O 35 de Maio e a memória do massacre na Paz Celestial

Cláudia Trevisan

04 de junho de 2012 | 09h46

O dia 35 de maio não existe em nenhum lugar do mundo, mas no calendário político chinês ele é a maneira oblíqua de se referir ao mais sensível episódio da história recente do país, que continua banido da esfera pública de discussão apesar de ter ocorrido há 23 anos. Chamado oficialmente de “incidente de 4 de junho”, o massacre de estudantes que colocou fim aos protestos pró-democracia na praça da Paz Celestial (Tiananmen) é a mais profunda das feridas abertas da sociedade chinesa e continua a ser tratado como tabu pelo Partido Comunista.

Como ocorre todos os anos, a censura na internet e vigilância sobre ativistas foi reforçada nos últimos dias. A programação de redes de TV internacionais, como a BBC, saiu do ar quando reportagens sobre o aniversário de 23 anos do massacre começaram a ser transmitidas. Até o termo “Bolsa de Xangai” foi bloqueado na internet, depois que as ações fecharam hoje em queda de 64.89 pontos, número que representa a data sobre a qual o Partido Comunista não quer falar: 4 de junho de 89. A conspiração dos números já havia começado na abertura do pregão, com o índice em 2346.89, no qual podiam ser “lidas” todas as referências ao aniversário: 23 anos e a data escrita ao contrário (quando se considera o padrão norte-americano de colocar o mês antes do dia).

No dia 2, a mais popular versão local do Twitter, o Sina Weibo, removeu a imagem de uma vela acessa da relação de seus “emoticons” mais populares, em uma tentativa de evitar homenagens às vítimas da repressão a Tiananmen. Todos os anos, milhares de pessoas se reúnem em Hong Kong no dia 4 de junho para homenagear os mortos com um vigília com velas.

O Partido Comunista continua a classificar as manifestações como uma “rebelião contrarevolucionária” e se recusa a discutir as reivindicações de revisão da posição oficial sobre o episódio, investigação das circunstâncias das mortes e indenização dos familiares. Alguns dos líderes do movimento continuam exilados nos Estados Unidos e ainda há participantes do movimento na prisão.

As manifestações de 89 reuniram milhões de pessoas em toda a China e foram o mais sério desafio à supremacia do Partido Comunista desde sua chegada ao poder, em 1949. Os protestos começaram de maneira espontânea no dia 15 de maio de 89, data da morte do reformista Hu Yaoban, que havia sido afastado do cargo de secretário-geral do Partido Comunista em 1987 por sua posição favorável a mudanças no campo político. Nos dias seguintes, milhares de estudantes se dirigiram à praça Tiananmen para prestar homenagem a Hu, venerado até hoje como mentor por vários dirigentes comunistas, incluindo o atual secretário-geral do Partido Comunista e presidente da China, Hu Jintao.

O movimento cresceu e ganhou intensidade nas semanas seguintes, com apoio crescente da população de Pequim. Em maio, as manifestações se espalharam a outras cidades. No dia 13, os estudantes ocuparam a praça Tiananmen, que é o coração político da China, e iniciaram uma greve de fome para pressionar o governo a realizar reformas. O protesto se transformou em uma fonte de constrangimento para Deng Xiaoping, que no dia 14 recebeu a visita do então líder russo Mikhail Gorbachev, cujo objetivo era selar a normalização das relações entre os dois países. O reformista Gorbachev foi saudado com euforia pelos manifestantes, que pediam abertamente a renúncia de Deng.

Notícias de estudantes hospitalizados em razão da greve de fome ganharam destaque em todo o mundo e forçaram o primeiro-ministro Li Peng a receber um grupo de estudantes no Grande Palácio do Povo no dia 18 de maio, em uma reunião que não avançou na direção de nenhum acordo. À noite, o secretário-geral do Partido Comunista, Zhao Zyiang, foi à praça e, com lágrimas nos olhos, pediu desculpas por não ter sido capaz de solucionar a crise. No dia seguinte, Zhao foi afastado do cargo e colocado em prisão domiciliar, enquanto o governo anunciava a imposição de Lei Marcial no país. Mas os protestos continuaram. Durante duas semanas, forças de segurança tentaram em vão desocupar a praça. Seu avanço era bloqueado pelos moradores de Pequim, que construíam barricadas, furavam pneus de carros, interrompiam o trânsito e tentavam convencer os soldados a não reprimir os estudantes.

Deng Xiaoping decidiu intervir e reunir tropas do Exército de Libertação Popular fieis a ele em outras províncias. Os tanques entraram na capital chinesa na noite do dia 3 de junho, passando por cima de tudo e todos que estivesse no caminho. Soldados começaram a atirar de maneira aleatória e estudantes gritavam “eles estão usando balas de verdade!”. A maioria das mortes ocorreu fora da praça, na qual os tanques chegaram na madrugada no dia 4 de junho. Ainda havia um pequeno grupo de manifestantes no local, que deixou a praça de mãos dadas, pouco antes do dia amanhecer.

Até hoje não se sabe quantas pessoas morreram vítima do avanço dos tanques. Na época, a imprensa oficial disse que cerca de 200 civis haviam morrido, enquanto a Anistia Internacional colocou o número em 1.000. Não houve investigação sobre as circunstâncias das mortes, nenhuma família recebeu indenização e, 23 anos depois, o espírito de Tiananmen continua a assombrar as autoridades chinesas.