A América Latina não é a África

Cláudia Trevisan

16 de setembro de 2010 | 08h07

Convencer os chineses de que a América Latina não é a África é um dos grandes desafios de empresas e governos da região interessados em atrair investidores do país asiático, que não estão acostumados com o modelo de negócios praticado no Brasil e muitos de seus vizinhos.

A fórmula de atuação do país asiático em outras nações em desenvolvimento é dada pela África, onde o governo da China entra com financiamento e exige em troca que suas empresas realizem as obras e forneçam máquinas, materiais e muitos dos trabalhadores necessários para sua execução. Não há licitações e toda a relação é feita de governo a governo. Na maioria dos casos, o dinheiro do financiamento nem sai da China e é transferido diretamente para as empresas do país responsáveis pelas obras ou venda de equipamentos.

“Os chineses tendem a olhar para a América Latina e comparar a região com a África e nós não gostamos disso. Eles têm que jogar pelas regras do jogo da América Latina”, afirmou Vladimir Kocerha, conselheiro econômico e comercial do consulado do Peru em Xangai, durante seminário sobre investimentos chineses na região encerrado hoje em Pequim.

Entre as diferenças, uma das maiores é a existência de empresas nacionais fortes, capazes de realizar as obras normalmente executadas pelos chineses na África. A preferência por negócios entre Estados é outra. “Se há problemas, os chineses falam com o governo local. Se isso não funciona, pedem para o governo chinês falar com o governo do país onde investiram”, falou o advogado Xiangyang Ge, sócio do escritório Mayer Brown JSM.

“É preciso quebrar esse modelo governo a governo. Os chineses precisam falar com o setor privado”, falou da plateia Ian Monteiro de Andrade, da Camargo Corrêa. Bernardo Guillamón, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), disse que os chineses não estão acostumados a trabalhar com o modelo de concessões de serviços públicos adotado na América Latina e esperam sempre obter uma garantia soberana para suas operações. “Nós estamos ajudando os investidores chineses a compreenderem o ambiente regulatório da região, porque sem isso não haverá negócios.”

O vice-gerente da China Communications Construction, Chang Yunbo, pediu aos ouvintes que o ajudem a construir instituições que permitam a empresa a investir na região, sobretudo no Brasil. Segundo ele, “dinheiro não é problema”. A grande barreira é o modelo de negócios. “Nós temos dinheiro abundante e barato, mas temos dificuldade em lidar com o setor privado, porque estamos costumamos a fazer negócios com governos”, observou Chang. A China Communications Construction é um dos grandes conglomerados estatais do país e aparece na 341ª posição no ranking Global 500 da revista Fortune. Chang vê grandes possibilidades de investimento no setor de infraestrutura no Brasil, especialmente em razão da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. “O modelo de financiamento governo-governo é muito popular na China e foi usado com sucesso na África.”

O exemplo africano também foi citado na exposição do vice-presidente do Eximbank chinês, Zhu Xinqiang. “Usamos um modelo inovador na África para melhorar a infraestrutura da região e a América Latina e a África enfrentam os mesmos desafios.”

O advogado Ronaldo Veirano acredita que haverá choques culturais no processo de aproximação entre as duas regiões, que já ficaram claros no caso da construção da Companhia Siderúrgica do Atlântico, para a qual os fornecedores chineses de equipamentos tentaram levar milhares de operários para o Brasil. “Obviamente, o governo brasileiro não aceitou.”

Os participantes reconheceram que há um processo de aprendizado e de compreensão das diferenças, que poderá reduzir o potencial de conflitos entre os dois lados. Kocerha citou o caso da estatal Chinalco, que comprou uma mina de cobre no Peru por US$ 2,4 bilhões no ano passado e tenta evitar os erros cometidos por mineradoras chinesas que entraram no país nos anos 90.

O caso clássico de estratégica desastrosa é o da Shougang, cuja presença no país é marcada por conflitos com trabalhadores. Segundo Kocerha, a Chinalco contratou peruanos para sua direção, levou em conta as expectativas da comunidade local e teve uma estratégia de comunicação.

Aproveitando o interesse da China Communications Construction pelo setor oficial, executivos da Caixa Econômica Federal (CEF) apresentaram à empresa uma lista de 80 projetos de infraestrutura para os quais estão buscando investidores. Luiz Carlos de Azevedo, representante da CEF no Japão, disse que a instituição criou um fundo de investimentos em participação para canalizar recursos a essas obras, que abrangem diversos setores.

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