Videla fala: Desaparecidos foram destinados à “Disposição Final”
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Videla fala: Desaparecidos foram destinados à “Disposição Final”

arielpalacios

15 de abril de 2012 | 22h23

J.R. Videla e A. Strössner M.: Ditadores, respectivamente, da Argentina e do Paraguai. O paraguaio morreu em um confortável exílio. O argentino está preso, por crimes contra a Humanidade. Em um novo livro, o “Disposição Final”, Videla admite o massacre de 7 mil a 8 mil civis.

“Disposição final”. Esta era, segundo o ex-ditador e ex-general Jorge Rafael Videla, a expressão utilizada pelos militares para referir-se à eliminação dos prisioneiros civis da ditadura que governou a Argentina entre 1976 e 1983. Videla nega que os integrantes do regime que torturou e assassinou 30 mil civis – segundo estimativas dos organismos de defesa dos direitos humanos – tivessem usado a expressão “Solução Final”, utilizada pelo Terceiro Reich para designar o genocídio de judeus. Segundo ele, a expressão aplicada, “Disposição Final”, “são duas palavras muito militares e significam retirar de serviço uma roupa que já não se usa ou que não serve porque está gasta…aí, passa para a Disposição Final!”.

As declarações de Videla foram publicadas no livro “Disposição Final – A confissão de Videla sobre os desaparecidos”, do jornalista Ceferino Reato. Na obra, o ex-ditador, que está preso há vários anos na cela número 5 da Unidade 34 do Serviço Penitenciário do quartel de Campo de Mayo por crimes contra a Humanidade, afirma que a ditadura “desapareceu” os corpos dos presos políticos para “evitar protestos dentro do país e no exterior”.

“Tínhamos que fazer algo que não fosse tão evidente (os desaparecimentos), de forma a evitar que a sociedade percebesse”, argumentou.

Segundo Videla, – que não se arrepende das mortes, pois afirmou a Reato que o assassinato de civis foi necessário para vencer a “Guerra contra a subversão” – a ditadura “eliminou” de 7 mil a 8 mil pessoas.

Videla sustenta que era impossível levar milhares de pessoas à justiça. “E tampouco podiam ser fuziladas”, explicou. “Mas eram pessoas que tinham que morrer para vencer a guerra contra a subversão”. O ex-general justificou as mortes: “eram pessoas irrecuperáveis”.

No livro, Videla também sustenta que não existem listas com o destino final dos desaparecidos. “Poderiam existir listas parciais, mas bagunçadas”.

Videla admitiu que o golpe militar de 1976, que deu início a uma ditadura de sete anos de duração, foi um “erro”. Segundo Videla, atualmente com 87 anos, a conquista do poder por parte dos quartéis foi “desnecessária” do ponto de vista militar. No entanto, o ex-ditador ressaltou que o objetivo dos generais com a derrubada da presidente civil Maria Estela Martinez de Perón (mais conhecida como “Isabelita”) era o de “disciplinar uma sociedade anarquizada”.

A líder da organização de defesa dos direitos humanos das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carlotto, anunciou que “deplora a falta de arrependimento” de Videla, que no livro afirma que Deus sempre esteve de seu lado.

Ceferino Reato, autor do livro com as declarações de Videla, afirmou neste fim de semana que havia ficado surpreso com a atitude do ex-ditador: “parecia que ele estava fazendo uma análise dos crimes que outra pessoa havia cometido, e não ele próprio!”

PRÉVIA – Em fevereiro, em declarações à revista espanhola “Cambio 16”, Videla por segunda vez desde o fim da ditadura quebrava seu silêncio com a imprensa (a primeira vez, no ano 2000, foi quando dois jornalistas argentinos o entrevistaram para sua primeira biografia não-autorizada, “El Dictador”). Na ocasião, afirmou que “a ditadura militar cumpriu seus objetivos” e admitiu a morte de 7 mil civis por parte da ditadura.

A declaração implicou em uma drástica mudança na posição de Videla, que durante as últimas três décadas, nos diversos julgamentos aos quais foi submetido, negou a existência de desaparecidos, da política sistemática de campos de concentração e da eliminação física dos críticos do regime.

OS DESAPARECIDOS – Os organismos de defesa dos direitos humanos na Argentina afirmam desde 1983 que a ditadura provocou 30 mil desaparecidos.

A Comissão Nacional de Desaparecidos (Conadep), comandada em 1985 pelo escritor Ernesto Sábato afirma a existência de 10 mil pessoas mortas pela ditadura.

Em 2002, ex-ditador Reynaldo Bignone (o último presidente da ditadura), declarou à TV francesa que militares mataram “somente” 8 mil civis.

BALANÇO SOCIAL, ECONÔMICO E MILITAR DA DITADURA – Ao longo de seus sete anos de duração, além da morte de milhares de civis, a maioria dos quais sem militância na guerrilha, os militares seqüestraram 500 bebês, filhos das desaparecidas, dos quais apenas 105 foram recuperados ou identificadas por suas famílias biológicas.

Centenas de milhares de pessoas se exilaram por motivos políticos e econômicos, já que na área financeira o regime militar argentino teve uma política caótica, que fez a dívida externa disparar de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

A inflação, nos sete anos de regime, aumentou de 182% anual para 343%, a pobreza cresceu de 5% da população para 28%.

Além disso, a ditadura implementou uma corrida armamentista com o Chile em 1978, que disparou o déficit fiscal. Depois, em 1982, protagonizou um estrepitoso fracasso militar na improvisada invasão das ilhas Malvinas.

 

Videla, no final da vida (ou pelo menos, próximo disso) volta a falar. Na época em que comandava o país ele não perdia uma chance de realizar discursos ou declarações. Na foto acima, Videla, no apogeu de seu poder, em 1979, fala – em transmissão ao vivo para a TV – com o jogador Diego Armando Maradona, após o triunfo da seleção juvenil no campeonato mundial do Japão. O jogador, na conversa, dedicou o triunfo “a usted (Videla) y todos los argentinos”. Maradona tinha 19 anos na época. No mesmo período, milhares de jovens argentinos, muitos dos quais mais novos que o jogador, estavam sendo torturados nos cárceres do regime militar por sua militância política. Videla soube capitalizar os dividendos políticos da Copa de 1978 e de outros eventos esportivos ao longo de seu governo.

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: