Tiradas borgianas
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Tiradas borgianas

arielpalacios

13 de abril de 2009 | 05h30

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O escritor Jorge Luis Borges (1899-1986) foi conhecido mundialmente por obras como “O Aleph”, “Ficções” e “O Livro de Areia”. Mas, somente alguns poucos – principalmente os portenhos – conheceram de perto suas tiradas.
Aqui seguem algumas delas, para começar a semana:

COPO D’ÁGUA – Borges está sentado, pronto para dar uma conferência no Hotel Bauen, em Buenos Aires. Na sala, o público conversa sem parar. A organizadora, Silvia Gherghi, lhe pergunta se pede silêncio para que ele possa começar a conferência. Borges lhe pergunta se em cima da mesa há um copo d’água e uma jarra, como ele pediu. A organizadora diz que sim, e ele então comenta com um sorriso maroto: “então não peça silêncio. Eu vou fazer de conta que procuro o copo, lentamente, como se não pudesse encontrá-lo. Isso faz as pessoas se calarem rapidamente”.

MEDIOCRIDADE – Nos anos 80, na França, Borges estava sendo entrevistado para a TV, quando o jornalista lhe perguntou se percebia que era um dos grandes escritores do século XX. Com sua habitual elegância para escapar das lisonjas, Borges respondeu: “é que este foi um século muito medíocre”.

CHE GUEVARA – Em outubro de 1967 um estudante interrompeu a aula de literatura inglesa proferida por Borges na faculdade anunciando que as aulas teriam que ser imediatamente interrompidas pela recém ocorrida morte de Che Guevara. Borges diz ao estudante que terminará sua aula, e que depois os alunos poderão prestar a homenagem. O estudante grita que tem que ser nesse instante e que Borges terá que ir embora. O escritor replica: “Não vou embora. Se você for tão valente, venha em tirar daqui”. O aluno ameaça apagar a luz da sala. E Borges responde: “Eu já tomei a precaução de ser cego esperando este momento…”.

SOU EU? – Borges caminhava pela rua, sozinho, quando uns rapazes que passavam de carro lhe perguntam “Mestre! Quer que o levemos? Para onde vai?”. Borges lhes responde “para minha casa, na rua Maipú”. Já dentro do carro, a ponto de chegar, o escritor pergunta: “Como é que vocês perceberam que era eu? Ah, claro, porque sou Borges….”.

DROGAS – Um jornalista do “La Razón” entrevista Borges na esperança de ter uma manchete memorável, e lhe pergunta “alguma vez o sr. experimentou drogas?”. E Borges lhe respondeu: “Em diversas ocasiões tentei fumar maconha, mas sempre fracassei. Finalmente, optei pelas pastilhas de menta”.

CENTENÁRIO – Aos 99 anos, em 1975, morreu Leonor Acevedo de Borges, mãe do escritor, que nos 20 anos anteriores, por causa da cegueira do filho, havia servido de secretária para os textos que ele lhe ditava.
No velório, uma mulher lhe deu os pêsames e disse “coitada de dona Leonor, morrer tão pouco antes de fazer cem anos. Se tivesse esperado um pouquinho mais…”.
Borges lhe respondeu: “percebo, minha senhora, que é uma devota do sistema decimal!”.

CORREDOR – No começo dos anos 70, apesar da cegueira, Borges pode eventualmente ver algumas sombras. Na Biblioteca Nacional, em um estreitíssimo corredor, está a tradutora Clara Argibay, que subitamente vê que Borges caminha em sua direção entre as estantes. Transtornada pela emoção, ela não sabe o que fazer, e começa a se mover para a esquerda, a direita várias vezes no corredor, para dar passagem ao famoso escritor.
Argibay finalmente se espreme contra uma estante, de costas. Nesse breve intervalo, Borges continuou seu caminho sem se desviar, e com seu costumeiro olhar perdido no infinito, ao passar ao lado dela, o escritor murmura: “o cego sou eu…”.
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