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Último ditador argentino recebeu sua quinta condenação por crimes durante regime militar

O ex-ditador e general Reynaldo Benito Bignone foi condenado na terça-feira a 23 anos de prisão pelos sequestros, torturas de 60 líderes sindicais e operários – dos quais 32 foram assassinados - de diversas fábricas na região da Grande Buenos Aires em 1977 durante a ditadura militar (1976-83).

arielpalacios

09 de outubro de 2014 | 20h17

Reynaldo Benito Bignone, último ditador militar argentino acumula cinco condenações a cumprir em presídio comum.

O ex-ditador e general Reynaldo Benito Bignone foi condenado na terça-feira a 23 anos de prisão pelos sequestros, torturas de 60 líderes sindicais e operários – dos quais 32 foram assassinados – de diversas fábricas na região da Grande Buenos Aires em 1977 durante a ditadura militar (1976-83). No denominado “Julgamento dos operários”, além do ex-ditador foram também ao banco dos réus outros oito ex-integrantes da ditadura por crimes contra a Humanidade, dos quais três foram absolvidos. Este foi o décimo-primeiro julgamento envolvendo crimes ocorridos no quartel do exército de Campo de Mayo realizado no Tribunal Oral Número 1 do município de San Martín.

Esta é a quinta condenação acumulada por Bignone, que foi o último ditador do regime. Além de duas perpétuas também acumula uma condenação anterior a 25 anos de prisão e outra de 15 anos. Entre os diversos crimes, o ex-ditador – atualmente com 86 anos – esteve envolvido em sequestro de bebês, tortura e assassinato de civis e roubo de bens.

Paralelamente Bignone está sendo julgado por outro caso, que deve concluir no ano que vem, sobre sua participação no Plano Cóndor, denominação do programa de cooperação das ditaduras sul-americanas nos anos 70 e 80 para sequestrar e executar pessoas consideradas opositoras dos regimes militares.

Ontem, no mesmo julgamento foi condenado o ex-general Santiago Omar Riveros, de 91 anos, que cumprirá perpétua. Ele já havia sido julgado à revelia na Itália, no ano 2000, quando foi condenado a perpétua pela morte de três cidadãos italianos. Em 2009 Rivero havia sido condenado na Argentina a perpétua pela tortura – por intermédio de empalamento – do adolescente de 14 anos Floreal Avellaneda, cujo corpo, jogado no rio da Prata, foi levado pela correnteza até as margens uruguaias, onde foi descoberto.

Segundo organismos de defesa dos Direitos Humanos argentinos, durante a ditadura, militares e policiais assassinaram ao redor de 30 mil civis, a maioria dos quais sem militância na guerrilha. No entanto, o número de desaparecidos catalogados pela Comissão Nacional de Pessoas Desaparecidas (Conadep), é de 10 mil pessoas. Nos últimos anos, dois ex-ditadores, Jorge Rafael Videla (morto em maio de 2013) e Bignone, admitiram que assassinaram 8 mil civis com o argumento de “defender o estilo de vida cristão e ocidental” da Argentina.

MUSSOLINI – O general Reynaldo Benito Bignone (o nome do meio foi colocado por seu pai, um imigrante italiano declarado fã do ditador Benito Mussolini) governou a Argentina entre o fim da guerra das Malvinas, em junho de 1982 e a volta da democracia, em dezembro de 1983. Poucos meses antes de entregar o poder aos civis, ordenou a queima de todos os arquivos relativos aos crimes protagonizados pelo regime.

Em 1985, durante “O Nuremberg argentino” – julgamento durante o governo de Raul Alfonsín dos militares responsáveis por crimes contra a Humanidade – Bignone foi julgado e condenado à prisão. Mas, em 1990 foi indultado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99). Nove anos depois foi detido graças à uma brecha no indulto, que não contemplava a anistia pelos sequestros de crianças. Em 2004, com a revogação das Leis de Perdão no Parlamento – e a confirmação dessa medida na Corte Suprema em 2007 – Bignone tornou-se o alvo de novos processos. Durante um tempo, pela idade, conseguiu prisão domiciliar. Mas, em 2011 foi transferido para uma prisão comum.

Mussolini inspirou Reynaldo René Bignone Schoebel, pai do futuro ditador argentino, a colocar ‘Benito’ no nome do filho.

JULGAMENTO INVESTIGOU AÇÃO DA DITADURA NAS FÁBRICAS EM BUENOS AIRES

“O Julgamento dos Operários” é a denominação que os organismos de direitos humanos argentinos deram ao julgamento dos militares, policiais e integrantes da Guarda-Costeira envolvidos no assassinato de 32 líderes sindicais e operários (e alguns parentes desses trabalhadores) de fábricas da zona norte da Grande Buenos Aires, além da tortura de outros 28 em 1977. As vítimas eram funcionários dos estaleiros Astarsa e Mestrina, das fábricas de cerâmicas Cattáneo e Lozadur e da metalúrgica Bopavi.

O advogado Ciro Annicchiarico, da Secretaria de Direitos Humanos, afirma que “este julgamento evidencia que o terrorismo de Estado teve foco especialmente na classe operária, com o objetivo de neutralizar a luta dos trabalhadores”. Segundo ele, “a maioria das vítimas não eram militantes políticos”.

Annicchiarico sustenta que existem relatórios desclassificados dos Estados Unidos que indicam que “a embaixada americana na Argentina tinha a constância de que os sequestros de operários deviam-se a pedidos das empresas para livrar-se de operários que exigiam melhores condições de trabalho. Segundo ele, “já passaram muitos militares pelo bancos dos réus. No entanto, ainda falta julgar empresários e corporações que foram cúmplices do terrorismo de Estado”.

Enquanto isso, está em andamento o “Processo Ford”, denominação do julgamento dos responsáveis pela detenção ilegal de 24 operários da fábrica da Ford na província de Buenos Aires durante o regime militar. Três ex-executivos da empresa estão na lista dos acusados.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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