Patinhos fora de alinhamento: lelés da cuca, segundo os portenhos
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Patinhos fora de alinhamento: lelés da cuca, segundo os portenhos

arielpalacios

18 de julho de 2009 | 14h00

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Na Argentina, quando alguém não tem os patinhos alinhados em fila, equivale à pessoa que pensa que berimbau é gaita. Os integrantes da família dos Anatidae na ilustração acima estão bem alinhados

Os portenhos usam as mais variadas expressões e palavras do lunfardo (gíria) para referir-se a alguém que possui um – ou vários – parafusos a menos. Aqui segue um pequeno manual sobre o assunto.

No tiene los patitos en fila: Não possui os patinhos em fileira. Usado com ironia para referir-se a alguém que está meio biruta.

No tiene todos los caramelos en el frasco: Não possui todos os caramelos no pote. Também usado para indicar que alguém está um tanto quanto lelé.

Le faltan un par de jugadores en la cancha: Faltam-lhe alguns jogadores no campo. Idem, idem sobre alguém biruta.

Le falta un tornillo: Falta-lhe um parafuso. Tal como no Brasil. E aqui, um link do Youtube com “Al mundo le falta un tornillo”, tango cantado por Julio Sosa. Letra de Enrique Cadícamo e música de José María Aguilar.
O link:

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Em 1996, durante uma visita a crianças de uma escola pública na paupérrima província de Jujuy, o então presidente Carlos Menem disse que no ano 2000 poderiam viajar da cidade de Córdoba até Tóquio em duas horas. Segundo Menem, seria em um foguete, que iria pela estratosfera. Sobre essa promessa de Menem, muitos levantaram a sombrancelha e perguntaram na época: “le falta un tornillo?”. A linha Córdoba-Tóquio ainda não foi inaugurada

No le llega agua al tanque: A água não chega em seu tanque. Refere-se à pessoa suspeita de ter alguns parafusos a menos.

“De la gorra”: Literalmente, “Do boné”. Lelé. Exemplo, “estás de la gorra si te imaginás que podés hacer una apologia de la lechuga en este asado” (você está da gorra que acha que pode fazer uma apologia da alface neste churrasco)

“Del tomate”: Literalmente, “Do tomate”. Não bate bem da cabeça. Exemplo: “vos estás del tomate si crees que los hermanos diputados Mutatis y Mutandis de Anchorena van devolver el dinero que robaron” (você está do tomate se acha que os irmãos deputados Mutatis e Mutandis de Anchorena vão devolver o dinheiro que roubaram).

Chapita: Pinel. Doidinho. Lelé da cuca. Excêntrico. Usa-se com o verbo “estar”. Alguém “está chapita” Também usa-se o “re-chapita”. Doidinho da Silva.

Colifato: Louco de pedra. Também usa-se a versão abreviada, “colifa”.

Pirado: tal como em português.

Pirucho: variante de pirado.

Piantado: Louco. “Piantao” é uma forma de falar portenha a mesma gíria portenha de “piantado”. É a palavra usada em um dos mais famosos versos de “Balada para un loco”, música de Astor Piazzolla e letra de Horacio Ferrer (poeta uruguaio que reside há anos em Buenos Aires e é o presidente da Academia Nacional do Tango da Argentina).

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Larguirucho, personagem do desenhista García Ferré, um piantado total encontra-se nesta historinha com Roberto Goyeneche, um dos intérpretes do tango supracitado de Piazzolla. E, ao lado Aníbal ‘Pichuco’ Troilo, tangueiro-mor, amigo de Piazzolla

Rayado: Literalmente, ‘riscado’, tal como um disco de vinil. Louco. “Están rayados???”

Limado: A palavra provém da prática no automobilismo, de limar a tampa dos cilindros, para propiciar mais potência aos motores. Isto é, o motor fica mais nervoso..mas também mais frágil. Um louco ‘acelerado’.

Paniquear – Verbo. Ter um panic attack. “Meu amigo paniqueó” (meu amigo ‘paniqueou’). Usa-se na Argentina e outros países da América Latina.

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Sigismund Schlomo Freud, na Argentina, é corriqueiro como o ‘desayuno’ com café com leite e medialunas (croissants), o churrasco com os amigos e os raviolis dominicais com os avós.

APÊNDICE FREUDIANO-PORTENHO
Psicopatear: Psico-chutar. Fazer tortura psicológica, chantagem emocional. Abuso psicológico.
Conjuga-se: Yo psicopateo, tu psicopateas, el psicopatea, nosotros psicopatemos…
“Me siento psicopateado” (Me sinto psico-chutado).
“No me andés psicopateándome, andá a tu analista” (Não fica me psico-chutando, vai pro teu analista)

Psicobolche: Esquerdista com background psicanalítico. ‘Freudomarxista’.

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Karl Heinrich Marx e amigos em festa de arromba

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BÔNUS TRACK:
E, para encerrar, ‘Balada para un loco’, de Astor Piazzolla, denominado “un loco lindo” (um ‘louco lindo’, algo meio equivalente a um maluco beleza, mas sem conotação explícita sobre um jeito hippie ou de contra-cultura).

Neste, Roberto Goyeneche canta o emblemático tango

Nesta, a intérprete é Amelita Baltar, a mais famosa das cantoras dos tangos de Piazzolla (e sua ex-esposa)

Amelita Baltar, de novo

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Ferrer, à esquerda, Piazzolla, à direita da foto. Os dois revolucionários do tango em seus jovens anos.

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