Vivo, era persona non grata. Morto, também (cidade natal de Videla não quer corpo de ex-ditador)
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Vivo, era persona non grata. Morto, também (cidade natal de Videla não quer corpo de ex-ditador)

arielpalacios

22 de maio de 2013 | 13h10

A cidade de Mercedes não quer Videla nem morto. Na foto acima, o então general na época em que protagonizou o golpe de março de 1976. Videla turbinou o modus operandi de torturas e assassinatos que outros ditadores estavam usando na região.

Ele era o “Senhor da vida e da morte” quando estava vivo e era o ditador da Argentina (entre 1976 e 1981), época na qual definiu o destino de milhares de civis, sequestrados, torturados e assassinados nos centros clandestinos do regime militar. Mas morto, o ex-general Jorge Rafael Videla não consegue um lugar onde repousar pela eternidade. Em sua cidade natal, Mercedes, na região agrícola da província de Buenos Aires, grupos de moradores repudiaram a eventual futura presença dos restos mortais de Videla no cemitério local.

Em protesto contra o eventual funeral, a Secretaria de Direitos Humanos do município colocou placas ao lado dos portões do cemitério com os nomes dos 22 desaparecidos da ditadura originários dessa cidade. Caso o féretro de Videla seja ali instalado, terá antes que passar ao lado dos nomes das pessoas que mandou assassinar.

O corpo do ex-ditador foi liberado ontem na terça-feira pelo Instituto Médico Legal de Buenos Aires. No fim de semana, um documento do serviço penitenciário revelou que Videla, com as calças do pijama arriadas e sem o aprumo militar que o caracterizava, morreu sentado no vaso sanitário de sua cela na manhã da sexta-feira. Na véspera havia tido uma queda enquanto tomava banho. O acidente, somado o fato que de o ex-militar ingeria um remédio anticoagulante, causou uma hemorragia interna que horas depois provocou sua morte.

A família do ex-ditador comunicou às autoridades que o corpo não será cremado. Os Videla contrataram na segunda-feira uma agência funerária de Mercedes, fato que aumenta as chances do funeral no cemitério local, onde estão enterrados seus pais Rafael Videla Bengolea e Maria Olga Redondo Ojea.

Nesta quarta-feira, às 19:00 horas, representantes de partidos políticos de Mercedes manifestaram-se na praça principal para repudiar Videla e a ditadura.

Ossos de desaparecidos da ditadura militar argentina encontrados pela Equipe Forense de Antropologia da Argentina nos anos 90.

A tradição fúnebre argentina, especialmente no interior do país, é a de enterrar os mortos no mausoléu familiar. Ou, como alternativa, em um túmulo próximo aos pais e parentes.

Na câmara de vereadores, os representantes dos partidos afirmam que não querem que o corpo de Videla altere a calma da cidade. José Luis Pisano, do partido Socialista, declarou que não deseja que Mercedes “se transforme em um ponto de peregrinação da direita fascista, e menos ainda que ele seja enterrado ao lado de companheiros que perderam suas vidas durante a ditadura”.

As autoridades admitem que, apesar de repudiar Videla, não podem proibir que sua família enterre seu cadáver ali. “A família possui um mausoléu e túmulos privados. Não está dentro de nosso alcance impedir esse enterro”, indicou o secretário de direitos humanos Marcelo Melo.

Integrantes das organizações de defesa dos direitos humanos afirmam que Videla, ao esconder os corpos dos desaparecidos, impediu que seus parentes possam chorar seus mortos na frente de seus túmulos. “Não podemos fazer a mesma coisa que ele fez com os 30 mil desaparecidos. Ele tem que ter seu lugar”, afirma Diana Manos, da Comissão de Parentes de Detidos e Desaparecidos de Mercedes.

Gravura de Franciscus Carpensus, “Isagogae Breves”, de 1523, Bologna.

DITADOR & FAMÍLIA (OS SOBRINHOS DESAPARECIDOS) – Dois dos nomes nas placas nas portas do cemitério – os de Ignácio e Esteban Ojea Quintana – possuem um vínculo especial com Videla: eram seus sobrinhos, detidos pela Marinha em 1977 por serem militantes da esquerda. Seu tio, apesar de ser o todo-poderoso líder do país, nada fez para salvá-los da morte. Os jovens tinham, respectivamente, 21 e 19 anos. Seus corpos nunca foram localizados.

Outro nome nas placas é o de Carlos Agosti, sobrinho do brigadeiro Orlando Agosti, chefe da Aeronáutica e integrante da Junta Militar de Videla. Carlos foi sequestrado e assassinado em dezembro de 1976. Seu corpo está enterrado a poucos metros do mausoléu dos Videla.

O militar esteve rodeado pela morte toda sua vida. Ele foi batizado como “Jorge Rafael” em homenagem a seus dois irmãos mais velhos, gêmeos – Jorge e Rafael – que morreram de sarampo em 1923, dois anos antes do nascimento do futuro ditador.

A poucos metros do mausoléu familiar em Mercedes estão enterrados três padres da ordem Palotina que foram assassinados em 1976 por ordem da ditadura de Videla.

Videla reza durante uma cerimônia religiosa quando era ditador da Argentina

EFEMÉRIDE – A revista satírica “Barcelona” instaurou há meia década o dia 2 de agosto como o “Dia Nacional do Filho da P…”. A data foi escolhida por ser o aniversário de nascimento do ex-ditador Videla, considerado pelos integrantes da redação dessa publicação como o “filho da p… por excelência da História argentina”.

Esqueleto ‘rezando’: “Osteographia”, de William Cheselden, de 1733

Hoje completam-se 200 anos do nascimento de Richard Wagner. Aqui embaixo, a abertura de Parsifal:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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