A Coreia do Norte vista da janela

A Coreia do Norte vista da janela

Cláudia Trevisan

09 de abril de 2012 | 23h59

Cheguei à Coreia do Norte no sábado à noite e quase tudo o que vi do até agora pela janela de ônibus ou trem. O mais fechado regime do mundo decidiu se abrir temporariamente para a imprensa internacional com dois objetivos: tentar convencer o mundo de que o lançamento de satélite previsto para esta semana não é um teste disfarçado de míssil e mostrar as imagens de unidade nacional que vão marcar no domingo as celebrações do centenário de nascimento do fundador do país, Kim Il-sung.

Nós não podemos andar livremente em Pyongyang nem sair do hotel sozinhos para uma inocente caminhada nas redondezas. Todos os jornalistas são acompanhados de funcionários do Ministério das Relações Exteriores, que atuam como intérpretes, mas que também têm a função de controlar nossos movimentos. O grupo é levado de ônibus ou trens para lugares pré-determinados e só vê o que o governo decide mostrar.

Mas as janelas nos revelam muito do quotidiano da Coreia do Norte, ainda que não tenhamos chance de interagir com as pessoas que passam por elas. No domingo, o grupo de jornalistas foi levado a uma viagem de cinco horas de trem até a estação de lançamento de satélites que fica 200 km ao norte de Pyongyang. O trajeto cortou parte da zona rural, onde vive quase 40% da população. O que se via da janela era uma paisagem árida, castigada por um dos mais severos invernos da história recente. Quase não há árvores e os moradores se espalham em vilas coletivas nas quais as casas têm arquitetura quase idêntica. Máquinas agrícolas são inexistentes e até tratores são uma raridade. O trabalho é feito com as mãos ou com a ajuda de bois, que carregam o arado.

No trajeto de volta, o que se revelou foi a escuridão absoluta do interior do país, que eu já havia visto em fotos de satélites que mostram a Coreia do Norte como uma mancha negra, com exceção de Pyongyang, em contraste com a luminosa vizinha Coreia do Sul. Mas é chocante ter a visão real e microscópica daquela imagem. A falta de eletricidade é um dos mais graves problemas do país, que afeta o quotidiano das pessoas e dificulta o funcionamento da economia.

O principal impacto da falta de energia sobre os moradores de Pyongyang é a precariedade do transporte público, em razão da escassez de diesel para os ônibus e eletricidade para os troleibus. Nos pontos, as filas são quilométricas e muitos preferem usar os pés para se locomover. As calçadas estão cheias de pessoas que caminham para o trabalho, escola e de volta para casa.

Aí vão algumas das fotos que tirei pelas janelas:

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