A espetacular queda do pequeno príncipe

Cláudia Trevisan

15 de março de 2012 | 08h00

Poucas vezes os chineses puderem ver as entranhas da disputa de poder na cúpula comunista como no episódio que levou à queda de Bo Xilai, o ex-todo-poderoso chefe do Partido Comunista na megacidade de Chongqing. Afastado na manhã de hoje, Bo estava em campanha aberta para assumir no fim do ano uma das nove cadeiras do Comitê Permanente do Politburo, o grupo que de fato manda na China.

Apesar de não estar claro se ele está sob investigação, tudo indica que a ex-estrela em ascensão é a mais nova vítima do caráter seletivo das acusações de corrupção no país, usadas pelos momentaneamente mais poderosos para atingir seus adversários políticos. Ambicioso ao extremo e dono de um estilo personalista que destoa do caráter coletivo de liderança que prevalece hoje em Pequim, Bo provocava desconforto em muitos caciques, entre os quais o primeiro-ministro Wen Jiabao, que usou entrevista coletiva que concedeu ontem para criticá-lo.

Além do estilo, o ex-chefe de Chongqing incomodava por promover uma campanha de resgate do maoísmo e das canções vermelhas que estiveram em voga na Revolução Cultural (1966-1976), período que o premiê classificou ontem de “tragédia” e que muitos chineses gostariam de esquecer. Filho de um herói revolucionário, Bo integra o poderoso grupo de “pequenos príncipes”, do qual também faz parte o provável futuro presidente da China, Xi Jinping.

A queda de Bo começou a ser desenhada como um roteiro de filme de espionagem da Guerra Fria, no qual a China ocuparia o lugar da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. No dia 6 de fevereiro, seu ex-braço direito Wang Lijun se refugiou no Consulado dos Estados Unidos em Chengdu, capital da província de Sichuan que fica a quatro horas de carro de Chongqing. Não se sabe se ele pediu asilo político ou se usou o local para buscar proteção contra Bo e negociar uma rendição diretamente às autoridades de Pequim.

Wang havia sido colocado sob investigação sob acusação de corrupção e acredita-se que tinha (e tem) informações que comprometeriam seu ex-chefe. Depois de passar a noite no consulado, Wang finalmente saiu escoltado por autoridades enviadas por Pequim e voou direto para a capital, onde está em um “tratamento ao estilo de férias”, nas palavras da imprensa oficial.

O resultado mais imediato da queda de Bo é seu afastamento da disputa para escolha dos integrantes do Comitê Permanente do Politburo, durante congresso do Partido Comunista em outubro ou novembro. Dois nomes já estão definidos _Xi Jinping, que deverá assumir o lugar de Hu Jinato, e Li Keqiang, provável sucessor de Wen Jiabao. A disputa para as sete vagas restantes está em ebulição. Outra vítima é o “modelo de Chongqing”, com sua ênfase no papel do Estado na economia, busca de redução das desigualdades sociais e nostalgia maoísta, além da campanha contra o crime organizado que era liderada justamente por Wang Lijun, o que se refugiou no Consulado dos EUA.

O grande vitorioso é Wang Yang, o chefe do Partido Comunista que é o patrono do “modelo de Guangdong”, mais liberal tanto do ponto de vista econômico quanto político. Wang Yang defende a retração do Estado e o avanço do setor privado e governa a província que tem a imprensa mais independente da China _ainda que sujeita à censura. A grande dúvida, que só o tempo responderá, é se a queda de Bo fortalecerá a facção do Partido favoráveis à retomada do processo de reformas, incluindo as políticas, à qual pertence o primeiro-ministro Wen Jiabao.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.