A expulsão da Al Jazeera e a imprensa na China

Cláudia Trevisan

11 Maio 2012 | 01h16

A decisão da China de expulsar a correspondente da Al Jazeera, Melissa Chan, evidencia o abismo que separa as autoridades locais da noção de imprensa livre e independente. Também revela o tratamento desigual dado a jornalistas chineses que trabalham no exterior e a estrangeiros que atuam na China. Enquanto os chineses quase sempre se beneficiam de regras claras e um ambiente livre de restrições, os correspondentes enfrentam tentativas de intimidação, ameaças, assédio policial e limites à sua locomoção.

O governo chinês vê a imprensa como um instrumento do Partido Comunista e não como uma instituição que tem entre suas principais missões a fiscalização do exercício do poder. Melissa Chan é uma jornalista exemplar, que realizou uma série de reportagens sobre casos de abuso de autoridade, desrespeito à lei e violações de direitos humanos. Uma de suas últimas reportagens na China mostrava uma das centenas de “prisões negras” existentes em Pequim, para onde são mandados cidadãos comuns que vão à capital reclamar ao governo central de desmandos cometidos por autoridades locais. Esses centros de detenção são ilegais, mas continuar a abrigar milhares de pessoas, sem que suas famílias saibam de seus paradeiros.

Mas o que enfureceu as autoridades chinesas foi um documentário exibido em novembro sobre as prisões que funcionam como campos de trabalho na China, onde os presos não são remunerados e fabricam produtos de preços baixíssimos, alguns dos quais exportados. Melissa Chan não participou da elaboração do programa, que integrava uma série sobre escravidão no século 21. A insatisfação de Pequim com seu conteúdo ajuda a explicar porque as autoridades se recusaram a dar visto para o eventual substituto da correspondente expulsa. Sem isso, a Al Jazeera foi obrigada a suspender as operações de seu canal em inglês na China.

A visão que o Partido Comunista tem do papel da imprensa foi escancarada no mês passado por um dirigente de uma cidade na província de Guizhou, Wen Yongdong, procurado pela TV local para falar sobre um caso banal: a queda de um objeto pesado sobre o capô de um carro parado em um estacionamento público. O repórter queria saber se o governo iria indenizar o proprietário do veículo pelo dano. Wen respondeu que não e negou qualquer responsabilidade oficial no caso. Quando o entrevistador perguntou se o estacionamento era pago, o dirigente local não se conteve: “Você é um jornalista e é um porta-voz do Partido. Você está servindo o povo ou está servindo o Partido?”.

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