Encantador e excêntrico: o profundo Xul Solar
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Encantador e excêntrico: o profundo Xul Solar

arielpalacios

16 de dezembro de 2010 | 09h51

“Xul Solar criou várias cosmogonias.. em uma única tarde!”. Frase de Jorge Luis Borges sobre seu amigo e pintor Xul Solar.

Aproveitamos que nesta semana ocorreu seu aniversário de nascimento, no dia 14 de dezembro, para contar algo sobre esta rica personalidade.

O adjetivo “excêntrico” é insuficiente para descrever o pintor argentino Xul Solar, nome artístico de Oscar Agustín Alejandro Shulz Solari (1887-1963), um dos emblemas das artes plásticas de seu país no século XX.

Durante sua estadia em Paris, para onde partiu quando tinha 24 anos (ia por apenas um mês em 1912 e acabou ficando 12 anos), bebeu das fontes dos movimentos cubista, o futurismo, o fauvismo, o expressionismo e o surrealismo.

Seu estilo é definido com certa frequência como “surrealista”. No entanto, diversos especialistas preferem classificar sua obra como “fantástica”. Ocasionalmente – e a grosso modo – é comparado com o alemão Paul Klee, a quem Xul Solar admirava. Em outras circunstâncias os especialistas afirmam que sua obra recorda a arte ruprestre.

Seus quadros – plenos de figuras oníricas e com cores marcantes – mostram edifícios, casas, astros, escadas, máscaras, figuras pré-colombianas, bandeiras e uma série de símbolos das mais diversas religiões.

 

Acima, o retrato do polifacético artista

 Amigo dos escritores Jorge Luis Borges (que o apresenta ao mundo literário portenho) e de Leopoldo Marechal (que o inclui em seu livro, “Adán Buenosayres” como o personagem Schultze), Xul Solar foi um dos fundadores da revista Martín Fierro, crucial no âmbito da literatura e das artes plásticas na Argentina nos anos 20.

Tal como um homem do Renascimento, Xul Solar era especialista em uma miríade de assuntos. O pintor conhecia profundamente sobre teologia de diversas religiões e estudava astrologia e filosofia.

De quebra, filho de um lituano de origem alemã e de uma italiana piemontesa, Xul Solar era fascinado por idiomas.

O fascínio pelas línguas o levou a criar o “neo-criollo”, que misturava o espanhol, o português, o inglês, francês, grego e sânscrito, além de um touch de argentinismos.

Xul Solar, além de criar novos caracteres para seu idioma, escreveu o “San Signos”, que reúne 64 escritos baseados nos hexagramas do I Ching.

Posteriormente, quis criar um idioma que fosse mais “universal” e projetou a “pan-língua”, que tem bases na matemática, na astrologia, artes visuais e música. Um idioma puramente monossilábico… e sem gramática.

Mais detalhes sobre a “pan-língua”, aqui.

 

 Segundo Borges, Xul Solar “era um homem versado em todas as disciplinas, curioso de todos os arcanos, pai de escrituras, de linguagens, de utopias, de mitologias e astrólogo, perfeito na indulgente ironia e na generosa amizade.. Xul Solar é um dos acontecimentos mais singulares de nossa época”.

 Xul Solar também criou um “pan-xadrez”, com complexas regras que implicavam em relações com constelações e os signos do zodíaco.

O ‘pan-xadrez’ contava com 200 peças feitas com madeira de cabo de vassoura que eram movimentadas em um tabuleiro de 12 por 12 quadros.

Em vez de representar guerreiros – como no xadrez tradicional, de origem indiano – as peças simbolizam corpos e seres astrológicos. Neste jogo, duas peças (e até três) podem ocupar o mesmo quadro. As peças começam o jogo fora do tabuleiro. De quebra, o jogo também incluia o uso de 24 cartas de tarô modificadas.

 

Seu lar, situado na rua Laprida, número 1212, é atualmente a sede do museu Xul Solar, que exibe grande parte de sua obra.

Mas, nada melhor do que deixar uma descrição mais detalhada de Xul Solar a cargo de Borges, seu amigo. Em setembro de 1980 fez uma conferência em Buenos Aires sobre Xul Solar. O texto, aqui.

 

Segundo Borges, Xul Solar “era único… talvez cada indivíduo seja único. Mas nele notava-se mais essa unicidade. O compararia com William Blak, precisamente, já que William Blake foi um místico como ele, foi um visionário e um grande poeta, além de grande artista plástico”.

O escritor e amigo sustentava que “quase todos nós vivemos aceitando o universo, aceitando tradições, conformando-se com as coisas. No entanto, Xul vivia recriando o universo. O recriava a cada momento”.

 E aqui, a própria definição que Xul Solar fazia de si próprio (no original, em espanhol): “Alejandro Xul Solar, pintor, escribidor y pocas cosas más, duodecimal y catrólico (ca –cabalista, tro – astrológico, co –coísta o cooperador). Recreador, no inventor, campeón mundial de panajedrez y otros serios juegos que casi nadie juega; padre de una panlengua, que quiere ser perfecta y casi nadie habla, y padrino de otra lengua vulgar sin vulgo; autor de grafías platiútiles que casi nadie lee; exegeta de doce (+ una total) religiones y filosofías que casi nadie escucha. Esto que parece negativo, deviene (werde) positivo con un adverbio: aún, y un casi: creciente”. 

“Enterro”, obra de 1914. Esta aquarela sobre papel é um exemplo das “dimensões” da obra de Xul Solar, que geralmente pintava sobre superfícies pequenas. Esta pintura tem 27 cms de altura e 36 cms de largura.

 E para encerrar, o site do Museu Xul Solar, aqui.

 Já que falamos em idiomas, Louis Armstrong se diverte cantando em…italiano(?). Aqui.

E por falar em Armstrong, um vídeo com ele e Sinatra, aqui.

E nada a ver, Francesco Saverio Germiniani, outro mestre do barroco italiano, que viveu entre 1687 e 1762. Seu concerto grosso para dois violinos e cello, Opus 3, número 3. Aqui.

E voltando a B.Aires,  Francisco Canaro, um dos emblemas do tango no Rio da Prata nos anos 30, 40 e 50, interpreta “Candombe criollo”, que mostra bem a herança cultural afro-platina. Canaro, que nasceu no Uruguai, fez a maior parte de sua carreira na Argentina. Aqui.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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