arielpalacios
02 de abril de 2011 | 16h02
Paul David Hewson, a.k.a. Bono, no distante 1983, período no qual ostentava frondoso toupet e carecia dos translúcidos – e permanentes – óculos que tornaram-se sua marca registrada.
A “Yutchúmanía” (“U2-mania”, na forma portenha de pronunciar) tomou conta dos argentinos, que desde o início da semana tornaram-se anfitriões de Paul David Hewson, nome real de Bono, nom-de-guerre do cantor irlandês que lidera a banda de rock U2. Bono está no país desde o início da semana para uma sequência de três shows na cidade de La Plata, localizada a 57 quilômetros da capital do país, Buenos Aires. Este dublinense cinquentão fez a plateia delirar na quarta-feira com seu show “360 tour” quando apresentou os integrantes de sua banda com apelidos de jogadores argentinos de futebol. “A Pulga Mullen”, “Adam Pipita Cleyton”, “El Pupi Zanetti The Edge” foram as denominações. “Eu não sei quem seria”, disse, refletindo em voz alta sobre a denominação para si próprio. Após vacilar brevemente, auto-batizou-se como “Carlitos Apache Bono”, em alusão a Carlos Tevez, apelidado de “El Apache” (por ter nascido no bairro operário que recebeu a denominação informal de Fuerte Apache).
A expectativa no show de hoje é que Bono deslanche outras bem-humoradas alusões ao futebol e à sociedade argentina.
A crítica portenha, geralmente ácida com a estrelas internacionais e nacionais, dedicou um generalizado “excelente” para o show de Bono.
De quebra, os críticos sustentam que “Bono cada día canta mejor”, em referência ao ditado “Gardel canta cada dia melhor” (alusão ao mítico cantor de tangos Carlos Gardel, morto em 1935). Os críticos também consideram que o irlandês superou as suas próprias apresentações anteriores no país (PopMart e o Vertigo Tour, ambas realizadas no estádio do River Plate).
Neste sábado à noite será a vez do segundo show. E, neste domingo será a derradeira apresentação do irlandês, que conta entre sua longa lista de fãs argentinas a própria presidente Cristina Kirchner.
Na quarta-feira a presidente Cristina fez questão de interromper por uma hora sua intensa agenda política (o governo Kirchner está em meio a um grave conflito com a mídia, além de enfrentar uma escalada inflacionária e denúncias de corrupção de integrantes da administração federal) para receber e conversar com Bono. O cantor deu de presente à presidente um reprodutor digital com canções do U2.
LA PLATA – Bono não escapou do ácido humor portenho, que indicou que o líder do U2 não poderá deixar de pronunciar a surrada frase dos shows de rock que consiste nas palavras “Eu amo…” seguidas do nome da cidade onde a apresentação está sendo realizada. O problema é que “Eu amo La Plata” na gíria portenha também pode ser interpretada como “eu amo o dinheiro”. La Plata, além de “prata” (por causa do rio da Prata, de cujas margens está próxima) é sinônimo de “grana”.
La Plata, capital da província de Buenos Aires, vive em clima pacato na maior parte dos 365 dias do ano. Mas, desde a semana passada, a cidade, de apenas 186 mil habitantes, está transbordando de fãs do U2, jornalistas de todo o planeta e curiosos. Por causa do fluxo fora de normal de pessoas que chegaram na cidade para assistir os shows, o sistema hoteleiro platense colapsou.
Na ausência de quartos disponíveis, os habitantes da cidade começaram subalugar casas, quartos para os dois terços do público, que provém de fora de La Plata.
Além do sistema hoteleiro também está colapsando a rodovia que liga Buenos Aires com La Plata. O fluxo de fãs e curiosos está provocando engarrafamentos que levam os carros a percorrer apenas 30 quilômetros por hora.
BIFE COM JEITÃO OPERÁRIO – Enquanto os argentinos – incluindo a presidente Cristina – estão em polvorosa pela presença do cantor irlandês, o roqueiro está aproveitando a estadia na Argentina para saborear os quitutes locais. Dentro de seu tour gastronômico feito de forma confidencial, Bono foi a “El Obrero” (O Operário), um restaurante que faz pose de popular e é frequentado por turistas de dinheiro que procuram a “Argentina profunda”. Este restaurante – cujos pratos exibem convenientes rachaduras, acompanhados por supostos proletários talheres meio enferrujados (mas preços de classe média) – já teve clientes como o diretor alemão Wim Wenders e o ator americano William Dafoe. O estabelecimento especializa-se no produto argentino comme il faut, a carne bovina.
U2, da Lockheed: o avião espião par excellence dos EUA nos anos 60. Um destes exemplares virou paçoca ao ser derrubado e estatelar-se em chão soviético no dia 1 de maio de 1960 na região de Degtyarsk, na área das montanhas Urais. A muuuuuuuitos quilômetros dali, em Dublim, Irlanda, 9 dias depois, nascia Paul D. Hewson, futuro Bono, futuro líder do U2 (a banda, evidentemente).
para sair do roqueiro assunto por uns minutos, de Jean-Baptiste Lully, a “Marche pour la cérémonie des turcs”. Aqui.
E saindo novamente de estilo, “Laura”, com a orquestra de Duke Ellington. Aqui.
E mais uma versão de “Laura”, trilha sonora do filmaço homônimo aqui.
Bom fim de semana a todos!
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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