A consolação dos astros

Cláudia Trevisan

08 de julho de 2012 | 14h16

O que traz mais conforto: a ideia freudiana de que nossos traumas estão relacionados a fatos da infância que podem ser superados ou a concepção de que nossa personalidade é moldada pelos astros e, em certa medida imutável? Depois de anos de psicanálise, sucumbi e fiz meu primeiro mapa astral, elaborado por um site e me entregue por e-mail. Confesso que encontrei um certo alento em sua leitura: o eventual desânimo emocional que se abate sobre mim é resultado do excesso de água e ar e da falta de fogo na conjunção astral do meu nascimento. Fazer o quê? A promessa da astrologia é a de que podemos nos conhecer melhor e evitarmos as armadilhas de nossa imutável natureza.

Vocês devem estar se perguntando o que este post está fazendo em um blog sério sobre a China. Mas é domingo e faz um calor implacável em Pequim. O filósofo alemão Max Weber associou a modernidade ao processo de “desencantamento do mundo”, no qual a racionalidade e a ciência são as bases para a explicação do que ocorre ao nosso redor. Com o passar dos anos, eu pareço estar vivendo um caminho inverso, de encantamento. Talvez o fato de morar há quatro anos na China ajuda _psicanálise é um conceito alienígena no país e, mesmo que não fosse, seria impossível uma terapia em mandarim. Não que eu tenha abandonado interpretações freudianas de nossas complexidades emocionais. Só agreguei outras possíveis tentativas de entendimento do imbróglio. Passei da racionalidade psicanalítica ao fluxo da natureza taoísta, ao absoluto estado de consciência do budismo e agora experimento o semi-fatalismo da astrologia.

A leitura do meu mapa astral provocou alguns espantos, principalmente nos trechos em que a posição dos planetas parece colocar fim a dúvidas existenciais e profissionais. De acordo com os astros, posso esquecer eventuais questionamentos sobre a escolha do meu ganha-pão: “A casa ativada pelo seu Mercúrio pessoal é a décima, Claudia. Isso sugere que a sua atividade profissional envolverá assuntos referentes ao intelecto, à comunicação, à escrita”. Mesmo os mais céticos entre os seres humanos se sentiriam reconfortados em ver que fizeram escolhas alinhadas com os desígnios astrais, ainda que eles fossem desconhecidos no momentos em que as decisões foram tomadas.

O mapa também é mais implacável do que eu esperava e não se exime ao apontar os lados sombrios do “analisado”. No meu caso, a falha original é o excesso de água e ar e a falta de fogo. “Quando há falta de fogo num mapa, algumas manifestações são possíveis: em muitos casos, há o risco de surtos de depressão, acessos de desânimo, e uma intensa melancolia. Algumas pessoas com problemas de fogo até mesmo parecem ser muito divertidas e de fato o são mas, quando as observamos atentamente, é fácil perceber que elas não estão nunca satisfeitas, não estão felizes, como se achassem tudo tedioso.” Se tivesse lido o mapa há 20 anos, talvez tivesse economizado alguns milhares de reais em intermináveis sessões de psicanálise….A sugestão da astrologia para compensar a ausência do fogo é a prática de artes marciais ou um “estilo dinâmico de dança”, que finalmente pareço ter encontrado em algo chamado “Nia”.
Bom domingo a todos!

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