A armadilha de Obama na Síria

Cláudia Trevisan

27 de agosto de 2013 | 00h43

Barack Obama criou uma armadilha para seu próprio governo ao afirmar há um ano que o regime do ditador sírio Bashar al-Assad cruzaria a “linha vermelha” se usasse armas químicas contra sua própria população. Na quarta-feira, as imagens de civis agonizando vítimas de uma arma invisível tomaram conta do mundo e colocaram Obama em uma situação na qual alguma forma de reação militar contra a Síria se tornou inescapável. A inação poderá colocar a potência global em uma situação de fragilidade e reduzir o impacto de eventuais futuras advertências contra seus adversários, entre os quais o Irã.

Depois que a história se encarregou de revelar a farsa das armas de destruição em massa construída por George W. Bush para justificar a invasão do Iraque, em 2003, é legítimo duvidar da acusação contundente do governo Obama de que o regime de Assad foi o responsável pelo ataque que deixou pelo menos 1.000 mortos há quase uma semana. Mas existe agora algo que estava ausente há uma década: as imagens dos sírios sucumbindo a um gás fatal.

John Kerry, o secretário de Estado americano, afirmou ontem que a situação mostrada nas imagens que percorreram o mundo é “real” e foi confirmada por relatos de ONGs e observadores internacionais em Ghouta, o local nos arredores de Damasco alvo do ataque. Para Kerry, é “inegável” que armas químicas foram utilizadas pelo regime sírio, o que coloca Assad além da “linha vermelha” traçada por Obama.

O governo de Damasco nega a acusação e sustenta que os rebeldes são os responsáveis pelo uso de armas químicas. Mas na avaliação dos americanos, só o governo teria a capacidade de lançar um ataque como o registrado na quarta-feira. “Nós sabemos que o regime sírio tem armas químicas em seu poder. Nós sabemos que o regime sírio tem capacidade de fazer isso (o ataque) com foguetes. Nós sabemos que o regime estava determinado a remover a oposição precisamente dos lugares onde os ataques ocorreram. E com nossos próprios olhos, todos nós nos tornamos testemunhas.”

O desafio de Obama agora é definir uma resposta forte o suficiente para provocar um golpe no regime de Assad, mas não ampla o bastante para levar os Estados Unidos a se envolverem na guerra civil síria. Resta saber se isso é possível.

PS: Como vocês viram em um post anterior, deixei de ser correspondente do Estado em Pequim. A partir de agora, estarei em Washington. Não deu tempo ainda de mudar o nome do blog nem colocar uma foto local. Mas prometo mudanças até o fim da semana, se a Síria e o Obama deixarem.

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