A despedida da China, onde 50 anos cabem em 5

Cláudia Trevisan

05 Junho 2013 | 09h43

Despedidas sempre provocam faturas expostas, mesmo quando são voluntárias. Tive que esperar a minha começar a cicatrizar para ser capaz de escrever aqui sobre minha saída da China, depois de cinco anos de atuação como correspondente do Estado em Pequim.

Sempre me assombro diante da rapidez com que o tempo passou e da dimensão das transformações que couberam em meia década. O país que já era o mais populoso o mundo tornou-se superlativo em quase tudo nesse período: maior exportador mundial (deixou a Alemanha para trás em 2009), maior mercado automobilístico (ultrapassou os EUA no mesmo ano), maior credor do Tesouro norte-americano (superou o Japão em 2008) e maior consumidor de energia (posição que assumiu em 2010).

A ascensão global já estava em andamento quando eu cheguei à China, em fevereiro de 2008, seis meses antes de a Olimpíada de Pequim jogar os holofotes do mundo sobre o país que era então a terceira maior economia do planeta. A China havia crescido 14% em 2007, mais que o dobro dos hoje inacreditáveis 6,1% registrados pelo Brasil no mesmo ano. Seu PIB ainda era US$ 1 trilhão inferior ao do Japão, cifra semelhante ao tamanho da economia sul-coreana da época. Acompanhar a trajetória do país foi a maior aventura dos meus 25 anos de carreira jornalística e sou grata ao Estado por ter me enviado ao país asiático.

O processo de aumento do peso relativo da China ganhou impulso depois de setembro de 2008, quando a quebra do banco Lehman Brothers jogou o mundo na mais grave crise financeira em sete décadas, com efeitos devastadores sobre os países ricos. Acelerando a rotação de sua história com um megapacote de estímulo ao crescimento, a China ultrapassou o Japão em 2010 e se transformou na segunda maior economia global.

Também se firmou como principal rival ideológico dos Estados Unidos, com um modelo de capitalismo de Estado que sustenta mastodônticas estatais, cujos tentáculos se estendem pelo mapa mundi, em áreas de atuação que incluem finanças, petróleo, energia elétrica, telecomunicações e carros _para citar apenas as que alcançaram o território brasileiro.

Nos cinco anos em que vivi do outro lado do mundo, vi brotarem aeroportos, linhas de metrô, portos, estradas, ferrovias, trens de alta velocidade e cidades inteiras. Tradução do estilo de vida chinês até o fim do século passado, as bicicletas foram escanteadas para dar lugar aos carros, no que é o maior mercado automobilístico do mundo desde 2009, com 13,2 milhões de unidades vendidas no ano passado.

Mas não foi só a paisagem física que se transformou. A sociedade ficou mais complexa, mais urbana e mais permeável ao restante do mundo. A internet entrou no cotidiano dos jovens e, apesar da censura, tornou-se a principal fonte de informação da maior população online do planeta, com cerca de 600 milhões de usuários. Mas no universo em que eles navegam não existe Facebook, Twitter ou Youtube, barrados na fronteira virtual do país pela Grande Muralha de Fogo, o muro levantado pelo regime de partido único para tentar manter sob controle a opinião pública local. Mesmo com fraturas, o sistema garantiu até agora a supremacia dos sites chineses dentro do país, em um terreno dominado por Baidu (o equivalente do Google), QQ (Messenger), Weibo (nome genérico para serviços como o Twitter) e Youku (Youtube).

Em um país no país no qual a transformação econômica pode ser vista a olho nu, sem o distanciamento da História, a política é o terreno da imutabilidade. É verdade que os tempos do personalismo de Mao Tsé-tung (1893-1976) e Deng Xiaoping (1904-1997) ficaram para trás.

Mas o Partido Comunista que liderou a Revolução de 1949 continua a deter o monopólio do poder, com tolerância zero a qualquer tentativa de criação de movimentos alternativos. No seu interior, se debatem correntes com receitas antagônicas para gerenciar o futuro do país, de liberais defensores de privatizações a ortodoxos comunistas que não admitem o fim da primazia do Estado _leia-se do Partido_ na economia. Em comum, o interesse na manutenção do controle político.

Meus últimos meses na China coincidiram com o engate de uma marcha mais lenta no ritmo de crescimento, com o adeus às cifras de dois dígitos que haviam marcado as três décadas anteriores. Houve ainda a troca no comando do Partido _e consequentemente, do país_, com a chegada ao poder da chamada “quinta geração de líderes”, representada pelo presidente Xi Jinping e o primeiro-ministro Li Keqiang.

O desafio de ambos será manter a legitimidade do regime em um cenário de menor crescimento econômico e de diversificação das demandas da população para áreas que incluem combate à corrupção, transparência no exercício do poder, segurança alimentar, combate à corrupção, educação de qualidade e assistência médica.

Para usar um jargão de esquerda, os anos recentes viram o agravamento das “contradições” na sociedade chinesa. A mesma classe abastada que se beneficiou do crescimento recorde dos últimos três décadas emigra em massa para países como Estados Unidos, Canadá e Austrália, em busca de segurança econômica e qualidade de vida.

Apesar do investimento em infraestrutura e da prosperidade econômica, os conflitos étnicos se agravaram e levaram a alguns dos mais sangrentos enfrentamentos da história recente do país. Os mais evidentes opõem os chineses han _que representam 92% da população_ a tibetanos e uigures, muitos dos quais se consideram alijados do desenvolvimento econômico em seu próprio território.

Pequim respondeu à insatisfação étnica e ao tímido dissenso político com o aumento sem precedentes dos investimentos em segurança interna, que hoje ultrapassam o valor destinado ao orçamento de defesa.

Mas o sucesso do modelo de crescimento foi o principal pilar de legitimação do regime até agora. O problema é que ele precisa ser reformado, o que traz enormes riscos para os donos do poder. Os novos governantes sabem que não podem sustentar o ritmo médio de expansão de 10% registrado na última década, em razão do já excessivo nível de investimentos e do perigoso aumento da pilha de dívidas que os financiaram.

Na semana passada, durante visita à Alemanha, o primeiro-ministro Li Keqiang afirmou que a meta do Partido Comunista é obter 7% de crescimento em cada um dos próximos dez anos e reconheceu que haverá “enormes desafios” pelo caminho.

Dois dias antes, Li havia realizado uma profissão de fé liberal, em defesa de reformas que reduzam o tamanho do Estado e abram espaço para o capital privado em áreas como finanças, telecomunicações, energia e ferrovias. “O mercado é o criador da riqueza social e a fonte do crescimento econômico autosustentado”, afirmou o primeiro-ministro. Resta saber se os comunistas chegarão a um acordo sobre como comandar o país nessa direção. O resultado interessa a todos nós.