A bailarina que era soldado

A bailarina que era soldado

Cláudia Trevisan

08 de março de 2010 | 08h30

Considerada a maior coreógrafa e dançarina moderna da China, Jin Xing nasceu homem e começou seu treinamento de ballet na trupe do Exército de Libertação Popular, no qual ascendeu até a patente de coronel.

A identidade feminina chegou em 1995, quando a artista realizou a primeira cirurgia de mudança de sexo autorizada pelo governo chinês. Apesar da transformação, Jin Xing manteve o mesmo nome, que significa “Estrela Dourada”.

Com 42 anos, casada e mãe de três filhos adotivos, ela celebra neste ano uma década de sua companhia de dança, a “Shanghai Jin Xing Dance Theatre”, a primeira de caráter privado a ser estabelecida na China comunista. No mês passado, o grupo se apresentou pela primeira vez no Teatro Nacional de Pequim, a imponente construção em forma oval concebida pelo Partido Comunista como o principal centro de apresentação de obras de teatro, ópera, dança e música do país.

Jin Xing tinha 9 anos quando foi selecionado pelo governo para integrar o grupo de dança do Exército de Libertação Popular. Naquela época, já tinha o desejo que definiria sua vida: ser mulher e atuar em um palco. Além de dançarina, coreógrafa e empresária, ela canta, faz filmes e participa de programas de TV.

A cirurgia de mudança de sexo deu a identidade de gênero que ela buscava e ampliou sua liberdade de movimentos como dançarina. “Quando eu era homem e dançava com muita sensibilidade as pessoas pensavam que havia alguma coisa errada. Como mulher, eu posso ter os dois lados. Eu mantenho a força do dançarino masculino e continuo a desenvolver minha sensibilidade como mulher. Essa combinação é que faz Jin Xing única”, disse em entrevista ao Estadão em seu camarim no Teatro Nacional.

O treinamento militar deu disciplina, rigor técnico e capacidade de liderança que ela considera fundamentais para dirigir sua companhia e desenvolver sua carreira. 

“Nós anos 70 nós éramos educados de acordo com os princípios do ballet russo e também recebíamos treinamento em dança chinesa, acrobacia e kung-fu. Esse treinamento físico é o melhor que eu poderia ter. E como eu também era um oficial, recebia ainda treinamento militar”.

O primeiro contato de Jin Xing com a dança moderna ocorreu em 1987, quando ela ainda era “ele” e foi selecionado para estudar em Nova Iorque, dentro de um programa de cooperação cultural entre a China e os Estados Unidos. “Eu não tinha a menor ideia do que era dança moderna e fui a primeira pessoa da China a receber educação em dança contemporânea”, lembra. Depois de quatro anos em Nova Iorque, Jin Xing ficou dois anos na Europa, antes de voltar à China.

Determinada a fazer a cirurgia de mudança de sexo, ela se afastou do Exército em 1994 e começou o trabalho de convencimento das autoridades chinesas para obter autorização. Jin Xing queria ser mulher, dançarina e coreógrafa em seu próprio país.

“Eu poderia ter sido uma ótima artista de minoria étnica na Europa. Isso era fácil. Mas minha identidade cultural é profundamente chinesa e eu queria voltar para desenvolver meu trabalho aqui.”

Apesar da decisão, a bailarina acredita ser mais reconhecida no exterior do que em seu país. “Lá for a eu sou a rainha da dança chinesa. Aqui, eu sou a filha adotiva que não é a predileta dos pais”, diz. Ainda assim, Jin Xing ressalta que não está nos seus planos deixar a China novamente. “Talvez que não concorde totalmente com o sistema e o governo, mas eu amo este país e sua cultura.”

Hoje ela acredita que sua influência vai muito além dos palcos. “A existência de Jin Xing e sua companhia na China significam muito para as pessoas jovens, sobre como você se identifica como indivíduo e como persegue sua visão artística, seus sonhos e crenças”, afirma.

Algumas das criações de Jin Xing são bastante experimentais e outras embaralham os limites de dança, teatro e música. Para a apresentação em Pequim, a dançarina escolheu a peça solo “Sob a pele – perto e longe”, na qual despeja reflexões desconexas sobre a vida moderna enquanto dança sobre um tabuleiro de luzes que acendem e apagam.

Há quatro anos, Jin Xing adicionou mais uma persona à sua múltipla existência artística, ao organizar o primeiro festival de dança moderna independente do país, em Xangai, que teve participação da companhia brasileira Qasar na edição de 2006.

“Na China esses eventos normalmente são organizados pelo governo e os responsáveis por eles não têm formação cultural e não sabem identificar uma boa obra. Eles só dizem ‘ok, vamos comprar’. Mas não se organiza um festival de arte dessa maneira.”

Jin Xing é extremamente feminina e gesticula com delicadeza enquanto fala. A artista observa que a cirurgia para mudança de sexo permitiu que finalmente ela tivesse uma identidade na qual se reconhece. O novo papel lhe caiu tão bem que Jin Xing hoje dá conselhos às mulheres chinesas nas entrevistas que concede a revistas de moda e comportamento. “Eu sempre digo que se uma mulher não está preparada para ser mãe, amante e esposa, ela não deve se casar com um homem. Homens são meninos grandes. Você tem que ser sua esposa e, ao mesmo tempo, ser sua mãe e amante. Se você não faz isso, o casamento se torna muito difícil.”

(Este texto  saiu publicado no Carderno 2 do Estadão no dia 24 de fevereiro)

Aí vão duas fotos dela:

Jin Xing em seu camarim, no Teatro Nacional - Cláudia Trevisan/AE

Jin Xing em seu camarim, no Teatro Nacional - Cláudia Trevisan/AE

Jin Xing no palco - Foto de divulgação

Jin Xing no palco - Foto de divulgação

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.