Uruguai, ilha de estabilidade institucional na região (e país de vanguarda)
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Uruguai, ilha de estabilidade institucional na região (e país de vanguarda)

arielpalacios

23 Novembro 2014 | 00h47

BlogUruguaiParlamento

Os uruguaios irão às urnas no próximo domingo, dia 30, para o segundo turno das eleições presidenciais. O ex-presidente Tabaré Vázquez, candidato da Frente Ampla, a coalizão que governa o Uruguai desde 2005, seria eleito com uma proporção de 51% a 52% dos votos de acordo com pesquisas das consultorias Equipos Mori e Factum, respectivamente. Seu rival, Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, de oposição, conseguiria entre 37% e 38% dos votos. Além deles, de 6% a 7% dos eleitores uruguaios optariam por votar em branco ou anular seus votos. Na foto acima, o Parlamento do Uruguai.

blog1dedo4Nesta terça-feira,  completam-se 30 anos da volta dos uruguaios às urnas para eleições presidenciais livres após uma ditadura militar de doze anos de duração. Neste período desde o dia 25 de novembro de 1984 – ao longo do qual o país teve sete eleições – todos os presidentes do Uruguai completaram seus mandatos na plenitude de seus poderes. Nenhum outro país da América do Sul, exceto o Chile e a Colômbia ostentam essa marca, já que os restantes tiveram renúncias presidenciais, impeachments, tentativas de golpe de Estado, auto-golpes, rebeliões populares e até o assassinato de um vice-presidente, o paraguaio Luis María Argaña.

Mas, o Uruguai foi o país institucionalmente mais estável da região nos últimos 30 anos de forma ininterrupta, já que os chilenos tiveram os primeiros oito anos de democracia condicionados pelo general Augusto Pinochet, que continuava como chefe do poderoso exército nacional, enquanto que o Estado colombiano, com sede em Bogotá, ainda não controla a totalidade do país, pois diversas áreas estão em poder da guerrilha ou dos paramilitares. Desta forma, o Uruguai é o único invicto em toda a região.

O Uruguai não teve processos de impeachment como no Paraguai, Brasil e Equador, nem renúncias dos chefes de Estado, como na Argentina e Bolívia, nem rebeliões populares e de forças de segurança como no Equador, sequer guerrilhas como no Peru ou Colômbia, nem tentativas de golpes de Estado como na Venezuela em 1992 (feito por Hugo Chávez contra o governo eleito democraticamente) e 2002 (feito contra Chávez, eleito democráticamente), ou auto-golpes como no Peru em 1990 protagonizado por Alberto Fujimori.

No Uruguai o poder civil não é influenciado pelo poder militar sequer pelos cultos religiosos: os uruguaios habitam no país que é considerado o mais laico das Américas. Não existem símbolos religiosos no Parlamento, nem nas repartições ou hospitais públicos: 40% dos uruguaios não possuem religião alguma. Dos outros 60%, embora tenham religiões formalmente, a imensa maioria não é praticante.

O juramento de posse do presidente exclui qualquer referência a Deus, já que jura por sua honra pessoal e a Constituição. 

blog1dedo2bVANGUARDA – Discretamente, desde o início do século vinte o Uruguai caracterizou-se por ser um país de leis de vanguarda na América Latina. Em 1907 aprovou a lei de divórcio (sete décadas antes de todos seus vizinhos); em 1915 implementou a jornada de oito horas de trabalho e em 1932 tornou-se o segundo país das Américas a conceder o direito de voto às mulheres. Um século depois de suas primeiras lei de vanguarda, transformar-se em 2007 no primeiro Estado latino-americano a contar com uma lei de união civil entre pessoas do mesmo sexo em todo seu território.

Em 2008 o Parlamento uruguaio aprovou uma lei que castiga os pais que inflijam punições físicas a seus filhos. Em 2009 o Parlamento abriu as portas para a adoção de crianças por parte de casais homossexuais. A comunidade gay uruguaia também foi beneficiada em 2010 com o fim das restrições à entrada de homossexuais nas Forças Armadas.

Em 1934 o Parlamento aprovou a primeira lei que permitia o aborto.Mas, a norma foi abolida um ano depois pelo ditador Gabriel Terra. O assunto voltou ao Parlamento e, em 2012 o Uruguai tornou-se o primeiro país da América do Sul a aprovar a descriminalização da interrupção da gravidez. No ano passado o Parlamento aprovou a lei que regula a produção, comercialização e consumo da maconha, exclusivamente para uruguaios residentes no país.

O mais famoso presidente da História do Uruguai foi José Batlle y Ordóñez (1859-1929), figura reverenciada pela direita, a esquerda e o centro. Ele implementou uma série de reformas políticas e econômicas que transformariam o pequeno país em uma nação de medidas de vanguarda. Governou o Uruguai em dois mandatos: de 1903 a 1907 e de 1911 a 1915.

blog1vinheta71b“NOSSA ESQUERDA E DIREITA SÃO À MODA URUGUAIA”

O escritor e jornalista Leonardo Haberkorn, autor de “Histórias Tupamaras – Novos depoimentos sobre os mitos do MLN” e “Milicos e Tupas”, entre outros livros da História uruguaia, afirma que os governos dos ex-presidentes Tabaré Vázquez e José Mujica decepcionaram setores de esquerda pela “moderação” de suas gestões. Em entrevista ao Estado sustentou que a esquerda uruguaia “pouco tem a ver com o chavismo venezuelano”.

Estado – Qual é o perfil ideológico da Frente Ampla (FA)?

Haberkorn – A Frente Ampla é uma coalizão, como diz o próprio nome, que é muito ampla, incluindo grupos sociais-democratas, democratas-cristãos, além do Partido Comunista uruguaio, que ainda não ficou sabendo da queda do Muro de Berlim. Dentro da FA também existem ex-guerrilheiros tupamaros. Alguns cientistas políticos a definem como uma coalizão de centro-esquerda que tenta buscar consenso dentro desse variado leque. Mas, esta esquerda uruguaia tem pouco a ver com o chavismo da Venezuela ou com Movimento ao Socialismo de Evo Morales na Bolívia.

Estado – No que a ela se diferencia dos casos da Bolívia e Venezuela?

Haberkorn – A FA mudou desde sua criação. Era um partido de classe média universitária, uma esquerda intelectual, e não tinha nada a ver com Evo ou Chávez. A FA mudou e incorporou esse tipo de discursos. No entato, na prática, nem Vázquez ou o de Mujica tiveram os radicalismos da Venezuela. Morales, por exemplo, possui um discurso contra os homossexuais. A esquerda aqui não aceitaria um líder assim dentro do Uruguai. Além disso, a FA teve respeito pela liberdade de imprensa, ao contrário de governos de outros países na América do Sul. E nem Vázquez nem Mujica tentaram dividir o pais e antagonizar setores da sociedade. Essas coisas que acontecem na Argentina com o kirchnerismo ou com o chavismo na Venezuela não são bem-vistas pelos uruguaios…

Estado – O presidente Mujica decepcionou setores da esquerda?

Haberkorn – Entre 2005 e 2010 Vázquez fez um governo de esquerda moderada. Mujica chegou ao poder em 2010 prometendo uma virada à esquerda. Mas muitas pessoas sentem que isso não ocorreu. Mujica fez as leis do aborto, de casamento entre pessoas do mesmo sexo, a lei da maconha. No entanto, não são os assuntos que mais afetam a vida do trabalhador, como é o caso do salário o a qualidade do emprego. Aquelas são questões na área de direitos. A política econômica continua a mesma. Existe um partido mais à esquerda da FA, a União Popular, que considera que os frenteamplistas estão seguindo as regras dos mercados capitalistas. E nos últimos tempos também surgiu o Partido Ecologista Radical Independente, que é um setor da esquerda que questiona toda a industrialização feita durante os governos de Vázquez e Mujica na área de celulose e outros projetos que tiveram custo ambiental.

Estado – Existe uma direita uruguaia?

Haberkorn – Sim, existe, embora no Uruguai ninguém diga que é de direita. Os partidos tradicionais foram oscilando em posições mais ou menos conservadoras, pois possuem alas conservadoras e progressistas. O candidato do Partido Nacional, Luis Lacalle Pou é acusado de ser de direita. Mas, colocou figuras em sua equipe que trabalharam como técnicos nos governos da FA. O Partido Colorado fez leis sociais de vanguarda no começo do século 20, separou a Igreja do Estado, entre outras. No entanto, “direitizou-se” nas últimas décadas. Os colorados sempre tiveran duas alas: a “Batllista”, social-democrata e majoritária por muito tempo, e outra ala, “Riverista”, conservadora. Hoje os conservadores tem a maioria dentro do partido. Mas, de forma geral, no Uruguai existe a ideia de que o Estado tem que ajudar os pobres e que deve propiciar educação pública e saúde. Os partidos podem eventualmente criticar problemas dos serviços estatais. Mas ninguém propõe privatizações. O país tem uma esquerda e uma direita peculiares comparadas com outras na região…é a política à moda uruguaia.

SÓIS SORRIDENTES EM AMBAS MARGENS DO PRATA

O motivo dos sóis ‘sorridentes’ nas bandeiras da Argentina e do Uruguai era uma das inquietudes de vários de nossos leitores. Aqui explicamos a origem destes sóis sorridentes:

As bandeiras da Argentina e do Uruguai possuem vários pontos em comum. Por um lado, ostentam o branco e o azul (no caso da Argentina, mais do que azul, é o celeste, se bem que em outras épocas era mais escuro esse azulado…mas esse é um assunto saboroso para outra postagem).

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Bandeira argentina

Além disso, também ostentam um sol, muito similar. O sol parece sorridente…não de forma exagerada, mas mais como um sorrido de Mona Lisa. Ele possui uma ‘carinha’, com olhos, sobrancelhas e nariz.

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O sol na bandeira argentina foi adotado em 1818, durante uma reunião do Congresso em Buenos Aires. É o mesmo sol que aparece na primeira moeda nacional cunhada pela Assembleia de 1813.

Este sol possui 32 raios. Dos quais 16 raios “retos” e 16 “flamejantes”. Isto é, 16 raios retinhos e outros 16 com curvinhas, como se estivessem em plena ação de ‘chamas’.

É chamado de “sol de mayo”, em referência à Revolução de Maio de 1810, estopim das revoltas de independência no rio da Prata.

O design deste sol foi realizado por um ourives de sobrenome Rivera (que tinha antepassados incas). Rivera recuperou o símbolo do sol dos incas, o ‘Inti’.
O mesmo sol inspirou os uruguaios, quando estes fizeram sua bandeira definitiva.

Até 1985 a bandeira com o sol era considerada “bandeira-mor” da nação (ou também a bandeira de guerra), e portanto, só podem ser usadas pelos edifícios públicos e as forças armadas. Os cidadãos argentinos só podiam usar as bandeiras sem o sol no centro.
Mas, atualmente a bandeira com o sol é a bandeira da Argentina de forma geral.

BlogBandeiraUruguaiSol

Na bandeira uruguaia, o sol tem uma carinha levemente mais sorridente. Possui menos raios que seu colega argentino. No total, o sol uruguaio possui oito raios flamejantes e oito raios retos.

BlogBandeiraUruguai2
Bandeira uruguaia

PARA ENCERRAR, de Louis Moreau Gottschalk, sua homenagem à capital uruguaia, a Sinfonia N°2 ” à Montevideo”. Aqui, o “Presto Maestoso”:

E o “Andante” dessa sinfonia:

Louis Moreau Gottschalk nasceu em Nova Orleáns, Estados Unidos, em 1829. Ele esteve exposto, desde guri, às influências musicais afro-caribenhas, ao estilo francês de melodias da época… e era um fascinado pela América Latina, especialmente o Brasil.

Ele fez esta saborosa variação de nosso hino, a “Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro”:

A mesma obra, com as mãos de Arthur Moreira Lima:

Gottschalk também compôs a “Marcha solene brasileira”:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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