O Universo descontinuou Julio Grondona, única forma para deixar o comando da AFA
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O Universo descontinuou Julio Grondona, única forma para deixar o comando da AFA

arielpalacios

30 de julho de 2014 | 16h20

O todo-poderoso Julio Humberto Grondona, máximo cartola argentino durante 35 anos, uma década a mais do que o recordista brasileiro Ricardo Teixeira. Grondona foi o principal aliado da presidente Cristina Kirchner na estatização das transmissões dos jogos de futebol. “Somente morto saio da AFA”, disse em 2010.

“Don Julio”, como era chamado Julio Grondona, que morreu nesta quarta-feira por graves problemas cardíacos, presidiu com mão de ferro a Associação de Futebol da Argentina (AFA) durante 35 anos, desde que foi designado pela ditadura militar (1976-83) para ocupar o posto. Grondona – uma versão “gold” argentina de Ricardo Teixeira – sobreviveu ao longo de mais de três décadas e meia com apenas uma Copa do Mundo conquistada (México 1986), oito greves de jogadores, três paralisações de árbitros, mais de 40 casos de doping dos jogadores da seleção, o surgimento – e o fortalecimento dos “barrabravas” (os hooligans argentinos), além de acusações de corrupção e de vínculos controvertidos com o poder e empresários amigos que possuem negócios comerciais com a AFA. Grondona costumava relativizar os contratempos pronunciando sua frase preferida: “tudo passa”.
Em 2010, após a derrota argentina na Copa da África do Sul, quando alguns políticos pediram sua remoção, Grondona declarou em uma entrevista: “somente morto eu saio da AFA”.

“Todo pasa” (Tudo passa) é a inscrição no anel que ostentou Grondona até o ano passado. Mas, seus críticos ressaltam com ironia “tudo passa…menos Grondona!”

“Tudo passa, menos Grondona”, afirmavam seus inimigos, já que desde 1979 a AFA teve um único presidente. Mas, a República Argentina teve 13 presidentes durante esse período (os generais e ditadores Jorge Rafael Videla, Roberto Viola, Leopoldo Fortunato Galtieri e Reynaldo Bignone, os presidentes civis constitucionais Raúl Alfonsín, Carlos Menem, Fernando De la Rúa, Ramón Puerta, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Camaño, Eduardo Duhalde, Néstor Kirchner e a atual Cristina Kirchner).

Grondona ufanava-se na década passada que havia sobrevidido a um papa, João Paulo II. No entanto, ultrapassou o mandato de seu sucessor, Bento XVI. De quebra, Jorge Bergoglio, como papa Francisco, iniciou um terceiro pontificado.

Grondona, inicialmente, seria um presidente provisório. Mas, nos seguintes anos, foi reeleito oito vezes. Somente uma vez enfrentou um opositor, o ex-árbitro Teodoro Nitti, em 1991. O rival conseguiu um único voto. Grondona teve 40. Em 2011 foi novamente reeleito. Mas, desta vez a eleição esteve envolvida em um escândalo público, já que o empresário Carlos Ávila tentou realizar uma eleição paralela, sem sucesso. Grondona foi reeleito. Até sua morte nesta quarta-feira não haviam surgido especulações sobre um eventual sucessor de Grondona que não seja o próprio Grondona. Mas agora, sem o poderoso cartola, começa uma luta mortal pelo poder dentro da AFA.

Grondona, sentado à direita da foto. Na cabeceira da mesa, o então ditador e general JR Videla. O governo Kirchner fez questão de escrachar todos os aliados da ditadura. Menos Grondona, que comanda um assunto de alta importância governamental: o futebol.

Durante o longo período no qual  “Don Julio” esteve no comando, a AFA teve onze técnicos da seleção (César Luis Menotti, Carlos Salvador Bilardo, Alfio Basile, Daniel Passarella, Marcelo Bielsa, José Pekerman, novamente Alfio Basile, Diego Maradona, Sergio Batista e Alejandro Sabella).

Os críticos de Grondona afirmam que ele montou uma estrutura que permitiu a consolidação de “uma AFA rica e clubes pobres”.

O poder de Grondona – que presidia a Comissão de Finanças da FIFA – não foi apenas nacional, pois possuía grande influência internacional. O analista esportivo Ezequiel Fernández Moores, autor de livros sobre negociatas no futebol argentino, disse ao Estado que “Joseph Blatter foi reeleito presidente da FIFA em 2002 graças ao respaldo de Grondona, que foi fundamental”.

Cristina Kirchner e Julio Grondona durante uma cerimônia na Casa Rodada.

POPULISMO ESPORTIVO – Nos últimos anos Grondona transformou-se no principal aliado do governo da presidente Cristina Kirchner em sua política de conseguir dividendos eleitorais por intermédio do esporte favorito dos argentinos. Grondona foi a peça crucial para que o governo Kirchner implementasse a estatização das transmissões dos jogos, denominada de “Futebol para todos”.

Em 2009, convencido pelo ex-presidente Néstor Kirchner a cancelar contratos privados, o cartola convenceu os clubes argentinos a aceitar um suculento contrato estatal de US$ 150 milhões anuais até 2019 oferecido pelo governo para ficar com todos os direitos de transmissão do futebol do país.

Este pagamento teve muitos aumentos de lá para cá: entre 2009 e dezembro de 2013 a AFA e os clubes receberam US$ 1 bilhão do governo Kirchner, que concede com frequência acréscimos financeiros.

Os líderes da oposição criticam os gastos e sustentam que a presidente Cristina protagoniza o que denominam de “populismo esportivo” sem precedentes. O governo rebate com o argumento de que está levando “as alegrias” do futebol ao “povo”.

O “Futebol para todos” não conta com publicidade de empresas privadas desde fevereiro de 2010, quando o então ex-presidente Néstor Kirchner (considerado na época o verdadeiro poder dentro do governo de sua mulher e sucessora) ordenou que os jogos somente transmitissem publicidade do governo. A partir dali, as transmissões contavam exclusivamente com vídeos com apologias às obras da presidente Cristina e – eventualmente – publicidade das províncias com governadores aliados e prefeituras.

Em 2011, para agradar Cristina, Grondona batizou o prêmio do campeonato nacional de futebol com o nome do ex-presidente Kirchner, que morreu em outubro de 2010.

Caronte e seu ferry boat que faz a travessia do Aqueronte. O barqueiro do Inferno de Dante Alighieri foi brilhantemente retratado por Gustavo Doré no século XIX para ilustrar “A Divina Comédia”.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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