Um breve “quem é quem” e uns “quiequiéissu” na reargentinização da YPF
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Um breve “quem é quem” e uns “quiequiéissu” na reargentinização da YPF

arielpalacios

03 Maio 2012 | 23h29

Publicidade da YPF nos anos 70

VOTAÇÃO: O projeto de expropriação da YPF foi concretizado graças ao placar de 208 votos a favor. O total de votos contrários foi de 32. As abstenções foram 5.

DEBATE: O debate na Câmara de Deputados começou na quarta-feira às 15:30 e concluiu na quinta-feira às 21:30. No meio do debate houve todo tipo de trocas de acusações entre o governo e os representantes da oposição. O diálogo foi nulo.

A seguir, um breve “quem é quem” e uns “quiequiéissu” no caso YPF.

 DRAMATIS PERSONAE (E EMPRESAE)

YACIMIENTOS PETROLÍFEROS FISCALES (YPF): A companhia petrolífera YPF, fundada em 1922, foi a principal estatal argentina até 1992, quando, dentro do processo de privatizações realizado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99), foi vendida para um grupo de empresários argentinos. Na época, a privatização foi respaldada enfaticamente pela então deputada Cristina Kirchner e seu marido, Nestor Kirchner, que era o governador da petrolífera província de Santa Cruz. O Estado nacional ficou com 20% das ações.

No entanto, na segunda metade da década dos 90, as crises mexicana, russa e japonesa abalaram a economia argentina. Sem cash, as províncias começaram a vender suas ações. Os empregados da YPF, que tinham 10%, também desprenderam-se dos papéis da companhia. Em 1999, depois da desvalorização do real no Brasil, Menem – cujo governo estava com problemas para cumprir as metas fiscais com o FMI – ordenou a venda das ações do Estado nacional, e assim, obter os recursos que precisava.

Desta forma, nesse ano, o Estado e os empresários argentinos venderam a totalidade da YPF à espanhola Repsol. A partir dali, a YPF passou a representar metade do faturamento do grupo ibérico. O management da companhia foi deslocado de Buenos Aires para Madri.

Em 2004 o então presidente Nestor Kirchner, sem cacife político nem fundos para reestatizar a YPF, anunciou a criação de uma nova estatal petrolífera, a Enarsa, chamada ironicamente de “a mini-YPF”. O plano inicial de Kirchner era que a Enarsa – sem dinheiro, nem equipamento – poderia crescer graças a alianças estratégicas com a venezuelana PDVSA e a Petrobrás. No entanto, a mini-estatal permaneceu com baixo perfil ao longo dos últimos oito anos, praticamente sem sair do papel.

Mas, em 2007, Kirchner mudou de estratégia e decidiu respaldar os Eskenazi, família de empresários argentinos, donos do Grupo Petersen, a comprar 15% das ações da YPF à Repsol. A partir dali, a presença argentina – embora privada – começou a aumentar. No início de 2011 os Eskenazi compraram outros 10%.

PRESIDENTE CRISTINA KIRCHNER: A atual presidente da República Argentina era parlamentar provincial de Santa Cruz em 1992, ano da privatização da YPF. Na época, seu marido, o defunto Nestor Kirchner, era governador da província petrolífera de Santa Cruz. Ela defendeu a privatização com garras e dentes na assembléia legislativa local. O casal Kirchner foi crucial no lobby do presidente Carlos Menem (1989-99) para privatizar a YPF.

MINISTRO JULIO DE VIDO: De Vido é um dos mais antigos integrantes da “Pinguineira”, denominação do círculo íntimo do casal Kirchner (chamados popularmente de “pinguins”). Arquiteto, De Vido foi o secretário de Economia e Obras Públicas de Néstor Kirchner quando este era prefeito de Río Gallegos e posteriormente governador da província de Santa Cruz.

Quando Kirchner foi eleito presidente em 2003, De Vido ocupou a pasta de Planejamento e Obras, posto do qual comandou a economia do país, passando por cima dos diversos ministros da Fazenda que os Kirchners tiveram. Do marido, a presidente Cristina herdou De Vido, que permaneceu no posto.

De Vido, que raramente fala em público, é suspeito de diversos casos de corrupção, entre eles, o “Caso Skanska”. A oposição o apelidou de “ministro-celular”, em alusão ao prefixo com o número “15” necessário para fazer uma ligação telefônica para um celular na Argentina. O número é uma irônica referência à suposta cobrança de 15% de propinas por parte do polêmico ministro.

VICE-MINISTRO AXEL KICILLOF: “É como Mandrake…o cara conseguiu exercer uma mágica sobre a presidente Cristina Kirchner”. Com estas palavras, um deputado do governista Partido Justicialista (Peronista) definiu ao Estado em off o efeito que Axel Kicillof, secretário de política econômica (equivalente a vice-ministro da Economia), está tendo desde o ano passado sobre a presidente argentina. Boa-pinta, o economista de 41 anos – embora pareça mais jovem – que ostenta costeletas retro, tornou-se o “mentor” econômico do governo Kirchner. Autor do projeto de expropriação da YPF, o jovem de olhos azuis e sorriso amplo tornou-se o primeiro economista de total confiança da presidente Cristina desde a morte do ex-presidente Nestor Kirchner, que entre 2005 e 2010 foi o ministro de Economia de facto da Argentina. Kicillof conseguiu entrar no círculo mais íntimo de decisões do governo, basicamente constituído por pessoas veteranas de extrema confiança de Cristina, que estiveram com os Kirchners desde que Néstor Kirchner era prefeito de Rio Gallegos no final dos anos 80.

Kocillof, que formou-se no difícil curso de economia da Universidade de Buenos Aires e acumula diversas pós-graduações, é um especialista da obra do emblemático heterodoxo sir John Maynard Keynes. Dando um toque peronista ao keynesianismo kirchnerista, Kicillof defende a fórmula de inflar a demanda interna e recuperar a influência estatal.

O jovem economista com jeitão de galã atualmente tem mais influência sobre Cristina do que qualquer outro integrante da equipe econômica, entre os quais a ministra da Indústria Débora Giorgi (conhecida pelo apelido de “Senhora Protecionismo”), a presidente do Banco Central, Mercedes Marcó del Pont, e seu ex-ministro da economia e atual vice-presidente, Amado Boudou.

A presidente Cristina cogitou em colocá-lo no posto de ministro da Economia em dezembro passado, quando iniciou seu segundo mandato presidencial. No entanto, perante a reação da velha ala do peronismo, que dizia que Kicillof ainda era muito jovem para o cargo, Cristina o designou vice-ministro. Antes disso havia sido vice-diretor da reestatizada Aerolíneas Argentinas.

Mas, Kicillof transformou-se imediatamente no virtual ministro da Economia, já que o ocupante formal da pasta, Hernán Lorenzino, é praticamente desconhecido do grande público.

Os analistas políticos enquadram Kicillof como um “fundamentalista do kirchnerismo”. Sem papas na língua, na terça-feira chamou de “imbecis” as pessoas que consideram que o Estado argentino deveria pagar à Repsol a indenização de 8 bilhões de euros. O economista também definiu de “palavras horríveis” as expressões “segurança jurídica” e “clima de negócios”, já que considera que são conceitos determinados pelo establishment.

ANTONIO BRUFAU: Presidente da empresa espanhola Repsol. Até o ano passado era chamado de “amigo” pela presidente Cristina, que até o chamava diretamente – e em público – de “Antonio”. Após a expropriação da subsidiária YPF Brufau está na corda bamba em seu posto de comando da companhia espanhola.

 O QUE DIZEM

ARGUMENTOS DO GOVERNO PARA EXPROPRIAR A EMPRESA: O governo Kirchner argumenta que a Repsol não investiu de forma adequada na subsidiária YPF nos últimos anos. Além disso, argumenta que enviou bilionários lucros à Madri, em vez de aplicá-los na Argentina.

ARGUMENTOS DA REPSOL PARA DEFENDER SUA SUBSIDIÁRIA: A empresa espanhola argumenta que investiu no país, inclusive mais do que suas rivais de outros países que também exploram petróleo na Argentina.

ARGUMENTOS DA ESQUERDA PARA CRITICAR O GOVERNO: Os partidos de esquerda real, como o Projeto Sul, exigia uma reestatização completa da YPF, e não apenas 51%. Outro grupo, o Partido Operário, exigia que o projeto de lei tivesse uma cláusula que impedisse futuras privatizações da empresa. O fato é que a nova lei permite que, com dois terços do Parlamento, um presidente da República poderá vender as ações que o Estado argentino possui com esta expropriação.

ARGUMENTOS DA DIREITA PARA CRITICAR O GOVERNO: A direita argumenta que o governo Kirchner, com esta expropriação, complica a imagem do país no exterior, já que consolidaria-se a fama de “juridicamente inseguro”.

ARGUMENTOS DO CENTRO PARA CRITICAR O GOVERNO: Os partidos de centro são favoráveis à reestatização da YPF. No entanto, criticam a administração Kirchner por não ter fiscalizado a atuação da Repsol na empresa. Os alertas sobre a queda de investimentos arrastavam-se desde 2005, quando a deputada Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, denunciou que a Repsol não estava colocando dinheiro.

ARGUMENTOS DO GOVERNO PARA EXPLICAR SEU APOIO À PRIVATIZAÇÃO NO PASSADO: A presidente Cristina Kirchner omite qualquer espécie de esclarecimento explícito sobre seu respaldo à privatização há 20 anos.

 FAITS DIVERS YPEFIANOS E CONGÊNERES

COMO ERA A COMPOSIÇÃO ACIONÁRIA DA YPF A.E (ANTES DA EXPROPRIAÇÃO) E D.E.: Antes da expropriação, a composição acionária da empresa dividia-se entre 57,43% da Repsol; 25,46% do argentino Grupo Petersen, além de 17,09% cotados na Bolsa (principalmente investidores dos EUA). Mas, desde o dia 16 de abril, data na qual a presidente Cristina anunciou a expropriação, do total de ações, 26,03% passaram às mãos do Estado federal. Outros 24,99% das ações foram destinadas às províncias petrolíferas. Desta forma, o Estado federal, junto com as províncias, ficam com 51,02% das ações.

Outros 25,46% continuam com o Grupo Petersen, holding dos Eskenazi, família de empresários que até o ano passado eram amigos da presidente Cristina.

Além disso, 17,09% constituem as ações cotadas na Bolsa (basicamente, investidores dos EUA).

A Repsol ficou com apenas 6,43% das ações.

A OUTRA ESTATAL PETROLÍFERA: Em 2004, o então presidente Nestor Kirchner decidiu criar a Energia Argentina SA (Enarsa), dedicada ao estudo e exploração de jazidas de petróleo e gás na Argentina e nos países vizinhos. No entanto, a empresa praticamente não saiu do papel. Kirchner colocou a nova empresa estatal (que era chamada ironicamente de “a pequena YPF) nas mãos do economista Aldo Ferrer, que na época era o mentor econômico dos Kirchners. Ferrer – que comandou a Enarsa nos primeiros anos – havia sido ministro da Fazenda de dois ditadores militares: Levington e Lanusse. O futuro desta empresa, perante a nacionalização da YPF, é uma incógnita.

OUTRAS EMPRESAS REESTATIZADAS DESDE 2003: Nos últimos nove anos os governos de Nestor Kirchner (2003-2007) e de sua mulher e sucessora Cristina reverteram de forma parcial as privatizações realizadas nos anos 90 com uma política de “reargentinização”. Desta forma, voltaram para mãos estatais o Correio Argentino, as Minas de Carvão Río Turbio, o Sistema Radioelétrico Nacional, a Águas Argentinas (rebatizada com o nome de Aysa). Os Kirchners também reestatizaram a totalidade do sistema de aposentadorias.

Além de reestatizações, os Kirchners também criaram pequenas estatais. Uma delas, a Enarsa, ambiciona recuperar o protagonismo na área energética que o Estado argentino perdeu com a privatização da YPF. Outra estatal foi a companhia aérea Lafsa, fundada em 2003 para absorver os trabalhadores da Lapa e Dinar, empresas privadas que haviam falido. Esta empresa contou com uma estrutura de funcionários e verbas federais mas nunca teve um único avião e jamais operou. A Lafsa foi desativada discretamente no ano passado.

 NUANCES POLÍTICAS

NO QUESITO INTERVENCIONISMO EM EMPRESAS, CRISTINA KIRCHNER É PARECIDA A HUGO CHÁVEZ, EVO MORALES E RAFAEL CORREA?: Diria que não. Não mesmo. As reestatizações feitas pelo governo Kirchner foram em menor escala que as protagonizadas pelos presidentes bolivarianos. Isso, no entanto, não exclui os anúncios retumbantes de expropriação, críticas ao imperialismo yankee e coisa e tal. Mas o falatório presidencial costuma ser maior que as medidas nessa área específica.

Além disso, o governo Kirchner, que pratica o “capitalismo de amigos”, favoreceu amplamente poderosas multinacionais, que obtiveram benefícios quase monopólicos no país. Um dos casos é o da Telefônica da Espanha, que graças à ajuda da presidente Cristina, pode controlar a Telecom no país. Desta forma, a empresa espanhola domina 75% da telefonia no país. Outra multinacional favorecida é a Barrick Gold, que conseguiu que o governo Kirchner suspendesse um projeto de lei que complicaria sua exploração na Cordilheira dos Andes para evitar uma catástrofe ecológica.

A outra diferença com Chávez e Morales é que Cristina nunca enviou as forças armadas para ocupar as instalações de uma empresa expropriada.

Eventualmente enviou piqueteiros ou sindicalistas para bloquear as portas de alguma empresa. Mas nunca as forças armadas. Há uma nuance substancial nisso. 

ESTATIZAÇÃO, NACIONALIZAÇÃO OU REARGENTINIZAÇÃO DA YPF? Estatização é um termo que está sendo utilizado pelo próprio governo e a oposição. Mas, na realidade, a YPF não se transforma em uma estatal no sentido clássico da coisa. A própria presidente C.E.Fdez de Kirchner ressaltou no dia do anúncio, que não se tratava de uma “reestatização” (boa parte de seus parlamentares não deu bola pra isso), já que ela ordenava uma “transformação em sociedade anônima”, pois a nova empresa contará com presença privada.

Nacionalização? Beeemmmm….mmmmm…sim talvez…diria, pois 51% passaram para o Estado federal e as províncias. E além disso, 25% continuam nas mãos do grupo Petersen, da família Eskenazi, amigos do casal Kirchner. Isto é: uns 76% das ações estariam em mãos “argentinas”.

Mas, a argentinidade do Grupo Petersen é “pero no mucho”, já que o Grupo Petersen Energia Sociedade Anônima é uma empresa radicada…na Austrália. País onde a britânica rainha Elisabeth II de Windsor é a chefe de Estado.

Acima, o velho logotipo da YPF, que poderia voltar. Embaixo, o velho logotipo, dos tempos em que a YPF era controlada pela espanhola Repsol. Eu, pessoalmente, acho mais legal o vintage logotipo. O da YPF repsoliana não tinha a mesma “personalidade”

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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