Serial killer & piromaníaco: Videla, o ditador que queimava bibliotecas
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Serial killer & piromaníaco: Videla, o ditador que queimava bibliotecas

arielpalacios

17 de maio de 2013 | 22h40

 A morte do general Jorge Rafael Videla, ocorrida nesta sexta-feira dia 17 de maio, salvou o ex-ditador de ser julgado neste ano por “genocídio cultural”, uma nova figura jurídica que debutaria no julgamento que transcorreria na cidade de Rosário, província de Santa Fe.

Videla, de 87 anos,condenado em 2010 à prisão perpétua por torturas, sequestros e assassinatos durante a ditadura militar (1976-83), também estava sendo acusado de ser o responsável pelo saque e queima dos 80 mil livros da Biblioteca Popular Constancio Vigil no dia 25 de agosto de 1977 em Rosario.

Grande parte dos livros dessa biblioteca – que valeria hoje US$ 40 milhões – foram queimados por serem considerados “subversivos” pelos militares. Outra parte foi roubada e revendida pelos oficiais. O caso desta biblioteca também foi enquadrada na área de delitos econômicos da ditadura. “O ataque foi pensado e planejado para destruir a obra educativa e cultural, e atrás disso estava também a intenção de negociatas”, afirmou o promotor Gonzalo Stara.

O julgamento estava marcado para meados neste ano, embora não tenha uma data definida, segundo fontes da Assembleia Permamente de Direitos Humanos de Rosario. Outros envolvidos no caso da destruição da biblioteca serão levados ao banco dos réus.

Videla, Jorge Rafael: nesta sexta-feira ele morreu de uma parada cardíaca em sua cela na prisão de Marcos Paz, onde cumpria pena por torturas, sequestros e assassinatos de civis. O curriculum vitae do ex-general também incluía sequestros de bebês. Ele estava a ponto de ser julgado por “genocídio cultural”. Mas, Caronte o salvou dessa.

PIROMANÍACO – O ex-ditador, além de piromaníaco, foi uma espécie de serial killer com cargo presidencial. Protagonista do golpe que em março de 1976 implantou a ditadura militar mais sanguinária da História da América do Sul, seu regime teve um saldo de 30 mil civis assassinados nos centros clandestinos de detenção. A ditadura também sequestrou 500 bebês, dos quais somente 108 recuperaram sua identidade até hoje.

A ditadura protagonizou várias incinerações de livros em diversas cidades do país. O general Luciano Benjamin Menédez – com a autorização de Videla – transformou-se em um dos principais protagonistas das queimas, para as quais organizava solenidades que presidia e que imitavam as queimas de livros feitas pela Inquisição e o nazismo.

“Da mesma forma como destruímos pelo fogo a documentação perniciosa que afeta o intelecto e nossa maneira cristã de ser, serão destruídos os inimigos da alma argentina”, disse Menéndez em abril de 1976.

Em junho de 1980 a ditadura queimou 24 toneladas de livros confiscados do Centro Editor América Latina.

Na lista de autores suspeitos dos militares estavam escritores como Gabriel García Márquez, passando por Julio Cortázar, Sigmund Freud e até Marcel Proust.

O regime proibiu o ensino da teoria matemática dos conjuntos, por considerar que era “subversiva”. A palavra “vetor” também foi proibida nas escolas, já que os militares consideravam que era utilizada na terminologia marxista.

Soldados chilenos queimam livros após o golpe de 11 de setembro de 1973, que instaurou a ditadura do general Augusto Ramón Pinochet.

INTELIGÊNCIA MILITAR – Em setembro de 1980 as autoridades da ditadura de Videla proibiram o uso do livro “O pequeno príncipe”, do francês Antoine de Saint-Éxupery, nas escolas, por considerá-lo “subversivo”.

As autoridades também proibiram um livro de engenharia elétrica, o “Cuba electrolítica” (isto é, ‘célula eletrolítica’). Os censores acreditaram que o ‘cuba’ referia-se à ilha caribenha, controlada pelo regime comunista de Fidel Castro.

O general Ramón Camps, o chefe da polícia da província de Buenos Aires, que instalou dezenas de centros de detenção e tortura e era declarado admirador de Adolf Hitler. Camps defendia o sequestro de bebês, filhos das desaparecidas políticas, alegando que a subversão era “genética” e que era necessário combatê-la criando as crianças em “lares cristãos”.

LÉXICO

Biblioclasmo ou Livrocídio: Denominações das práticas de destruir – em alguns casos, com cerimônias incluídas – livros e outros tipos de material escrito.

A queima de livros é uma forma clássica de regimes opressivos que pretendem censurar ou silenciar algum aspecto da cultura de uma nação.

Na ilustração acima, a queima de livros protagonizadas pelos nazistas no dia 11 de maio de 1933 na Praça da Ópera em Berlim (foto dos Arquivos Gerais da Alemanha).

Heinrich Heine, poeta alemão, escreveu em 1821: “ali, onde queimam-se livros, depois acabam queimando seres humanos”.

Sigmund Freud, pai da psicanálise, quando ficou sabendo que os nazistas haviam queimado livros seus, comentou com um misto de ironia e estupefação: “como o mundo avançou…na Idade Média teriam me queimado” (pouco tempo depois da morte de Freud o Terceiro Reich começaria a queimar pessoas nos campos de concentração)

Lista de bibliotecas destruídas ao longo da História mundial: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_destroyed_libraries

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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