A bandeira dos EUA e os cubanos pós-Fidel

Cláudia Trevisan

17 de agosto de 2015 | 00h57

Poucas vezes na história uma bandeira teve um peso simbólico comparável ao da que foi hasteada sexta-feira na Embaixada dos Estados Unidos em Havana. Há não muito tempo, sua exibição pública nas ruas de Cuba era encarada como um ato subversivo de simpatia aos “imperialistas” do norte. Mas a retórica de enfrentamento que sobrevive no Museu da Revolução da cidade encontrava cada vez menos eco na população, mais preocupada com a sobrevivência diária do que com a ideologia.

A maioria dos cubanos nasceu depois de Fidel Castro chegar ao poder, em 1959. Os jovens estão ávidos por informação, acesso à tecnologia e um futuro econômico além dos salários de US$ 20 mensais pagos pelo Estado. Graças a uma extensa rede de distribuição de pirataria, eles têm acesso às músicas, séries de TV e filmes vistos pelos compatriotas que trocaram seu país por Miami.

Os primeiros se foram logo depois da Revolução de 1959, mas outras ondas viriam nas décadas seguintes, criando laços familiares cada vez mais extensos entre a ilha e os Estados Unidos. Atualmente, a comunidade cubano-americana ronda os 2 milhões de pessoas, o equivalente a quase 20% dos 11 milhões que vivem em Cuba.

As remessas de dinheiro dos que se foram para os que ficaram é uma das principais fontes de divisas estrangeiras da ilha e ajudam a explicar como muitos conseguem comprar bens de consumo com um salário de US$ 20. O Estado provê saúde e educação e subsidia e serviços básicos e alimentos, em quantidades que não cobrem as necessidades de um mês. Fora desse arranjo, os preços são inalcançáveis para os cubanos que ganham em pesos –um pacote de 500 gramas de leite em pó, por exemplo, custa US$ 2,90.

Depois da onda pós-revolução, o sonho americano voltou a atrair os cubanos em 1980, antes mesmo do período trágico iniciado com o fim da União Soviética, em 1991. Naquele ano, milhares de cubanos deixaram o país pelo porto de Mariel, a bordo de embarcações enviadas por seus parentes da Flórida. Em março, um grupo havia invadido a Embaixada do Peru a bordo de um ônibus, em busca de asilo. Fidel Castro reagiu de maneira surpreendente, retirando a escolta policial do local. Em 48 horas, 10 mil pessoas ocuparam a embaixada.

A crise durou dias, até Fidel anunciar que os cubanos que desejassem poderiam deixar a ilha, aceitando uma oferta do presidente americano Jimmy Carter de receber os exilados. Em pouco mais de um mês, 125 mil pessoas saíram Cuba e ficaram conhecidos na ilha como marielitos. Entre eles, estavam centenas de presos retirados das prisões cubanas por ordem de Fidel e colocados de maneira compulsória nos barcos enviados da Flórida.

Durante décadas, a propaganda oficial de Cuba tratou os exilados e imigrantes dos EUA como traidores e inimigos da Revolução, aos quais se referia como gusanos (vermes). O adjetivo ainda é usado, mas é cada vez mais frequente ver o mais respeitoso “comunidade cubana” nos EUA.

Na mão contrária, os cubano-americanos, especialmente os que foram logo depois de 1959, pressionavam o governo dos EUA a manter a política de isolamento em relação a Cuba, na expectativa de que ela levaria a uma mudança de regime na ilha. Esse grupo se opôs ao restabelecimento de relações diplomáticas anunciado pelo presidente Barack Obama em dezembro e é um dos principais obstáculos ao fim do embargo econômico que vigora há cinco décadas e meia.

Mas como ocorre em Cuba, a memória da Guerra Fria é algo distante para os jovens cubano-americanos, cada vez mais favoráveis à reaproximação entre os dois países. O fim do embargo depende em grande medida da posição da comunidade de exilados e imigrantes, cujos representantes no Congresso estão entre os mais ferrenhos opositores à mudança. Sem ela, será difícil que os jovens da ilha concretizem seus sonhos de prosperidade e consumo.

 

Tudo o que sabemos sobre:

BandeiraCubaEmbaixada dos EUAHavana