Vicissitudes nas vísceras presidenciais: Problemas no cólon levam Cristina Kirchner ao hospital
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Vicissitudes nas vísceras presidenciais: Problemas no cólon levam Cristina Kirchner ao hospital

arielpalacios

04 de novembro de 2014 | 20h37

Gravura de 1517 de livro sobre anatomia humana na qual exibem-se as vísceras e o estômago.

A presidente Cristina Kirchner está com um quadro de suposta inflamação no sigmoide, trecho do cólon antes do esfíncter anal, segundo comunicado da Unidade Médica Presidencial. No comunicado médico, lido pelo porta-voz da Casa Rosada, Alfredo Scoccimaro, os médicos sustentaram que ela continuará no Sanatório Otamendi, um dos hospitais privados mais elegantes da capital argentina, no bairro da Recoleta, onde a presidente foi internada no domingo no fim da tarde por um quadro febril infeccioso. Os médicos informaram que ela “encontra-se estável, sob tratamento médico endovenoso”.

Cristina cancelou a reunião programada para esta terça-feira com a presidente do Chile, Michelle Bachelet, além de suspender a videoconferência que teria com o papa Francisco. Integrantes do governo Kirchner sustentaram que seu atual problema de saúde era “algo passageiro”.

A presidente acumula vários problemas na agenda de trabalho. Sua gestão sofre inéditos confrontos entre seus ministros, a escalada inflacionária, recessão, crescentes protestos sociais, além de conflitos com os “holdouts”, denominação dos credores da dívida pública que não aceitaram a troca de bônus feitas pelo governo Kirchner em 2005 e 2010.

De quebra, a popularidade de Cristina está em queda. Segundo uma pesquisa da consultoria Management & Fit, 66% dos entrevistados não querem que o kirchnerismo vença as eleições presidenciais do ano que vem. A pesquisa também indicou que, na hipótese em que os argentinos pudessem votar na segunda reeleição consecutiva de Cristina (algo proibido na constituição), 70% disseram que não.

DESMAIOS E O ‘NÃO-CÂNCER’

A saúde de Cristina foi objeto de diversas especulações desde que era primeira-dama durante a presidência de Néstor Kirchner (2003-2007). Ela acumulou vários episódios de lipotimias (pré-desmaios) ao longo dos últimos onze anos. No entanto, estes casos aumentaram a partir de 2010, já como presidente. Em 2011 um desmaio, seguido de um repouso de cinco dias, suscitou uma série de rumores sobre problemas por desordens alimentícias, depressão e até complicações decorrentes de uma hipotética cirurgia estética. Em dezembro daquele ano o governo anunciou oficialmente que Cristina tinha “câncer na tireoide”. Ela foi internada na cidade de Pilar no Hospital Austral, entidade administrada pela Opus Dei.

Na ocasião, seu amigo, o presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou que os Estados Unidos teriam preparado uma arma que causava câncer nos lideres sul-americanos, entre eles, Cristina.

Mas, um mês depois, quando a presidente argentina foi operada, o governo teve que admitir que não havia câncer algum. Os analistas criticaram a precipitação do governo em anunciar de forma categórica que tinha uma doença inexistente. O caso ficou popularmente conhecido como o “não-câncer” de Cristina.

A presidente continuou sofrendo seus desmaios, enquanto que o governo não fornecia maiores explicações sobre o assunto. No dia 8 de outubro do ano passado a presidente foi operada para drenar um hematoma que surgiu na meninge dura-máter, membrana localizada entre o cérebro e o crânio.

Na época o governo explicou que o hematoma (cujo tamanho nunca foi revelado) foi provocado por um traumatismo craniano no dia 12 de agosto. Mas a Casa Rosada nunca explicou oficialmente a causa do traumatismo, sequer o motivo pelo qual esse acidente foi mantido em segredo quase dois meses.

Além disso, a Casa Rosada informou que a presidente Cristina sofria um tipo de arritmia cardíaca, embora sem jamais ter fornecido detalhes sobre isso.

Em janeiro deste ano os médicos lhe diagnosticaram bursite no quadril. Em julho e outubro manteve repouso por uma faringolaringite aguda.

“APENAS UMA GRIPE”: OS PRESIDENTES ARGENTINOS E SUAS DOENÇAS

“Apenas uma gripe”. Com estas palavras, na última semana de 1974, a Casa Rosada explicava o estado de saúde do então presidente Juan Domingo Perón. No entanto, na realidade, o caudilho de 78 anos tinha problemas mais graves do que aqueles relativos à coriza. Padecendo complicações cardíacas, morreu no dia 1 de julho. O caso do ocultamento da doença de Perón foi apenas uma demonstração – de uma longa lista – de dificuldades dos governos de plantão em lidar com a comunicação sobre a saúde dos presidentes argentinos.

Em 1993, outro peronista, o então presidente Carlos Menem foi internado às pressas. Nas primeiras horas o governo disse que não passava de uma gripe. Mas, na realidade, Menem estava sendo operado da carótida.

Em 2004 o então presidente Néstor Kirchner estava sofrendo de uma intensa dor de dente. Sem consultar seu médico, ingeriu um potente analgésico e pegou um avião. O remédio teve o efeito colateral de lhe provocar uma grave hemorragia no duodeno. Na ocasião foi necessário uma transfusão equivalente à metade do sangue que tinha no corpo. Nas primeiras horas os porta-vozes afirmavam que a internação às pressas do presidente não passava de uma reação a um medicamento do tratamento dentário. Posteriormente revelaram a verdade.

Em 2010 Kirchner foi operado duas vezes por obstruções da carótida. Mas, em ambas ocasiões o governo – nas primeiras horas – afirmava que havia sido internado para um mero “check-up”. Uma semana depois da segunda operação Kirchner havia retomado plena atividade política apesar das recomendações médicas. Em setembro foi submetido à uma angioplastia. Menos de 48 horas depois participava de um comício ao lado da mulher. Um mês e meio depois, morreu.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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