1 abajur quebrado + lactobacilos = uma dupla perfeita de escritores
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1 abajur quebrado + lactobacilos = uma dupla perfeita de escritores

arielpalacios

18 de outubro de 2009 | 21h00

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O teutônico Friedrich Nietzsche dizia que ‘um bom escritor possui não somente sua própria inteligência, mas também a inteligência de seus amigos’. Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares souberam potenciar ambas inteligências com sua amizade. Segundo disse em 1968 o ensaísta Emir Rodríguez Monegal, quando Bioy Casares e Borges trabalhavam em conjunto, o resultado era uma um texto que parecia escrito por uma nova personalidade, mais do que a somatória de suas partes. Monegal sustentava que nesse momento surgia o “Biorges”, o qual, considerava, era “o mais importante escritor argentino de seu tempo” (foto dos dois amigos nos anos 40)

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Sabia que havia feito uma entrevista com Bioy Casares, das várias que fiz com ele entre 1995 e 1998, que não estava encontrando. Mas, neste fim de semana, a encontrei por puro acaso (acasos borgianos, a achei enquanto procurava uns dados do breve presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá). Nesta entrevista, Bioy explica como foi a criação de Honorio Bustos Domecq, um escritor que ele e Jorge Luis Borges inventaram, dando origem à uma verdadeira escritura à quatro mãos. Esta entrevista foi feita em agosto de 1996, dois meses depois do décimo aniversário da morte de seu amigo Borges.

maozinha344sds Um abajur quebrado levou a um folheto sobre iogurtes. O texto comercial sobre lactobacilos levou à uma das camaradagens mais frutíferas da história da literatura. Parece estranho, mas este foi o modo como duas privilegiadas mentes argentinas do século XX se uniram: Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares.

Tudo começou com uma reunião na casa de Victoria Ocampo, a rabugenta – e brilhante – dublê de Gertrude Stein da Argentina do anos 30, 40 e 50. Bioy Casares, casado com Silvina Ocampo, estava presente na tertúlia por temor às repreensões da cunhada. Victoria recebia um escritor estrangeiro com um cocktail.

Por acaso, Bioy Casares sentou-se ao lado de Jorge Luis Borges. “No meio da festa começamos a conversar animadamente. Victoria nos interrompeu: ‘não sejam uns merdas. Falem com o convidado’. Borges levantou-se assustado e derrubou um abajur. Foi um opróbrio. Ele continuou falando comigo e ficamos amigos para toda a vida”.

A amizade os uniria para sempre. Bioy Casares, sobrinho e filho e sobrinho de empresários do setor de laticínios, foi contratado pela própria família para escrever um folheto cultural “e comercial” sobre o iogurte. “Chamei Borges e ficamos dias na fazenda pensando no folheto. Mais do que trabalhar no tema, acabávamos criando personagens. Assim escrevemos “Seis Problemas para Don Isidro Parodi”. Queríamos escrever contos onde houvesse um enigma e uma solução clara. Mas fazíamos brincadeiras e nos perdíamos nelas. “Que faremos com este personagem?”, perguntávamos rindo.

Antes de partir para a Europa, o autor de “A invenção de Morel” e “Diário da Guerra do Porco” e inseparável partner de Borges, falou para o Estado sobre sua amizade com o autor de “Ficciones”:

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Bioy Casares, em 1968, fotografado por Alicia D’Amico (1933-2001), uma das grandes fotógrafas argentinas (as outras foram Annemarie Heinrich e Sara Facio)

Estado – Honorio Bustos Domecq, o imaginário autor de “Seis Problemas para Don Isidor Parodi” era uma criação com os sobrenomes dos avós e bisavós…

Bioy Casares – Bustos era do lado de Borges. Domecq era minha avó paterna. A Editorial era “Oportet et Jerezes, convém que haja hereges”.

Estado – Como escreviam a quatro mãos?

Bioy Casares – A gente sempre escrevia à noite. Borges sempre vinha para nossa casa jantar. Após o jantar conversávamos sobre uma ideia relativa a um assunto. Eu sentava na frente da máquina de escrever e começávamos….um de nós dois propunha a primeira frase…e assim vinham a segunda, terceira frases. Os dois íamos falando ao mesmo tempo. De vez em quando Borges dizia ‘não, acho melhor a gente enveredar por outro lado’…ou eu dizia ‘espera..acho que já temos demasiadas piadas juntas aqui’..e assim íamos escrevendo!.

Estado – Os srs. eram muito diferentes. Borges, quase um calvinista, o sr. era…

Bioy Casares – (rindo) Borges era incapaz de andar a cavalo. Eu percorria até 250 km. Borges se apaixonava profundamente por cada mulher. Eu tive muito amores e a sorte de que minhas ex-amantes são muito boas amigas até hoje.

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O tímido Borges, no final dos anos 60, cercado por ‘groupies’ borgianas

Estado – Qual influência o sr. teve em Borges e ele no sr.?

Bioy Casares – Ele, com Paul Valèry, me retiraram do surrealismo. Recebi grandes dicas, conduzidas pela inteligência. Combati em Borges o estilo em que cada frase tinha um efeito de surpresa no final. O ajudei, onde ele chegaria sem minha ajuda, a chegar no que era um estilo mais clássico.

Estado – Como foi publicar a revista “Destiempo”, junto com Borges?

Bioy Casares – Estavámos muito contentes com isso. Saímos da gráfica com duas caixas das revistas e fizemos uma fotografia para uma histórica posteridade. A fotografia desapareceu. Nunca a recuperamos. Todos os exemplares do número um da revista desapareceram. O estúdio onde fizemos a foto também sumiu. Não era possível fazer uma revista sem dinheiro. Os colaboradores demoravam semanas para entregar os textos e a revista morreu…

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Borges, em 1951, foto de Grete Stern

Estado – Como foi seu primeiro encontro com Borges?

Bioy Casares – Victoria Ocampo estava convidando alguns estrangeiros ilustres por alguns dias. Muito autoritária, quando convidava alguém, tinha que ir, porque senão ouviria repreensões pelo resto da vida. Ali estava o convidado ilustre, mas Borges, que estava sentado a meu lado começou a conversar comigo. Começamos a conversar animadamente no meio da festa. Mas Victoria nos interrompeu: ‘não sejam uns merdas. Falem com o convidado’. Borges levantou-se assustado e derrubou um abajur. Foi um opróbrio. Ele continuou falando comigo e ficamos amigos para toda a vida. Naquela noite, fomos embora logo da festa. O levei em meu carro a sua casa e fomos todo o trajeto conversando.

Estado – Os senhores eram como uma dupla de filme…

Bioy Casares – (ri) Não o vejo assim, mas foi uma amizade maravilhosa. Um dia me encarregaram um folheto pseudocientífico e eficazmente comercial sobre o iogurte. Como pagavam muito, convidei Borges para que escrevesse comigo. Fomos até a fazenda de meu pai. Como nos entediávamos, pensamos que seria bom se escrevêssemos contos juntos.

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Os dois amigos, no início dos anos 80

Estado – O que acha das obras que Borges não quis reeditar, que foram recentemente reeditadas (“O Idioma dos Argentinos” e “Borges en Revista Multicolor”)?

Bioy Casares – Sinto-me muito identificado com ele, pois espero que quando morrer, nunca reeditem meus primeiros livros. Quando fomos compilar minhas “Obras Completas” minha editora me disse que seria uma mentira chamá-las assim. Eu disse que eram livros antes de que me convertesse em um escritor consciente.

Estado – Entre a poesia e a prosa de Borges, qual prefere?

Bioy Casares – Prefiro a prosa, mas gosto muito da poesia dos últimos anos. Não gosto de seu tempo de surrealismo.

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Bioy Casares escreveu até sua morte em 1999

Estado – Como foram suas incursões no mundo dos roteiros cinematográficos?

Bioy Casares – Quando começamos ainda não sabíamos fazer roteiros. Depois aprendemos um pouco…

Estado – Borges tornou o sr. um dos mais conhecidos personagens da literatura fantástica. Em “Tlön, Uqbar e Orbis Tertius” o sr. é o personagem que faz a trama começar, com a citação “abomino os espelhos e a cópula, porque multiplicam a espécie humana”

Bioy Casares – Ele me faz dizer coisas que nunca disse (ri). Gosto muito de espelhos, os acho misteriosíssimos. Para mim são uma fonte de inspiração. Era só uma brincadeira de Borges. Para ele, os espelhos eram atrozes. Nunca compreendi o porquê, mas ele tinha uma repulsão, talvez mais intelectual do que físico, pois não me parece que alguém possa ter uma repulsão física por algo tão bonito como um espelho.

Estado – O sr. teme a morte?

Bioy Casares – Diria que não, mas me impressiona. Me parece espantoso morrer. Borges e eu falávamos muito sobre isso. O coitado poderia agora me dizer o que se sente. Eu sigo com temor e com horror. É algo que me desgosta. Não gostaria que acontecesse.

Estado – O sr. viu Borges partir, sabendo que não o veria mais…

Bioy Casares – É horrível morrer. Sua morte foi dolorosa, penso eu. Antes de partir para Genebra, lhe perguntei se não era melhor ficar aqui, já que os médicos o haviam desenganado. Me respondeu: “para morrer, dá no mesmo estar em qualquer lugar…”. Uma frase literariamente eficaz, que me calou.

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Bioy Casares, em seus últimos anos, sem a presença do amigo Borges

BENGALA, UM TERCEIRO AUTOR E GARGALHADAS

Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares fizeram, desfrutando – e muito – um trabalho conjunto deixando seus egos de lado. Não tentaram impor um ao outro suas ideias e palavras. Foi uma dupla simbiótica, que foi mais além da colaboração, já que Bustos Domecq tinha um estilo diferente ao dos dois escritores de carne e osso.

Honorio Bustos Domecq surgiu primeiro como F.Bustos, nome com o qual Borges publicou a primeira história de ficção de sua carreira, “O homem da esquina rosada”. Quando apareceu a parceria entre Borges e Bioy Casares o nome do escritor-fantasma foi trocado para Honorio Bustos Domecq.

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Capa de um dos livros de Bustos Domecq, quando os dois autores reais já haviam confessado sua identidade

Bustos era o sobrenome de um antepassado de Borges, enquanto que Domecq era um antepassado de Bioy.
H. Bustos Domecq começou sua carreira com “Seis problemas para Isidro Parodi”, de 1942. Em 1946 lançaram “Duas fantasias memoráveis”.

Bustos Domecq tornou-se um “autor” de sucesso. A Argentina pensava que existia de verdade e chegaram a lhe oferecer prêmios literários. Mas H. Bustos Domecq nunca aparecia para receber as honras. Borges e Bioy Casares davam gargalhadas.

De quebra, também criaram um segundo autor-fantasma, Benito Suárez Lynch (também utilizando os sobrenomes de outros antepassados de Borges e Bioy). Com este pseudônimo publicaram “Um modelo para a morte”.

Com os anos, Bioy foi-se parecendo a Borges, seu indefectível partner: a bengala, a fragilidade causada pela morte dos seres queridos, o desejo de viver muito mais. Unidos por causa de um abajur quebrado e um folheto sobre iogurtes, esta dupla produziu obras que integram a lista de clássicos da literatura do século XX. Borges era um potencial calvinista, tímido com as mulheres. Bioy se envolvia com as sobrinhas de sua esposa. O primeiro exercia o estilo mais erudito, o segundo primava pela simplicidade. Borges abandonou o planeta há dez anos. Bioy Casares continua aqui, aos 82 (a entrevista, lembrem, foi em 1996…Bioy Casares morreu três anos depois).

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Nietzsche, que dizia que ‘um bom escritor possui não somente sua própria inteligência, mas também a inteligência de seus amigos’, acompanhado de alguns de seus especiais amigos: Lou Salomé e Paul Ree. Foto de 1882, realizada no atelier de Jules Bonnet, em Lucerna, Suíça.

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