“Nós queremos justiça”, afirma Mãe de Tiananmen em entrevista

Cláudia Trevisan

06 de junho de 2011 | 06h25

Na manhã do dia 4 de junho de 1989, Ding Zilin recebeu a notícia de que seu filho de 17 anos havia sido morto no dia anterior por tropas do Exército de Libertação Popular que entraram em Pequim com a missão de colocar fim às manifestações pró-democracia de estudantes na praça Tiananmen, iniciadas quase dois meses antes. Jiang Jielian foi um dos primeiros a morrer, atingido nas costas por um bala que parou em seu coração.

Quando seu filho morreu, Ding era filiada ao Partido Comunista e ensinava Filosofia na Universidade do Povo da China, instituição responsável por dar suporte acadêmico a políticas públicas. Em razão de sua campanha em defesa da punição dos responsáveis pela repressão aos estudantes, ela teve que se aposentar precocemente e foi desligada do Partido.

O grupo Mães de Tiananmen reúne 127 pessoas e todos os anos envia cartas ao governo chinês com reivindicações para esclarecimento das circunstâncias em que as mortes ocorreram. Até hoje, nunca recebeu respostas.

Segundo Ding, algumas pessoas criticam a organização por não realizar manifestações na praça Tiananmen, a exemplo do que fazem as Mães da Praça de Maio, na Argentina. “Nós reconhecemos que as mães argentinas são corajosas, mas a situação dos dois países é muito diferente. A Argentina tem um sistema democrático e nós, não.”

A seguir, a entrevista que Ding, 74, concedeu ao Estado por telefone:

A sra. ainda tem esperança de receber uma explicação oficial sobre a morte de seu filho?
Não creio que há possibilidade de eles darem uma explicação neste momento. Mas nosso objetivo nunca vai mudar e continuaremos a lutar por uma explicação razoável. Eu acredito que haverá uma solução, cedo ou tarde, porque o que aconteceu foi um evento sanguinário que chocou o mundo.
Mas isso deve ser resolvido dentro de um sistema legal saudável. Portanto, temos um longo caminho a percorrer. Não importa se conseguirei ver isso enquanto estiver viva, eu continuarei a trabalhar nesse sentido com as outras Mães de Tiananmen.

Como o seu filho morreu?
No dia 3 de junho, meu filho escutou tiros do lado de fora de casa e estava muito preocupado com a situação na praça Tiananmen. Eu sabia que a situação lá estava perigosa e não o deixei sair de casa. Tentei impedi-lo e persuadi-lo, mas ele escapou e encontrou um de seus colegas no campus. De lá, os dois foram para a praça de bicicleta e, no caminho, encontraram milhares de manifestantes nas ruas.
O Exército começou a atirar e não sei como eles terminaram à frente da manifestação. Os dois se esconderam atrás de um canteiro, mas ainda assim meu filho foi levou um tiro pelas costas. A bala atravessou seu coração às 11h10. Felizmente, seu colega foi baleado apenas no calcanhar e meu filho disse a ele ‘me deixe e corra’.
Mais tarde, os manifestantes começaram a ajudar os que estavam feridos e enviá-los a hospitais. Na manhã seguinte, o colega que estava com meu filho veio à minha casa acompanhado de seu pai para me dar a notícia.

Quais são as principais reivindicações das Mães de Tiananmen?
Nós só queremos justiça pela morte de nossos familiares. Esses estudantes indefesos e inocentes queriam apenas manifestar suas opiniões pacificamente, mas as autoridades tiraram suas vidas de maneira violenta.
Qual a razão de isso ter acontecido? As autoridades têm que nos dar uma explicação. A vida é preciosa e eu vejo que os líderes chineses também enfatizam em público a dignidade da vida humana. Eles deveriam colocar isso em prática.
As autoridades dizem que nossos filhos se amotinaram e que eles tiveram que agir para sufocar uma rebelião contrarrevolucionária. Nós queremos que eles apresentem as evidências que sustentam essas afirmações. Sem evidências, eles não passam de assassinos de inocentes. De acordo com a lei, isso é um crime que deve ser punido.

O fato de o governo ter oferecido compensação a uma família é um indício de que a posição oficial em relação a Tiananmen pode mudar?
Não acredito que signifique uma mudança. Todo o episódio foi muito estranho. Desde o ano passado, a situação dos direitos humanos na China está cada vez pior. O dia 20 de fevereiro foi o primeiro no qual se tentou iniciar a Revolução do Jasmim na China. Na manhã desse mesmo dia, um policial que disse falar apenas em nome próprio visitou essa família. Não acho que foi coincidência. Acredito que as autoridades tinham medo que participássemos da Revolução do Jasmim e que planejássemos atividades para o 4 de junho. Eles queriam nos colocar à prova.
O policial mencionou apenas dinheiro e não fez referência ao esclarecimento da verdade. Essa não é a maneira correta de resolver o problema.
O Partido Comunista sempre quis destruir as Mães de Tiananmen. No começo do governo Hu Jintao, ele tentou nos destruir. Eles prenderam a mim e outras duas integrantes das Mães de Tiananmen, mas tiveram que nos soltar sob pressão da opinião pública.
No dia 18 de maio, nós planejávamos nos encontrar na minha casa para discutir o que fazer no 22˚ aniversário. Como nosso telefones e e-mails são monitorados, na manhã daquele dia dois policiais apareceram na porta da família que recebeu a oferta de compensação e os impediram de sair. É óbvio que não há mudança ou progresso.

O grupo recebeu alguma resposta oficial às suas reivindicações?
Nenhuma. Eles apenas recebem as cartas e ficam em silêncio.

Quantas cartas as Mães de Tiananmen já enviaram ao governo?
Liu Xiaobo costumava contar para nós, mas agora…[vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2010, Liu Xiaobo está preso desde dezembro de 2008]. Algumas pessoas dizem que as Mães de Tiananmen não são tão corajosas como as Mães da Praça de Maio, na Argentina.
Eles nos criticam porque só apresentamos cartas com nossas reivindicações e dizem que deveríamos ir até a praça para protestar.
Nós reconhecemos que as mães argentinas são corajosas, mas a situação dos dois países é muito diferente. A Argentina tem um sistema democrático e nós, não.
Ontem (no dia 1˚ de junho), eles vieram à minha casa para dizer que eu não poderei ir ao cemitério amanhã, data da morte de meu filho. Também disseram que haverá policiais a paisana na porta de casa, que vão me acompanhar onde quer que eu vá.

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