguel Ángel Pichetto, chefe do bloco kirchnerista, disparou fortes críticas contra a administração da Repsol nos últimos 13 anos. Depois, sustentou que “o capitalismo espanhol, ao contrário do capitalismo anglo-saxão, é depredador”.

Pichetto também sustentou que esta expropriação era um “alerta às empresas que (estão instaladas na Argentina mas) não investem”. O comentário do parlamentar – que nos anos 90 respaldou a privatização e atualmente é um estatizador – gerou rumores sobre eventuais novas expropriações de empresas estrangeiras no país nos próximos tempos.

Entre os representantes da oposição, a senadora Norma Morandini, da Frente Ampla, considerou que o projeto “não passa de uma chantagem emocional”. Morandini, que sempre defendeu uma YPF estatal, discordava da forma como o governo Kirchner estava realizando esta expropriação. Na mesma linha, a senadora Maria Eugenia Estenssoro, da Coalizão Cívica, criticou o projeto da presidente Cristina: “para mim é impossível respaldar esta iniciativa. Isto é uma grande fraude emocional que estão fazendo para os argentinos. Por trás desta expropriação existem muitas irregularidades”.

A discussão e votação na Câmara de Deputados começará no dia 2 de maio e, após um intervalo na madrugada, concluirá no dia 3. Ali, tudo indica, o governo também conseguiria aprovar o polêmico projeto de lei com confortável margem de votos. Segundo o chefe do bloco kirchnerista na Câmara, o deputado Agustín Rossi, o governo obteria pelo menos 200 votos de um total de 257.

Caricatura da guerra hispano-americana. Os espanhóis saem de Cuba e arriam bandeira enquanto entram os americanos.

OS YANKEES ESTÃO CHEGANDO (SAEM OS ESPANHÓIS) – Uma semana e meia depois de ter removido de forma compulsória a espanhola Repsol do controle da empresa YPF de gás e petróleo, o governo Kirchner iniciou uma série de reuniões com os CEOs de multinacionais estrangeiras. O objetivo do governo é o de seduzi-las a investir nas áreas confiscadas à Repsol e de formar parcerias com a expropriada YPF.

Um dos encarregados da estratégia de sedução é o ministro do Planejamento Federal e Obras Públicas, Julio De Vido, designado pela presidente Cristina para o cargo de interventor da YPF. De Vido – que acompanha o casal Kirchner desde que Nestor Kirchner era prefeito da cidade de Rio Gallegos, em 1987 – é o homem-forte da presidente Cristina na área energética. Nos últimos nove anos ele comandou as alianças estratégicas com a estatal venezuelana PDVSA e é suspeito de vários escândalos de corrupção envolvendo a construção de gasodutos no sul e norte da Argentina.

De Vido é acompanhado do jovem vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, designado por Cristina para o posto de vice-interventor da YPF. Kicillof é o autor do projeto de expropriação da empresa, é considerado o “mentor” econômico da presidente argentina. O vice-ministro é um dos principais homens de “La Cámpora”, denominação da organização que congrega a Juventude Kirchnerista.

De Vido e Kicillof receberam Roger Becker, vice-presidente da área de exploração da Exxon, a maior empresa petrolífera dos EUA. Durante o encontro, analisaram a possibilidade de que a companhia americana produza gás e petróleo na Argentina. Segundo o governo, a Exxon “manifestou seu interesse em participar do desenvolvimento de hidrocarbonetos não-convencionais na província de Neuquén, onde existem áreas adjudicadas, algumas delas em associação com a YPF”.

A área que desperta o interesse da Exxon é a região de Vaca Muerta, a maior jazida de gás não-convencional da Argentina, descoberta há dois anos pela espanhola Repsol.

O governo Kirchner também teve reuniões com a Chevron, empresa que o ministro De Vido quer convencer a explorar a província de Chubut. Neste caso, a ideia é que a Chevron faça, além de investimentos próprios, parcerias com a YPF.

De Vido e Kicillof também reuniram-se com empresas canadenses, chinesas e francesas.

REESTATIZAÇÕES – Os críticos do governo afirmam que a nova YPF deveria evitar as falhas da reestatizada empresa Aguas Argentinas. A companhia, rebatizada de “Aysa”, recebeu US$ 681 milhões no ano passado das mãos do governo Kirchner. No entanto, quase um terço da quantia foi utilizada para financiar seu déficit.

Mas, as principais críticas são direcionadas contra a Aerolíneas Argentinas, que em 2011 registrou perdas diárias de US$ 2 milhões. Do total de US$ 757 milhões de fundos públicos recebidos no ano passado, a empresa – com boa parte da frota sucateada – destinou somente US$ 94 milhões para a compra de novos aviões. O resto foi utilizado para cobrir o déficit da companhia, que é administrada por integrantes de “La Cámpora”, denominação da Juventude Kirchnerista, que transformou-se na ala “ultra-kirchnerista” do governo.

INDUSTRIAIS – O presidente da União Industrial Argentina (UIA), José Ignácio De Mendiguren – ex-ministro da Produção em 2002, durante o governo do presidente provisório Eduardo Duhalde – declarou seu respaldo à expropriação da YPF. Segundo ele, “a capacidade do país em gerar energia em quantidade, qualidade e segurança de abastecimento, além de custos razoáveis, é de vital importância para o desenvolvimento da indústria argentina”.

No entanto, os industriais locais – que estão de olho no fornecimento de serviços e equipamentos para a nova e nacional YPF – pediram que o governo “siga os passos institucionais, jurídicos e normativos para garantir o adequado desenvolvimento do processo de expropriação”.

VIZINHANÇA – Do outro lado da Cordilheira dos Andes, no Chile, Matias Mori, o vice-presidente do Comitê de Investimentos Estrangeiros – um organismo estatal composto pelo ministério da Economia, Banco Central, a chancelaria e o Planejamento – afirmou que toda a região corre o risco de entrar em uma “lista negra” internacional depois do confisco da YPF por parte do governo argentino.

No ano passado o Chile recebeu investimentos de US$ 17,53 bilhões, além de solicitações para outros US$ 6 bilhões. Mas, o fato de ter um vizinho complicado – neste caso, a Argentina – pode trazer problemas, indicou Mori com uma metáfora urbanística: “não adianta de nada ter a casa mais bonita se o bairro fica feio perante a ótica dos investidores”.

No entanto, Mori não descarta que surja um cenário no qual, os investidores internacionais não encarem a região como um todo, mas sim, privilegiem somente os países “com políticas mais estáveis na área de investimentos”. Neste caso, sustenta, “o Chile seria beneficiado”.

PESQUISA – A expropriação da YPF conta com a aprovação de 62% dos argentinos, segundo uma pesquisa elaborada pela Poliarquia, uma consultoria independente de opinião pública. A estatização da companhia tem a rejeição de 31%, enquanto que os indecisos constituem 7%. A companhia, que era a subsidiária argentina da espanhola Repsol, foi extraditada, sem negociações prévias – e sequer indenização – por ordem da presidente Cristina, que celebrou a “recuperação da soberania energética”.

No entanto, o controle da YPF possui um respaldo “crítico” dos argentinos, já que 44% dos pesquisados consideram que o governo de Cristina e o ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007) são os responsáveis pela queda de produção de gás e petróleo do país. Uma proporção inferior, 36% acreditam que a culpa é da iniciativa privada.

A pesquisa da Poliarquia sustenta que 49% dos entrevistados consideram que a expropriação terá um impacto positivo na economia argentina, enquanto que 31% acredita que o efeito será negativo. No entanto, 47% dos pesquisados admitem que a estatização da empresa, arrancada da Repsol, provoca uma imagem negativa da Argentina no exterior. Somente 22% consideram que a operação ordenada pela presidente Cristina melhorará a imagem do país.

YPF, ESTATIZADA, PRIVATIZADA E “ARGENTINIZADA”

A companhia petrolífera YPF, fundada em 1922, foi a principal estatal argentina até 1992, quando, dentro do processo de privatizações realizado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99), foi vendida para um grupo de empresários argentinos. Na época, a privatização foi respaldada enfaticamente pela então deputada Cristina Kirchner e seu marido, Nestor Kirchner, que era o governador da petrolífera província de Santa Cruz. O Estado nacional ficou com 20% das ações.

No entanto, na segunda metade da década dos 90, as crises mexicana, russa e japonesa abalaram a economia argentina. Sem cash, as províncias começaram a vender suas ações. Os empregados da YPF, que tinham 10%, também desprenderam-se dos papéis da companhia. Em 1999, depois da desvalorização do real no Brasil, Menem – cujo governo estava com problemas para cumprir as metas fiscais com o FMI – ordenou a venda das ações do Estado nacional, e assim, obter os recursos que precisava.

Desta forma, nesse ano, o Estado e os empresários argentinos venderam a totalidade da YPF à espanhola Repsol. A partir dali, a YPF passou a representar metade do faturamento do grupo ibérico. O management da companhia foi deslocado de Buenos Aires para Madri.

Em 2004 o então presidente Nestor Kirchner, sem cacife político nem fundos para reestatizar a YPF, anunciou a criação de uma nova estatal petrolífera, a Enarsa, chamada ironicamente de “a mini-YPF”. O plano inicial de Kirchner era que a Enarsa – sem dinheiro, nem equipamento – poderia crescer graças a alianças estratégicas com a venezuelana PDVSA e a Petrobrás. No entanto, a mini-estatal permaneceu com baixo perfil ao longo dos últimos oito anos, praticamente sem sair do papel.

Mas, em 2007, Kirchner mudou de estratégia e decidiu respaldar os Eskenazi, família de empresários argentinos, donos do Grupo Petersen, a comprar 15% das ações da YPF à Repsol. A partir dali, a presença argentina – embora privada – começou a aumentar. No início de 2011 os Eskenazi compraram outros 10%.

No entanto, ao longo do ano passado, os Ezkenazi caíram em desgraça com a presidente Cristina, que começou a buscar alternativas para que empresários amigos comprem sua parte. A meta é a “argentinização” da empresa que foi estatal e privatizada.

Nos anos 90: Néstor Kirchner, governador de Santa Cruz; Carlos Menem, presidente da República, e Cristina Kirchner, parlamentar.

  

E, nada a ver com a postagem acima, um pouco de tango: com Julio Sosa, “Nada”:

http://www.youtube.com/watch?v=e-BAr8ZOlgc&list=PL38B1118CDEFB3B69&feature=plpp_play_all

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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