Tirem lascas do chão! Começou o Festival Mundial de Tango
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Tirem lascas do chão! Começou o Festival Mundial de Tango

arielpalacios

14 de agosto de 2010 | 16h15

blogetiqueta_mayol

O escritor espanhol Manuel Mayol, quando residia na Argentina nas primeiras décadas do século XX, saía com frequência para noitadas embaladas pelo tango. Para o caso de ser encontrado inconsciente devido à ingestão de significativo volume de etílicos, pedia a quem o visse nesse estado que amarrasse na lapela de seu paletó o cartão acima, que tinha a legenda: “ESTOU DE FARRA – Suplico à pessoa que me encontre ‘en pedo’ (bêbado), amarrar esta etiqueta na casa do botão de meu paletó. ENVIE-ME PARA CASA. Nome: Mayol, Manuel. Endereço: Av. de Mayo 1334 – 3-10. Por favor, não bata na porta, mas sim, toque a campainha e espere que me recebam”. Mayol era o editor da principal revista argentina da época, a “Caras y Caretas”.

blog1dedo2b“Sacar viruta al piso” (tirar lascas do chão) – uma das mais típicas expressões do tango para indicar o frenesi pela dança – marca o espírito que promete tomar conta de Buenos Aires nas próximas duas semanas, já que nesta sexta-feira iniciou o “Tango Buenos Aires, Festival e Campeonato mundial”.

Esta oitava edição do evento contará com shows de dança, apresentações musicais, além de conferencistas que dissertarão sobre as origens, presente e futuro deste ritmo musical que o escritor argentino Jorge Luis Borges costumava definir como “uma forma de caminhar pela vida”.

Mais de 430 casais da Argentina, outros países da América do Sul, Europa e Ásia demonstrarão seus talentos tangueiros neste festival, que concentrará a nata dos dançarinos do tango mundial até o 31 de agosto, dia do encerramento.

As apresentações de dança estarão divididas entre o “tango cenário” (estilo de tango com coreografia elaborada para shows) e o “tango salão” (o tango tradicional, dançado nos salões das tanguerías ou milongas).

blogmilonga

Foto do festival do ano passado. Público ‘saca viruta del piso’ durante festival de tango (Crédito: prefeitura da cidade de Buenos Aires)

O Buenos Aires tango contará com 150 shows e atividades gratuitas, entre concertos de tango, shows de dança, conferências, aulas de tango (uma das professoras será uma das estrelas atuais, a dançarina Mora Goodoy) e ciclo de cinema sobre esse ritmo do rio da Prata. Os organizadores afirmam que a ambição é superar a faixa de 300 mil participantes do ano passado.

As finais do campeonato de tango salão e tango cenário serão realizadas nos dias 30 e 31 de agosto no Luna Park, em pleno centro portenho.

O link oficial do Festival de Tango, aqui.

TANGO, DAS ORIGENS AFRICANAS AO TECHNO

Tango platino: O ritmo surgiu às margens do rio da Prata nos bairros dos ex-escravos africanos em Buenos Aires e Montevidéu ao redor de 1850. Na três décadas seguintes foi absorvido pelos argentinos não-africanos, que incorporaram o violão ao ritmo. No final do século dezenove estava totalmente transformado com as influências dos imigrantes italianos, que incluíram o piano, a flauta e o violino. Na mesma época, graças aos imigrantes alemães, entrou em cena o bandoneón. A partir do século vinte tornou-se a música-símbolo da Argentina e do Uruguai. É também um ritmo popular na distante Finlândia, onde o tango chegou com força na década de 20 e desenvolveu-se de forma independente. Para mais detalhes sobre a origem do tango, veja esta postagem, aqui. 

E outra postagem, sobre como continuou o caminho do tango, aqui.

Carlos Gardel: Os argentinos e os franceses afirmam que nasceu em Toulose, França, e migrou com sua mãe para a Argentina aos três anos de idade. Os uruguaios afirmam que Gardel nasceu no interior do Uruguai, na cidade de Tacuarembó. Em seu documento de identidade Gardel se apresenta como nascido no Uruguai. Mas, o próprio Gardel, em seu testamento, afirma que é francês de nascimento. No meio deste imbroglio de informações, a única certeza sobre sua vida pessoal (no que concerne à nacionalidade e preocupações afins sobre passaportes) é que ele passou sua infância, adolescência e parte da vida adulta em Buenos Aires, portanto, “portenho” de criação. E além disso, que morreu em 1935 em um acidente de avião na Colômbia. Seu corpo está enterrado no cemitério portenho de La Chacarita. Para mais detalhes sobre Gardel, esta postagem do ano passado, aqui.

Le Pera, o ítalo-brasileiro-argentino: As letras de maior sucesso de Gardel foram compostas por seu parceiro Alfredo Le Pera, nascido no Brasil, filho de imigrantes italianos (mas, criado desde os três meses de idade na Argentina).

Astor Piazzolla: Este bandoneonista, nascido na cidade de Mar del Plata, que morou parte da infância em Nova York (onde conheceu Carlos Gardel), renovou o tango a partir dos anos 50 (mas com mais ênfase a partir dos 60). Foi a principal corrente de renovação do tango até o surgimento do tango techno. Para mais detalhes de uma das mais famosas melodias de Piazzolla, o “Balada para um loco”, aqui.

Tango techno: Ritmo que renovou o tango. O gênero cresceu em meio à crise social e econômica de 2001-2002. Um dos principais expoentes é o grupo “Bajofondo” e o “Gotán Project”.

Milongas: “Milonga” é um ritmo de tango acelerado, com raízes africanas mais evidentes. No entanto, como estabelecimento, “milonga” significa lugar onde se dança o tango. Exemplo: “ontem à noite fui dançar em uma milonga no centro”.

Consumo: Autoridades portenhas e especialistas afirmam que apesar do tango ser um dos principais símbolos da Argentina no imaginário dos visitantes estrangeiros, ele é consumido por uma faixa que oscila dos 25% aos 30% de habitantes do país. 

blog-borges-ojos

Jorge Luis Borges. Segundo ele, o tango “é uma forma de caminhar pela vida”.

LETRAS DE TANGOS, OS ASSUNTOS TOP FOUR (breve guia):

La Pebeta: La pebeta, a garota. A mulher amada. Ou aquela pela qual estamos inexoravelmente atraídos. Sempre está na nas letras. E em boa parte das canções, ela deixa os protagonistas. O tango “Percanta”, em uma versão techno, aqui.

La vieja, viejita: A velha, a velhinha. Ora, a mãe. Mãe é sempre sagrada. Mas no tango, mais ainda. Sempre trabalha para dar tudo aos filhos. E os filhos, nem sempre percebem isso. Ou percebem quando já são marmanjos. O famoso tango “Silêncio”, aqui.

La barra, los muchachos: A turma, os rapazes. Os amigos de toda a vida. Em “Cafetín de Buenos Aires” os amigos estão muito presentes. Um link do Youtube sobre este tango, aqui.

El barrio: O bairro. O lugar onde os protagonistas nasceram e passaram boa parte de suas vidas. É quase um ‘feudo’ no qual transcorrem as letras. Ou, em vários casos, os tangos transcorrem em outra parte do planeta…mas, sempre chora-se a saudade do bairro. Sobre o amor por um bairro, “Barrio de Tango”, aqui.

Buenos Aires: Buenos Aires é assunto de muitos tangos. É a cidade comme il faut desse ritmo musical. Não é à toa que “Mi Buenos Aires querido” é um dos tangos mais famosos. Mas, o meu preferido, neste caso, é “Anclao en Paris”, no qual o intérprete fala sobre B.Aires, desde a capital francesa. Um link do Youtube com este tango, aqui.

romederos2

Rodolfo Mederos, um dos artistas do ano passado, que também estará presente no festival que começou sexta-feira.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

……………………………………………………………………………………………………
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico
).

……………………………………………………………………………………………….. 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: