Toilette-gate: Esses peculiares políticos e seus comprometedores banheiros (e homenageamos sir John Harrington, poeta e inventor do moderno vaso sanitário, nos 400 anos de sua passagem para a imortalidade)
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Toilette-gate: Esses peculiares políticos e seus comprometedores banheiros (e homenageamos sir John Harrington, poeta e inventor do moderno vaso sanitário, nos 400 anos de sua passagem para a imortalidade)

arielpalacios

02 de novembro de 2012 | 17h03

Banheiro-gate: Felisa Miceli, ex-ministra dos Kirchners é a primeira a sentar no banco dos réus por dinheiro encontrado no retrete ministerial. Miceli não justifica dinheiro encontrado em uma sacola em seu banheiro privado. Acima, ilustração que mostra papel-higiênico vitoriano. Na segunda metade inferior da postagem, nossa homenagem ao emérito sir John Harrington, que nunca – suponho – imaginaria que sua criação seria cenário de escândalo de corrupção e de gasto oficial.

Felisa Miceli, ex-ministra da Economia, tornou-se nesta segunda-feira a primeira integrante do governo Kirchner a sentar no banco dos réus para um julgamento oral e público de um escândalo de corrupção, o denominado “Caso do Banheiro”. Miceli é acusada de encobrimento da uma operação financeira ilícita e da destruição de documentos oficiais. O caso veio à tona em 2007, quando os guardas da Brigada de Explosivos do Ministério da Economia encontraram no banheiro privado da ministra uma sacola de papelão com notas de pesos argentinos e dólares de origens misteriosas.

Entre 2005 e 2007 Miceli foi a primeira mulher na História da Argentina a ocupar a pasta da Economia.

Felisa Miceli, ainda ministra, antes do affaire do retrete

Na época, Miceli, que era ministra do governo de Néstor Kirchner, forneceu uma série de confusas explicações sobre a origem do dinheiro dentro da sacola de papelão, onde estavam guardados 100 mil pesos (na época cotados a US$ 35 mil), além de outros US$ 31 mil em cédulas americanas. Miceli alegou que o dinheiro era seu, e que havia sido guardado no banheiro para realizar uma operação imobiliária para sua filha. Mas, dias depois, afirmou que o dinheiro era de um de seus dois irmãos, Horácio Miceli. No entanto, posteriormente argumentou que os pesos e os dólares eram de outro irmão, José Rubén.

Após o surgimento de pistas que indicavam que o dinheiro havia saído de forma irregular do Banco Central, a ministra renunciou ao cargo.

A investigação jornalística original do jornal “Perfil” que trouxe à tona o escândalo havia revelado que a quantia encontrada na sacola de papelão consistia em US$ 140 mil, 50 mil euros e 100 mil pesos.

Este é o primeiro escândalo de corrupção do país que teve como cenário um toilette.

Breve interlúdio pictórico:

“La toilette”, do pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec. O quadro, de 1896, está no Museu D’Orsay, Paris.

Voltamos à nossa programação normal:

Anos depois Miceli começou a trabalhar na Fundação das Mães da Praça de Mayo, onde envolveu-se em um novo escândalo. Desta vez, em um fundo fiduciário irregular para a construção de casas populares.

Miceli – que atualmente afirma que é inocente e que tudo não passou de uma “armadilha” contra sua pessoa e o governo Kirchner – também é acusada pela Justiça de ter subtraído e destruído a ata policial que registrou a descoberta do dinheiro. Se for considerada culpada pelo tribunal, Miceli poderia ser condenada à uma pena de até seis anos de prisão.

O julgamento, que contará com o depoimento de 60 testemunhas, se prolongará até meados de dezembro.

Contribuintes na Argentina pagarão o equivalente a RS$ 1 milhão para que andar onde trabalha a presidente Cristina conte com um banheiro com mármore de carrara e iluminação computadorizada. E espaço para quadros. Acima, a presidente Cristina na semana passada, enquanto recebia o cantor de boleros (e antes pop) Luis Miguel na Casa Rosada.

VALIOSO RETRETE: REFORMA DE BANHEIRO DA CASA ROSADA CUSTARÁ RS$ 1 MILHÃO

O palácio presidencial argentino terá em breve um banheiro cuja remodelação, segundo o próprio Diário Oficial, custará RS$ 1 milhão, com piso de mármore de carrara, iluminação computadorizada e um espaço para pendurar quadros. O banheiro, cuja remodelação será feita pela empresa Kir, estará no mesmo andar onde está o escritório da presidente Cristina Kirchner, embora o anúncio oficial não indique se o toilette será usado pela chefe do Poder Executivo.

A revelação dos custos para o retrete oficial gerou grande polêmica em Buenos Aires. No entanto, o secretário da presidência, Oscar Parrilli, afirmou que esses fundos não estão somente destinados para o lavabo, mas também para mudar de lugar a cozinha presidencial instalada no segundo andar da Casa Rosada embora no Diário Oficial a quantia está exclusivamente destinada para o toilette.

Segundo Parrilli, os cozinheiros – quando batiam com os martelos nas milanesas – não deixavam a presidente trabalhar em calma. Os cozinheiros, explicou o secretário, estavam em cima do escritório da presidente.

Milanesas são um dos pratos preferidos dos argentinos. Presidente Cristina não conseguia trabalhar bem por causa dos martelinhos utilizados na elaboração do quitute bovino empanado.

E se a coisa é luxo, nada melhor do que “Nothing but the best”, com nosso amigo Chico Sinatra:

EFEMÉRIDE DO GLORIOSO RETRETE MODERNO

Sir John Harrington, inventor do vaso sanitário moderno morreu há 400 anos, no dia 20 de novembro de 1612. Escritor, inventor, Sir John propiciou a bilhões de Homo Sapiens-sapiens um lugar para a reflexão. Harrington também é lembrado por um cínico epigrama: “a traição nunca prospera. E por qual razão? É que se prospera, não é chamada de traição”.

O vaso sanitário moderno foi criado por Sir John Harrington, que nasceu no dia 4 de agosto de 1561 e morreu no 20 de novembro de 1612. Poeta, escritor e inventor inglês, em 1590 descreveu sua idéia – que despertava o interesse do público – na “Metamorfose de Ájax”.

Nessa obra, Harrington fala sobre o vaso sanitário, embora com algumas alusões escatológicas e anatômicas que a moral da época considerou de mau gosto.

Capa do livro de Harrington: “Metamorfose de Ájax”.

A rainha Elisabeth I, madrinha de Harrington, ficou furiosa com a repercussão e suspendeu a construção do aparelhos dentro das residências (era o plano comercial de Harrington).

Mas, a monarca manteve um retrete para ela própria e permitu que seu sobrinho tivesse um também.

O emérito Sir John até aparece como fantasma em seu vaso sanitário em um episódio do escatológico “South Park”. Aqui.

Fotograma do vídeo no qual sir John aparece no minuto 1:19.

Antes de Harrington existiam vasos sanitários primitivos. Mas, apesar da falta de high-tech, esses vasos primitivos tiveram crucial importância na vida da humanidade.

Esse foi o caso de Martinho Lutero, que em 1517 escreveu suas emblemáticas 95 teses em um retrete de pedra que estava instalado na parede de sua casa em Wittenberg.

Ali sentado, onde passou longas horas construtivas, rabiscando o texto no qual condenava as indulgências promovida pelo papa Leão X para financiar a construção da Basílica de São Pedro, Lutero – que sofria de pertinaz constipação – deparou-se (assim ele disse) com Satanás, que tentava desviá-lo de seus planos. E ali mesmo nesse water-closet de pedra, conseguiu expulsar o tinhoso.

O famoso retrete que deu início a uma verdadeira revolução que colocou a Europa, segundo historiadores, no caminho da Era Moderna, foi finalmente descoberto em 2004.

Diagrama do harringtoniano toilette em “Metamorfose de Ajax”

DENOMINAÇÕES RETRETAIS NA AMÉRICA LATINA

Retrete: A palavra significa “pequeno retiro”. Isto é, o pequeno espaço geralmente destinado ao ambiente onde está o vaso sanitário.

Escusado ou excusado: Termo usado em toda região, decorrente de uma “excusa”, uma “desculpa”. Uma frase do livro “Fiesta”, do Nobel Mario Vargas Llosa sobre o assunto: «Se echó talco en las partes pudendas y la entrepierna, y, sentado en el excusado, esperó a Sinforoso»

Poceta: Na Venezuela é o termo usado como referência ao antigo sistema, um poço.

Váter: Esta expressão é comum na Espanha, em referência ao water-closet, com a voluntária má vontade ou involuntária incapacidade de pronunciar o “w” como corresponde.

Servicio: A expressão é usada na Espanha. Mas também em áreas da América Central.

Sanitário: O termo é usado na Colômbia

Governos do casal Kirchner acumulam diversos casos de corrupção, vários dos quais com peculiaridades. Um dos mais famosos é o caso da maleta. Acima, durante um discurso em rede nacional de TV a presidente Cristina exibe “Cristinita”, a boneca que a homenageia. A boneca vende-se na lojinha do Museu Bicentenario.

ANEXO AO TOILLETE-GATE: ANTOLOGIA DOS CASOS DE CORRUPÇÃO DOS KIRCHNERS

Fundos de Santa Cruz (desde 2003): Nos anos 90 o então governador de Santa Cruz, Néstor Kirchner, enviou US$ 500 milhões para o exterior. Com o dinheiro fora do país, a província salvou-se do “corralito” (confisco bancário) de 2001 e a crise financeira de 2002. Kirchner prometeu que, quando fosse eleito presidente, o dinheiro voltaria ao país. Ele tomou posse em 2003. Mas os fundos somente voltaram entre 2007 e 2009. A oposição afirma que existem outros US$ 500 milhões em juros sobre os quais nada se fala e que não voltaram ao país.

Caso Skanska (2005): Escândalo que envolve empreiteiras argentinas e estrangeiras, entre elas a sueca Skanska, no superfaturamento das obras de dois mega-gasodutos no sul e norte da Argentina. O principal suspeito do affaire é o Ministro do Planejamento Julio De Vido. As denúncias indicam subornos pelo valor de US$ 5 milhões.

Trem-bala (2006): A Oposição acusa os Kirchners de graves irregularidades no contrato que o governo assinou com a empresa francesa Alstom para a construção do controvertido trem-bala argentino. O governo diz que o custo da obra seria de 2,5 bilhões de euros. Mas, a Oposição afirma que os contratos, da forma como foram elaborados, implicam em um custo três vezes superior ao orçamento oficial. O projeto foi suspenso.

“Valijagate” (Maleta-gate) ou o “Caso da Mala” (2007): Suposto envio de fundos de Chávez para a campanha eleitoral de Cristina Kirchner em 2007. Existem pistas sobre o envio de pelo menos US$ 5 milhões.

Enriquecimento ilícito (desde 2008): A oposição, advogados independentes e a mídia acusam os Kirchners de enriquecimento ilícito. Eles afirmam que o crescimento de mais de 900% do patrimônio presidencial desde 2003 não tem justificativas contábeis lógicas. A presidente Cristina argumenta que seu enriquecimento deve-se aos investimentos em imóveis o fato de ter sido “uma advogada de sucesso”.

“Embaixada paralela” (2010): O ex-embaixador argentino em Caracas, Eduardo Sadous, denunciou na Justiça que integrantes do governo da Venezuela e da Argentina durante vários anos exigiram a empresários exportadores de ambos países o pagamento de propinas de 15% a 20% para não causar obstáculos em suas operações de comércio bilateral. Segundo o embaixador as pessoas envolvidas na exigência da propina referiam-se a ela como um “pedágio”.

Caso Ciccone (2011): A Companhia Sul-Americana de Valores, a ex-Ciccone, tornou-se o foco do escândalo em dezembro passado quando investigações jornalísticas, posteriormente aprofundadas pela Justiça, revelaram pistas que indicariam que o vice-presidente Amado Boudou teria favorecido amigos seus na compra da gráfica, que há poucos anos estava a ponto de falir. Depois, Boudou teria ajudado os amigos a obter o contrato de impressão de notas de 100 pesos. Boudou tornou-se suspeito de enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro e negociações incompatíveis com a figura de funcionário público.

Mais uma vez, sir John Harrington, excelsa figura pouco reconhecida no século XXI. No dia 20 de novembro – sua efeméride – estaremos pensando nele. 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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