24 milhões de homens sobrando

Cláudia Trevisan

21 de janeiro de 2010 | 06h15

A milenar preferência das famílias chinesas por filhos homens está prestes a transformar a busca de uma mulher pelos solteiros do país em uma corrida de obstáculos, na qual muitos ficarão pelo caminho. De acordo com estimativa do governo de Pequim divulgada na semana passada, 24 milhões de chineses “sobrarão” no mercado matrimonial por volta de 2020 e dificilmente encontrarão uma mulher com quem se casar. A inflação masculina é fruto do explosivo coquetel que une a preferência por homens, a política de filho único e os exames para identificação do sexo dos bebês durante a gravidez, que levam ao aborto de fetos do sexo feminino.

O desequilíbrio na população chinesa é o maior do mundo e, segundo os números do censo, existem 40 milhões de homens a mais que mulheres no país, número semelhante à toda a população da Argentina. O governo proíbe a realização de ultrassom para identificação do sexo dos bebês, mas a regra é de difícil aplicação, principalmente na zona rural.
Enquanto no mundo nascem em média 106 garotos para cada grupo de 100 meninas, na China a proporção é de 120 para 100. A entidade norte-americana International Planned Parenthood Federation estima que são realizados 7 milhões de abortos a cada ano no país, 70% dos quais de bebês do sexo feminino.

A disparidade é mais acentuada na zona rural, onde ter um filho homem é garantia do sustento dos pais na velhice, em um país que não possui um sistema de Previdência Social. Na cultura chinesa, cabe aos filhos homens cuidarem dos pais, enquanto as mulheres são responsáveis pelos pais de seu marido. Em algumas regiões rurais, a proporção de nascimentos é de 130 meninos para cada grupo de 100 meninas.

A falta de mulheres é considerada pelo governo de Pequim como uma ameaça à estabilidade social do país. Também é uma fonte de violência contra a mulher, com aumento dos casos de tráfico, prostituição e estupros. Para os homens em idade de casar, o desequilíbrio entre demanda e oferta gera uma pressão adicional na busca por uma noiva. Nas grandes cidades, as famílias de classe média compram apartamentos para os seus filhos, na esperança de que isso aumente seu apelo perante as possíveis candidatas.

Casar e ter filhos ainda é visto como algo essencial na sociedade chinesa e muitos pais se consideram frustrados com a solteirice de seus filhos, por mais sucesso que eles tenham na vida profissional. De acordo com a milenar tradição confuciana, o maior desrespeito que um filho pode cometer em relação a seus pais é não ter filhos.

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