No centro portenho, uma homenagem de 100 metros de altura à Divina Comédia
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No centro portenho, uma homenagem de 100 metros de altura à Divina Comédia

arielpalacios

06 de abril de 2009 | 07h00

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“Mais do que um edifício, eu administro uma lenda”, costumam afirmar os síndicos do Pasaje Barolo

O italiano Luigi Barolo, imigrante italiano que instalou-se na Argentina no final do século XIX, prosperou e transformou-se em um dos pioneiros da indústria têxtil neste país. Milionário, decidiu encomendar ao arquiteto Mario Palanti, conterrâneo seu, um prédio para seus escritórios. Foi batizado com o nome de “Pasaje Barolo”.

Os planos de Barolo e Palanti, consistiam em colocar no centro portenho um marco da arquitetura monumental. Mas, além da obra em si, a dupla tinha o delirante plano de levar para Buenos Aires as cinzas do mais emblemático poeta italiano, Dante Alighieri, autor da ‘Divina Comédia’ e colocá-las em uma cripta no edifício.

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Dante, obsessão de Barolo e Palanti (gravura de Gustave Doré)

Barolo e Palanti estavam fascinados com Dante. Por este motivo, inauguraram o prédio em 1923, no dia 7 de junho, aniversário do autor. Barolo e Palanti argumentavam que a Europa – que estava recuperando-se dos horrores da Primeira Guerra Mundial – cairia mais uma vez em guerra, e que era preciso proteger o corpo de Dante. A ideia era colocar as cinzas sob o hall central.

No entanto, o Mausoléu-edifício de escritórios nunca cumpriu seu objetivo, já que o corpo de Dante nunca saiu de Ravena, Itália.

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Cúpula do Barolo conta com um farol, que na época em que era ligado podia ser visto desde o meio do rio da Prata

Com um estilo definido como “semi-gótico veneziano” – com um touch de arquitetura religiosa da Índia (pois a cúpula inspira-se no templo hindu de Budanishar, dedicado ao Tantra) – o prédio inteiro está totalmente inspirado na Divina Comédia. Por este motivo, possui exatamente 100 metros de altura, para corresponder aos 100 cantos da obra de Dante.

O Pasaje Barolo conta com 22 andares, cada um contendo 22 escritórios, igual à quantidade de versos de cada um dos 100 cantos da Divina Comédia.

O prédio está carregado de simbolismos. Foi construído no décimo-terceiro quarteirão da avenida de Mayo, onde estão os edifícios com números a partir do número 1.300, para representar os anos em que Dante escreveu sua obra-prima (estima-se que começou a escrevê-la em 1307 e a concluiu pouco antes de sua morte, em 1321.

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Hall do edifício possui inscrições em latim

O teto do imenso hall – que parece uma catedral – está dividido em nove partes, tal como os nove passos da iniciação e as nove hierarquias infernais. Catorze frases em latim (algumas de Virgílio, outras da Bíblia), decoram o hall.
O prédio tem um farol no alto, que representa os nove coros angelicais e está sob a constelação do Cruzeiro do Sul, com a qual fica alinhado nos primeiros dias de junho às 19:45.

O prédio está construído embasado na proporção áurea e o número de ouro.
O térreo é o Inferno, os primeiros 14 andares são o Purgatório. Os restantes andares representam o Paraíso. O farol representa Deus.

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O romano Virgílio, tour-guide do florentino Dante, atravessando o Aqueronte no ferry-boat de Caronte. Pingentes atrapalham o passeio (quadro de Eugène Delacroix, 1822, Museu do Louvre)

Curiosidades:
– Grande parte do filme Highlander II, de Russel Mulcahy, com o ator Cristopher Lambert, foi filmada no Pasaje Barolo

– O Barolo foi o prédio mais alto de Buenos Aires a partir de 1923. Mas, esse posto foi arrebatado em 1935 pelo edifício Kavanagh, na praça San Martín.

O edifício foi a celebração do imigrante que ‘fez a América’.

Endereço: Avenida de Mayo, 1370

Ao longo da semana colocaremos mais dicas de lugares para ver em Buenos Aires durante o feriadão de Semana Santa.

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