A farsa olímpica

Cláudia Trevisan

13 de agosto de 2008 | 02h22

A obsessão dos dirigentes comunistas chineses por apresentar ao mundo uma imagem perfeita de seu país acabou criando um desastre de relações públicas, com a revelação de que a cantora-mirim do início da cerimônia de abertura da Olimpíada não era a dona da voz que ecoou no Ninho de Pássaros na sexta-feira. A verdadeira cantora é uma garota de 7 anos, Yang Peiyi, escondida do público por não ser considerada bonita o suficiente aos olhos de um integrante do Politburo que assistiu ao último ensaio antes do espetáculo.

O diretor musical da cerimônia, Chen Qigang, afirmou em entrevista à estatal Beijing Radio que o dirigente _cujo nome não revelou_ determinou em cima da hora a substituição de Yang Peiyi por Lin Miaoke, 9, a graciosa garota que foi a estrela da entrada na bandeira chinesa no estádio olímpico.

Apesar de bonita, Lin Miaoke não tinha o talento musical necessário para cantar diante de um público de 91 mil pessoas e mais 4 bilhões de telespectadores em todo o mundo e foi “dublada” por Yang Peiyi. Em entrevista concedida na noite de terça-feira à AP Television News, Chen disse que falou sobre a substituição para “revelar a verdade”. Na mesma entrevista, declarou que “a pequena garota é uma cantora magnífica”, que “não merece ficar escondida.”

Ainda assim, Chen Qigang justificou a substituição e disse que o diretor artístico da cerimônia, o cineasta Zhang Yimou, estava ciente da troca. “Nós combinamos a voz perfeita com a performance perfeita”. Segundo ele, a substituição foi realizada tendo em vista o “interesse nacional” e seria compreendida pela audiência. Mas os comentários deixados por internautas chineses nos fóruns de discussão online não demonstravam a compreensão esperada por Chen. “A falsificação é uma longa tradição chinesa. É uma pena que, desta vez, duas crianças inocentes foram vítimas. Imagine a pressão a que elas serão submetidas”, escreveu uma pessoa que utiliza o nome de Ice Blue.

Outra internauta que se identifica como Mioumiou foi mais incisiva. “O problema não está no tipo de artifícios utilizados para atingir o melhor efeito artístico, mas no tratamento injusto dado à REAL cantora durante a entrevista coletiva concedida depois da cerimônia por Zhang Yimou, que sabia de tudo e não mencionou a garota. Não teria sido melhor se ele tivesse apresentado a menina durante a entrevista coletiva? Ignorar valores individuais em nome no interesse nacional é uma das piores características da cultura chinesa”, escreveu Miaomiao. Zhang Yimou não apenas ignorou a cantora verdadeira, como elogiou a performance de Lin Miaoke.

O pior de tudo é que a imprensa oficial chinesa tentou transformar Lin Miaoke em um fenômeno, apesar do fato de ela não ter interpretado a canção que foi ouvida na noite de estréia da Olimpíada. “Pequena cantora conquista o coração da nação”, dizia o título de texto publicado ontem no jornal “China Daily”, editado pelo Conselho de Estado. “Lin Miaoke pode ter apenas 9 anos, mas ela já está no caminho para se tornar uma estrela, graças à sua interpretação de ‘Ode à Terra Natal’ na sexta-feira, durante a cerimônia de abertura da Olimpíada de Pequim”, celebrava o primeiro parágrafo da “reportagem”.

Lin Miaoke já era uma pequena celebridade desde o ano passado, quando apareceu em um anúncio de televisão ao lado do atleta Liu Xiang, um herói nacional desde que ganhou a medalha de ouro nos 110 metros com barreira na Olimpíada de Atenas. Ela também havia atuado no início de 2008 em uma peça publicitária que promovia os Jogos de Pequim. Seu pai, o fotojornalista Lin Hui, disse ao “China Daily” que foi informado da escolha de Lin Miaoke para cantar o hino apenas 15 minutos antes do início da cerimônia. Até então, ela estava entre as quatro finalistas selecionadas em junho.

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