Os jovens chineses, o bisturi e a disputa por empregos

Cláudia Trevisan

11 de agosto de 2010 | 08h57

Estudantes participam de concurso para ganhar cirurgias plásticas - Cláudia Trevisan/AE

Estudantes participam de concurso para ganhar cirurgias plásticas - China Daily

 

Com uma população cada vez mais endinheirada e distante do tempo em que a vaidade era considerada um desvio pequeno burguês, a China ultrapassou o Brasil e se tornou em 2009 o país que realizou o maior número de cirurgias plásticas em todo o mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

No ano passado, 1,215 milhão de chineses entraram em salas de cirurgia para mudar algo em seus rostos ou corpos, cifra que superou a de 1,054 milhão de brasileiros que se submeteram a procedimentos semelhantes.

Os Estados Unidos lideraram o ranking, com 1,304 milhão de cirurgias, mas em pouco tempo serão ultrapassados pela China, país onde plásticas eram raríssimas há pouco mais de uma década.

Mas o que leva os chineses a mudarem sua aparência não é apenas a vaidade. Muitos dos que se submetem às cirurgias acreditam seus novos rostos vão ajudá-los a conseguir bons empregos e reforçar suas chances de sucesso profissional.

No maravilhoso novo mundo dos comunistas chineses, empresas podem colocar sem nenhum pudor requisitos relacionados à aparência dos candidatos às vagas de emprego que oferecem.

Diante da feroz competição, muitos jovens, não raro estimulados por seus pais, decidem mudar suas pálpebras, para “ocidentalizar” os olhos, afinar o nariz ou aumentar os seios.

O jornal oficial China Daily citou na semana passada pesquisa de uma entidade médica segundo a qual 80% dos candidatos a cirurgias plásticas em Pequim no período de férias de julho/agosto são estudantes secundários ou universitários.

A principal motivação é a crença de que a beleza ou uma aparência mais ocidentalizada os ajudarão a conquistar vagas nas empresas do país. “Estudantes acreditam que ter uma boa aparência aumenta suas chances de emprego em um mercado de trabalho difícil”, disse ao China Daily um dos responsáveis pela pesquisa.

A reportagem era ilustrada com a foto de dois pós-adolescentes que participavam de um concurso para ganhar o equivalente a US$ 22 mil em cirurgias plásticas em um hospital da cidade de Shijiazhuang, a cerca de 200 km de Pequim (veja foto abaixo).

Mas a pura vaidade também pesa na decisão pelo bisturi. O procedimento que lidera o ranking dos procedimentos na China é o aumento de seios (222,53 mil), seguido de lipoaspiração (212,67 mil), mudança na pálpebra (175,23 mil), alteração no nariz (97,45 mil) e redução de abdome (92,56 mil).   

No Brasil, a classificação é a seguinte: lipoaspiração (253,30 mil), aumento de seios (172,62 mil), pálpebra (128,07 mil), nariz (93,11 mil) e redução abdominal (76,60 mil).

A diferença é que a cirurgia de pálpebra no Brasil é normalmente realizada por mulheres mais velhas que querem “rejuvenescer”. Na China, são jovens que buscam ter um olho mais arredondado e ocidentalizado.

Nos procedimentos estéticos não cirúrgicos, como botox e laser, o Brasil está à frente da China, com 1,42 milhão de casos, comparados a 979 mil no país asiático e 1,73 milhão nos Estados Unidos.

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