Cristina no governo, Néstor no poder
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Cristina no governo, Néstor no poder

arielpalacios

25 de maio de 2009 | 13h21

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Quem é quem no casal Kirchner? Em Buenos Aires, analistas, empresários e a opinião pública consideram que “Cristina governa, mas quem manda é Néstor”. Fotomontagem que ilustra o imbróglio dos Kirchners

Nesta segunda-feira dia 25 os Kirchners – Néstor e Cristina – completaram seis anos no poder. Quando Cristina – a segunda dos Kirchners a tornar-se presidente – tomou posse, os analistas e a população especulavam que seria um governo bicéfalo, já que a presença do ex-presidente Kirchner despontava como assegurada e intensa.
Kirchner, nos primeiros meses do governo de sua esposa, brincava, afirmando que fora de “El sillón de Rivadavia” (a cadeira presidencial) se dedicaria “ao café literário”. Mas, continuou exercendo o poder. E até alugou um escritório em Puerto Madero, a sete quarteirões da Casa Rosada, o palácio presidencial, para estar – fisicamente – perto do poder.

No entanto, desde o início, Kirchner não escondeu que o verdadeiro poder continuava sendo ele próprio. Líderes sindicais, empresariais e políticos costumam reunir-se com ele primeiro antes de falar com sua esposa.

Nos últimos tempos, Kirchner, que não possui cargo oficial algum no governo, até faz anúncios econômicos em nome da esposa.
Há poucas semanas lançou sua candidatura a deputado federal pelo governista Partido Justicialista (Peronista) e sua sub-legenda Frente pela Vitória (FpV).

Kirchner, embora tenha feito toda sua carreira política em sua província natal, Santa Cruz, será candidato pela província de Buenos Aires.

Motivos para isso há de sobra: o território bonaerense concentra 38,1% do eleitorado argentino…enquanto que Santa Cruz possui apenas 0,5% dos eleitores do país.

BREVE DISSECAÇÃO DOS SEIS ANOS ‘K’
No dia 25 de maio de 2003, Néstor Kirchner tomou posse como presidente da República.
Seu mandato acabou no dia 10 de dezembro de 2007.
Desta forma, Kirchner foi presidente durante quatro anos e meio.
O mandato presidencial argentino é de quatro anos.
No entanto, Kirchner tomou posse seis meses antes do previsto, já que as eleições presidenciais foram realizadas um semestre antes.

Esse imbróglio começou quando o presidente Fernando De la Rúa renunciou no meio do caos social, financeiro, econômico e político de dezembro de 2001.

No dia 2 de janeiro de 2002 tomou posse o senador Eduardo Duhalde. A princípio, ele completaria o mandato inacabado de De la Rúa. Isto é, deveria passar o poder em dezembro de 2003.

Mas, uma série de conflitos sociais em julho de 2002 levaram Duhalde a anunciar uma antecipação do fim de seu mandato. Desta forma, convocou eleições para abril de 2003. O novo presidente seria empossado no dia 25 de maio.

O menos votado:
Aqui, mais uma reviravolta da História: os candidatos eram Kirchner e Carlos Menem. No primeiro turno Menem conseguiu 24,2% dos votos, enquanto que Kirchner obteve 22%. Mas, o segundo turno nunca ocorreu.
Dias antes, Menem – perante a imensa maioria das pesquisas que indicavam que ocorreria uma onda de votos anti-Menem, e que Kirchner – embora um desconhecido para maioria das pessoas – conseguiria 70% dos votos, “El Turco” renunciou ao segundo turno.

Kirchner tomou posse como o presidente menos votado da História da Argentina, batendo o recorde de Arturo Illía, que em 1963 foi eleito com 25,14% dos votos.

Kirchner completou os seis meses que faltavam para terminar o mandato inacabado de De la Rúa (e o de Duhalde) e os quatro anos próprios.

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Analistas indicam que Cristina, embora apareça mais, é presidente protocolar; Néstor é quem tem as rédeas do poder

Do marido à esposa:
Em 2007, mais uma peculiaridade da política argentina: Kirchner decidiu apresentar sua própria esposa como candidata presidencial. Sem convenção interna partidária.

A senadora Cristina Kirchner venceu as eleições presidenciais de outubro de 2007 no primeiro turno, com 45,6% dos votos.

Pode parecer peculiar, novamente, mas é que a reforma constitucional de 1994, realizada durante o governo Menem, estabeleceu que não seria necessário um segundo turno se alguém…
A – …conseguisse 40% dos votos, sendo que o segundo colocado teria que estar pelo menos 10% abaixo do primeiro colocado. Isto é, poderia vencer no primeiro turno um candidato que tivesse 40% dos votos, enquanto o segundo tivesse 30%. Ou menos.
B- …tivesse mais de 45% dos votos, independentemente de quantos votos tivesse obtido o segundo colocado.

Dois presidentes na cama:
E aqui está mais uma peculiaridade da intrincada política local: Kirchner transformou-se no primeiro presidente eleito nas urnas na História mundial a passar o poder a sua própria esposa, também eleita nas urnas. Caso para o livro Guiness dos Recordes.

Entre outubro e dezembro de 2007 a residência presidencial de Olivos albergava uma situação inédita na História do mundo: dois presidentes dormiam na mesma cama.
Isto é, a presidente eleita Cristina Kirchner e o presidente “saliente” (expressão usada na Argentina para o presidente que está “saindo” do cargo) Néstor Kirchner.

Esse status diferente do leito presidencial mudou a partir do dia 10 de dezembro de 2007, data da posse de Cristina, quando Kirchner tornou-se o “primeiro-cavalheiro” da República.

No ano passado, segundo fontes, no meio da crise com os ruralistas, Cristina, circunstancialmente farta da interferência do marido, teria gritado: “La presidenta soy yo, carajo!”

Os ministros de Cristina, a maioria herdados de seu marido, continuam referindo-se publicamente a Kirchner como “el presidente”, sem perceber a gafe que cometem.
Por este motivo, em Buenos Aires costuma usar-se a expressão “Cristina no governo, Kirchner no poder”, para explicar como funciona a relação de forças desse sui generis casal presidencial.

SEMINÁRIO EM BUENOS AIRES
Para aqueles que estiverem em B.Aires nesta 5afeira dia 28, um seminário no Centro Cultural Borges, que terá um bom debate sobre a visão do Brasil na Argentina e vice-versa (estarei participando dos debates):

JORNADA ACADÉMICA BINACIONAL ARGENTINA – BRASIL

¿CÓMO SE PERCIBEN AMBAS SOCIEDADES A TRAVÉS DE LA CULTURA Y LOS MEDIOS DE COMUNICACIÓN?
Con la participación del Ministro Rodrigo Baena Soares; el Embajador de la República Federativa del Brasil, Mauro Vieira; el rector de la UNTREF, Aníbal Jozami; periodistas y especialistas.

La Universidad Nacional de Tres de Febrero organiza la jornada académica binacional Argentina – Brasil donde se reflexionará acerca de cómo se percibe la sociedad brasilera y la argentina a través de la cultura y de los medios de comunicación.

La jornada se llevará a cabo el jueves 28 de Mayo de 2009, de 15 hs. a 19:30 hs. en la sede de posgrados de la UNTREF Viamonte 525, 2do. piso, sala 27 del Centro Cultural Borges de la Ciudad de Buenos Aires. Informes e inscripción: 4314-0022

El objetivo de la jornada es analizar cómo ha evolucionado la mirada de ambas sociedades desde la crisis de 1929 hasta la crisis de 2008, superar la visión de “vecinos distantes” y la existencia de “estereotipos” culturales y clichés gastados que aun persisten e interfieren la consolidación de una alianza estratégica entre ambos países y la formación de un eje político, económico y cultural, fundamental para la unidad de América del Sur. Se trata de abordar la relación bilateral con realismo, sin duplicidades, valorando su potencialidad, pero sin disimular la falta de convergencia en ciertos planos como pueden ser las diferentes posturas -que incentiva la crisis internacional- en temas como el proteccionismo, el voto divergente en la Ronda de Doha o la posición en el G20.

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