Futebol em ritmo de ópera wagneriana: River Plate despenca no precipício da Segunda Divisão
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Futebol em ritmo de ópera wagneriana: River Plate despenca no precipício da Segunda Divisão

arielpalacios

26 de junho de 2011 | 20h57

Clima da torcida do River estava neste domingo em compasso similar à Marcha funerária de Siegfried da ópera “Götterdämmerung” (O crepúsculo dos deuses), de Richard Wagner. Aqui.

“À beira do precipício”, “nas portas do inferno”, “vivendo um pesadelo acordado” foram as expressões alusivas à topografia, às alusões literárias dantescas ou ainda oníricas-psicológicas, que os torcedores usaram ao longo da última semana para definir a situação atual do clube River Plate. Esta centenária entidade esportiva, que acumula a pole position no ranking de títulos argentinos (33 campeonatos nacionais conquistados), além de aglutinar quase um terço do total dos torcedores do país, caiu neste domingo para a Segunda Divisão pela primeira vez em sua História.

O clima neste domingo era similar ao do funeral de Siegfried, na ópera “Götterdämmerung” (O crepúsculo dos deuses), de Richard Wagner. Mas, evidentemente acompanhado por uma série de elmentos não-wagnerianos, como as pedras, paus e tijolos que a torcida riverplatense arremessou sobre os integrantes do próprio plantel.

Os fanáticos também jogaram garrafas, pedaços das cadeiras das arquibancadas e até as bandejas de hambúrgueres das barraquinhas de vendedores ambulantes. Todo essa sequência foi acompanhada de elaborados epítetos contra as mães, avós e irmãs dos jogadores e dos diretores do clube.

Dezenas de milhares de torcedores riverplatenses mantiveram uma batalha campal de mais de duas horas contra apenas 2.200 policiais, que tentaram defender-se com o uso de carros lança-jatos, gases lacrimogêneos e cavalaria. Dezenas de policiais tiveram que enfrentar os manifestantes com socos.

Por trás desta inédita crise acumula-se quase uma década de problemas financeiros, brigas políticas, imbróglios administrativos, atrasos no pagamento do salário do plantel e a venda dos melhores jogadores para o exterior.

Mais crepúsculo dos deuses, do teutônico Ricky Wagner.

Voltando ao jogo: neste domingo o River empatou 1 a 1 com o Belgrano de Córdoba. Para evitar a queda para a Segunda Divisão precisava obter dois gols de vantagem. Isso não ocorreu. O resultado: a torcida, enfurecida, arremessou pedras e garrafas contra o time do Belgrano na hora em que este saía do campo.

Ao sair do estádio, que ficou depredado, a torcida riverplatense saqueou comércios da área, além de destruir vitrines de lojas.

O saldo desta jornada esportiva foram 68 feridos (dos quais 25 eram policiais) e destroços em propriedades privadas não relacionadas com o jogo em questão.

E, em referência ao supracitado time de nome em inglês, um pouco de Julie London entoando o “Cry Me A River”. Aqui.

PRESTÍGIO ABALADO – O River é parte de um trio de times que nunca haviam caído para a Segunda Divisão. Os outros dois são o Boca Juniors e o Independiente de Avellaneda. Fundado no dia 25 de maio de 1901, o River Plate – criado pela fusão dos times Santa Rosa e La Rosales – subiu para a Primeira Divisão em 1908 e nunca mais saiu dali. Além disso, o River acumula em suas estantes na sede no bairro de Núñez, um total de 33 troféus nacionais e cinco internacionais. 

MENOS DINHEIRO – Mais além de constituir um fato inédito na História do River e de ser um pesadelo para os torcedores – que deverão suportar as ironias e sarcasmos dos rivais, especialmente o Boca Juniors – a queda para a Segunda Divisão também implicará em um impacto econômico negativo.

O problema é que o River perderá grande parte dos dividendos pelos direitos de transmissão, passando dos atuais US$ 7,6 milhões anuais da Primeira Divisão para os US$ 875 mil pagos aos times da Segunda Divisão.

O River perderia ao redor de US$ 10 milhões anuais dos patrocinadores, que não teriam interesse em respaldar um time de segunda divisão.

De quebra, a cotação dos integrantes do plantel do River também sofreria uma forte queda.

Para torcedores do River, cair para Segunda Divisão é como despencar por um precipício. Acima, Miguelito – personagem do cartunista Quino – à beira de um precipício. A mãe de Miguelito exclama, assustada: “m-mas…o precipócio, Miguelito, cuidado, pelo amor de Deus!!”. Miguelito, interrompido em sua ação de jogar uma pedra abismo abaixo, avalia e pergunta preocupado: “ele quebra?”

SEM CLÁSSICO – A queda do River está gerando estupefação não somente entre os próprios torcedores mas também nas torcidas rivais. “Como seria um superclássico se o River não está?”, perguntou um dos mais famosos produtores de TV, Alejandro Borensztein, torcedor do Boca e humorista. “Sem o River o Boca não é o Boca”, ilustra.

Com a passagem do River para a Segunda Divisão, os argentinos ficarão – pelo menos durante um ano – sem chances de assistir o “superclássico”, denominação do embate periódico que protagonizam desde 1908 o time e seu rival histórico, o Boca Juniors.

Cena do precipício de “Agente secreto” do filme do brilhante Alfred Hichtcock. Para os fanáticos do River, a queda para a Segunda Divisão causou muito mais do que vertigens.

MIRÍADE DE TÉCNICOS – Desde 2008, ano em que ficou no vigésimo lugar no campeonato Abertura (isto é, o último posto da Primeira Divisão), o River passou pelas mãos de cinco técnicos (Diego Simeone, Nestor Gorosito, Leonardo Astrada, Angel Cappa e Juan José López).

A BOLA E O MÉDICO – Na TV portenha os médicos, entre eles o midiático Alberto Cormillot, haviam alertado os torcedores mais fanáticos para que tomassem cuidado com eventuais enfartes que poderiam ser provocados por uma derrota do time. “Durma bem na noite anterior e faça uma medição da pressão antes do jogo”, disse Cormillot.

A eventual derrota também tirava o sono da diretoria do River, já que a passagem à Segunda Divisão implicaria em graves perdas financeiras para o clube. A previsão é de uma fuga de patrocinadores que não estariam dispostos a respaldar um time de Segunda Divisão. 

SEGUNDA MAIOR TORCIDA – O River Plate, segundo pesquisa elaborada em 2009 pelo governo federal argentino, conta com 32,6% do total da torcida argentina. Seu maior rival, o Boca Juniors, aglutina ao redor de 40,4%.

MONUMENTAL DE NÚÑEZ, EMBORA EM BELGRANO – Oficialmente, o estádio do River chama-se “Antonio Vespucio Liberti”, em homenagem ao presidente do clube que o construiu em 1938. No entanto, usa-se a denominação popular de  “estádio Monumental de Núnez”, em referência ao bairro de Núñez. Mas, apesar do nome, o estádio do River está no bairro de Belgrano, a poucos quarteirões da fronteira com Núñez. Coincidentemente, existe um time chamado “Defensores de Belgrano”, que está no bairro de Núñez.

Acima, “Burro”, nome do burro do filme “Shrek”, protagonizada pelo ogre homônimo, discursa para platéia. Em Córdoba, região central da Argentina, um parente distante seu tornou-se um certeiro oráculo futebolístico

O CERTEIRO ASNO ORÁCULO – O falecido polvo anglo-germânico Paul, oráculo futebolístico da última Copa do Mundo – que acertou sobre os resultados dos jogos protagonizados pela Alemanha – já conta com um sucessor que promete fazer carreira.

O correligionário em questão reside na cidade de Córdoba. No entanto, não pertence à família dos octópodes, tal como o defunto polvo europeu. O profeta cordobês é um eqqus africanus asinus, a.k.a. “burro” ou “asno”.

“Andrés” – o nome do jumento cordobês – vaticinou que o jogo deste domingo acabaria em empate.

O método realizado por seus proprietários foi o de colocar na sua frente três fardos de feno.

Um dos fardos ostentava a bandeira do River, outra exibia a bandeira do Belgrano enquanto que o terceiro fardo não contava com identificação alguma, simbolizando o empate. “Andrés” escolheu o feno desta última opção.

Ontem, torcedores de ambos times puderam constatar que Andrés havia vaticinado corretamente, já que o River e o Belgrano empataram 1 a 1. 

O lord e almirante Horatio Nelson (1758-1805) sustentava: “serenos na derrota, sereníssimos na vitória”. Mas, as torcidas futebolísticas não costumam dar atenção à recomendação do vitorioso em Trafalgar.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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