A imprensa cerceada

Cláudia Trevisan

20 de março de 2009 | 05h14

O governo da China aumentou os controles sobre a atuação da imprensa no país, contrariando as promessas de maior liberdade feitas durante a Olimpíada de Pequim. O alvo das autoridades são os assistentes chineses contratados pelos correspondentes estrangeiros e jornalistas que trabalham para a imprensa local.
Impossibilitadas de controlar as informações que os correspondentes estrangeiros enviam a seus países de origem, as autoridades decidiram impor restrições à atuação dos assistentes, que trabalham como intérpretes e também atuam na coleta de informações.
Pequim anunciou no mês passado um Código de Conduta que determina aos assistentes que propaguem “informações e idéias positivas” sobre a China e os proíbe de realizar entrevistas. O governo também informou que vai criar uma “lista negra” de jornalistas chineses que realizem “reportagens ilegais”. A medida tem por alvo pessoas que cobram propina ou divulgam informações falsas, mas o termo é vago o bastante para incluir qualquer atividade que desagrade o governo.
“Depois de dar alguns passos na direção de maior liberdade de imprensa em 2008, o governo chinês agora está retrocedendo”, afirmou a diretora da Human Rights Watch na Ásia, Sophie Richardson. “Dar maior liberdade para os correspondentes estrangeiros e depois aumentar as restrições sobre seus essenciais assistentes chineses não pode ser considerado progresso”, declarou.
O Clube de Correspondentes Estrangeiros na China divulgou nota neste mês na qual pede a revogação das regras relativas aos assistentes. De acordo com a entidade, vários profissionais chineses relataram ter recebido pressão verbal de funcionários do governo para que não contem a amigos e familiares o que vêem em viagens de trabalho até que as informações sejam publicadas pela imprensa oficial _o que pode não ocorrer.
A pressão sobre os assistentes é uma forma de Pequim cercear o trabalho dos correspondentes estrangeiros e tentar intimidar veículos com representação na China. O caso extremo foi o do jornalista chinês Zhao Yan, que trabalhava para o New York Times e foi preso em 2004 sob a acusação de revelar segredo de Estado a estrangeiros.
A detenção ocorreu logo depois de o jornal norte-americano ter publicado uma reportagem exclusiva na qual revelava que o ex-presidente Jiang Zemin entregaria o cargo de comandante militar do Partido Comunista a seu sucessor, Hu Jintao. De acordo com o New York Times, Zhao Yan não participou da reportagem.
O jornalista acabou condenado a três anos de prisão sob acusação de fraude, em um processo que correu em segredo e que teve motivação política, de acordo com entidades de defesa dos direitos humanos.
“A intimidação dos assistentes chineses vai contra a promessa de maior abertura feita no ano passado. O código [de conduta] deve ser revogado. Assistentes de mídia na China deveriam ter o mesmo escopo de atividade que assistentes de mídia em outras nações”, o presidente do Clube de Correspondentes Estrangeiros na China, Jonathan Watts, na nota divulgada pela entidade.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.