Sui generis “suicidados” argentinos – Parte 2: o noturno enforcado de óculos escuros
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Sui generis “suicidados” argentinos – Parte 2: o noturno enforcado de óculos escuros

arielpalacios

23 de dezembro de 2009 | 14h05

aghata
Sem dúvida, Agatha Mary Clarissa Miller Christie Mallowan (1890-1976) teria deliciado-se com um caso como este. A “Rainha do Crime”, como era conhecida a autora de “O caso dos dez negrinhos”, “A morte visita o dentista” e “Morte no Nilo”, bem poderia ter escrito “Morte no Prata”, sobre a misteriosa morte de Marcelo Cattaneo.

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Principal testemunha de um dos maiores casos de corrupção da Argentina, Cattaneo suicidou-se de noite, com óculos escuros. Naquela noite de outubro de 1998 usou uma corda de náilon com nó simples (e não o nó que desliza das forcas). Dentro de sua boca, um recorte do jornal “La Nación”, de três dias antes, falando sobre seu desaparecimento.

indicas Quando Pablo Romero saiu para pescar acompanhado por seu neto na manhã do domingo 4 de outubro de 1998, ficou irritado por não conseguir peixe algum. Mais irritado ficou quando o tempo fechou, estragando seu passeio dominical. No entanto, ao proteger-se da chuva em um refúgio de pescadores à beira do Rio da Prata nos terrenos baldios nos fundos da Cidade Universitária, seu estado de ânimo passou da irritação à estupefação: ali, pendurado de uma torre metálica, balançando pendularmente com o vento, jazia o corpo sem vida de Marcelo Cattaneo, uma das testemunhas-chave do caso IBM-Banco de La Nación, o maior escândalo de subornos da História da Argentina.

Esta morte, foi o terceiro suposto suicídio em 1998 de um personagem fundamental envolvido em um escândalo político no país. Os analistas políticos, ao tomarem conhecimento da morte de Cattaneo, não puderam deixar de erguer uma sobrancelhas em sinal de desconfiança: as circunstâncias dessa morte possuíam todos os elementos de uma “queima de arquivo”.

Cattaneo era suspeito de ter sido o “distribuidor” dos subornos do caso IBM-Banco Nación, um contrato de US$ 250 milhões onde foram pagos US$ 21 milhões em subornos. O irmão de Marcelo Cattaneo, Juan Carlos, esteve ligado ao governo do presidente Carlos Menem: foi o vice-secretário de Alberto Kohan, o todo-poderoso secretário-geral da presidência.

Em 1993 o principal banco estatal do país, o Banco de La Nación, contratou a IBM para informatizar todas suas filiais. Na época, a IBM subcontratou outra empresa – a Consad – para implementar um sistema alternativo caso o sistema principal entrasse em colapso. Cattaneo era o presidente da Consad.
A pequena empresa, que realizaria um sistema alternativo que não estava previsto na licitação, teria sido utilizada como via de pagamento dos funcionários do Banco de La Nación que teriam colaborado na obtenção do multimilionário contrato para a IBM.

19vuinhe‘PARTICIPAR DA ALEGRIA’
Cattaneo havia sido “desprocessado” pela Justiça argentina. No entanto, as investigações sobre ele foram retomadas nos meses anteriores à cena citada acima à beira do rio da Prata, quando foi acusado por Genaro Contartese e Alfredo Aldaco – dois ex-diretores do Banco de La Nación – como o distribuidor do dinheiro do suborno, no nome da IBM.

Em abril e maio de 1998, Contartese e Aldaco confessaram que haviam recebido o dinheiro de Cattaneo. Este teria lhes dito que a multinacional dava o dinheiro como “um reconhecimento”, e “uma forma de participar da alegria da empresa por ter conseguido o contrato”.

Além deles, também estão envolvidos no escândalo o ex-presidente do Banco de La Nación, Aldo Dadone e seu irmão Mario, o ex-presidente da IBM, Ricardo Martorana, o vice-presidente da IBM, Gustavo Soriani e o ex-diretor da receita federal argentina, a DGI, Ricardo Cossio.

Cattaneo ia ser convocado pela Justiça para depoimento em outubro de 1998 quando apareceu morto. Nas semanas derradeiras de sua vida sustentava que sentia-se um bode expiatório, e afirmava que queria voltar a depor, para “contar tudo” o que sabia.

“Tudo o que sabia” poderia implicar em graves problemas para diversos funcionários do governo Menem.

vinhetas18GUARDA-ROUPA MUDADO E CORDA DE NÁILON
No dia em que desapareceu, uma quarta-feira, Cattaneo, de 42 anos, vestia terno e gravata.

No domingo, quando reapareceu pendurado de uma corda de náilon a três metros de altura do chão, balançando levemente ao sabor do forte vento proveniente do Rio da Prata, Cattaneo estava com guarda-roupa mudado: de training azul e tênis vermelhos.

A família ficou surpresa: Cattaneo era particularmente sóbrio, e não usaria esse tipo de roupa.

Além disso, outro fator chamou a atenção: porque alguém que se suicida à noite estaria usando, como ele, óculos escuros?

O lugar escolhido para sua morte também gerou suspeitas: um imenso terreno vazio nos fundos da Cidade Universitária.

Também suscitou desconfiança o fato de que Cattaneo teria chegado ali a pé, já que seu carro particular foi encontrado, dias depois, estacionado a quarenta quarteirões de distância, em Olivos. Os pneus do carro, uma camionete Fiorino, estavam cheias de lama, o que indicaria que foi movimentada após a chuva do domingo de manhã, quando foi encontrado seu corpo.

Se Cattaneo chegou até esse inóspito lugar a pé, pelo menos preocupou-se em poupar trabalho para quem o encontrasse, já que no bolso de sua calça esportiva foram encontrados seus documentos.

A roupa original de Cattaneo também havia desaparecido do carro, mas foi encontrada por dois mendigos a mais de 200 metros do local da morte. Dentro do bolso do paletó, havia um barbeador recém-utilizado. Além disso, um recibo de uma casa de vestimenta esportiva. No entanto, na loja ninguém lembra de Cattaneo comprando o jogging e os tênis.

A 51a. Delegacia de Buenos Aires, responsável pelo região da cidade onde o corpo de Cattaneo foi encontrado, não foi notificada que o principal suspeito do caso IBM-Nación estava sendo procurado desde a quarta-feira. “Talvez o aviso perdeu-se no meio da papelada”, desculpou-se um porta-voz da polícia.
A atuação da polícia levanta suspeitas: o cadáver de Cattaneo foi encontrado por um pescador; o carro, por uma equipe de reportagem de TV, e as roupas, por dois mendigos.

Os policiais que retiraram seu corpo da torre sem ter feito perícia alguma, afirmaram que o corpo não apresentava sinais de violência. Além disso, pontificaram: “suicídio na certa”. Mas a juíza Gabriela López de Ouviña definiu a investigação como “averiguação de suicídio”.

vinhet26isESFORÇO PARA SUICIDAR-SE
Além destas estranhas omissões da Justiça e da Polícia, há outros pontos obscuros na morte de Cattaneo: o lugar escolhido para seu suicídio é de difícil acesso.

A torre metálica onde se pendurou está dentro de um pátio.

Para chegar ali, deve-se subir ao teto de uma casa abandonada e dali pular para o pátio.

Depois disso, Cattaneo teria que ter subido à torre, para seu concretizar seu suicídio.
A manobra era complexa, e se fosse para pendurar-se de algum lugar, Cattaneo poderia ter escolhido uma das diversas árvores existentes no local.

O laço da corda com a qual se enforcou tinha um nó simples, e não um nó de laço para enforcar, Além disso, morreu por asfixia, que é uma das prováveis causa mortis de quem se enforca, embora a grande maioria das pessoas que se pendurem a essa altura morra por rompimento da medula.

Os óculos escuros não pertenciam a Cattaneo, mas entre seus pertences dentro da camionete, foram encontrados seus verdadeiros óculos escuros. Mas o elemento que mais chamou a atenção no caso foi que dentro da boca de Cattaneo foi encontrado um pedaço de papel: um recorte do jornal La Nación, com um artigo sobre o escândalo IBM-Nación e ele próprio.

vinhetas41lCONVENIENTEMENTE ‘SUICIDADOS’
O pescador que encontrou o corpo não foi convocado pela Justiça para prestar depoimento. Nem outros pescadores que afirmam que na noite anterior viram um carro vermelho e uma camionete parecida à Fiorino de Cattaneo circular perto da torre onde se suicidou, na mesma noite da morte. Outra testemunha, tampouco convocada, sustenta que poucas noites antes da morte de Cattaneo, três homens vestidos com roupas pretas andavam pela área com lanternas.

“Por quê um lugar tão sinistro para o suicídio, por quê a roupa de ginástica, por quê os documentos, porquê havia comido tão bem na noite anterior, se estava deprimido?”, perguntava-se o principal analista policial da Argentina, o jornalista Enrique Sdrech, já falecido (de causas naturais, há poucos anos).

Segundo ele, a morte de Cattaneo foi similar em muito pontos aos intrigantes suicídios do empresário Alfredo Yabrán (principal suspeito de ser o mandante do assassinato do jornalista fotográfico José Luis Cabezas) e do capitão Horácio Estrada (uma das testemunhas-chave do escândalo da venda de armas à Croácia e Equador).

Somado à falta de resultados sobre os atentados à Embaixada de Israel (em 1992) e da associação beneficente judaica AMIA (em 1994) e à obscura morte de Carlos Menem Jr. (em 1995), o filho do presidente argentino – entre várias outras – Cattaneo acrescenta-se à longa lista de mortes oportunas que eliminam os cada vez mais evidentes rastros entre o delito e os integrantes da administração argentina de plantão.

indicardors E é sempre bom lembrar o que dizia Ezra, o cético antiquário de tira Mort Cinder, do emblemático desenhista uruguaio Alberto Breccia (1919-93) e do roteirista argentino Héctor Oesterheld (1919-77)…
breccia

indicandos
Este blog interrompe a programação funérea para desejar um batuta Natal para todos os leitores e comentaristas…

Boa Véspéra de Natal a todos!!!! Meus desejos de uma excelente noite na companhia das pessoas que mais gostam!

E que todos recebam os presentes que esperam, desde a paz mundial, passando por uma caixa de castanhas de caju cristalizadas, a nova edição do Cortázar, um abraço e um afago na cabeça das avós e dos avôs, o fim da fome no mundo, a bicicleta nova, um quilo de queijo manchego e até um hipotético CD de ‘Sérgio Reis meets Plácido Domingo’.

E de prévia de presente natalino, duas tirinhas da Mafalda, de Quino!

nataalmafalda

Abraços a todos!!!
Ariel

vinhetas23

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