A inocência e os Rolling Stones em Cuba

Cláudia Trevisan

26 de março de 2016 | 03h32

Havia um ar inocente de festa junina do interior no primeiro show do Rolling Stones em Havana. Quatro gerações de cubanos estavam na plateia, de crianças a setentões. Barracas com cobertas de lona branca vendiam sanduíches, bolachas e pipoca nas ruas que contornavam o gramado onde o público se reuniu para ver a primeira grande banda de rock a se apresentar na ilha. Em tese, bebidas alcóolicas estavam proibidas dentro do local do concerto, mas ambulantes vendiam cerveja nas imediações.

Como nas antigas festas juninas, não havia internet e a tecnologia vista no gigantesco palco e nos telões contrastava com a experiência off-line do público. O máximo que os cubanos podiam fazer era enviar textos e fotos pela versão cubana do messanger. O acesso à rede de computadores em Cuba é feito em pontos específicos de wi-fi, ao custo de US$ 2,00 a hora -o equivalente a R$ 8,00. O governo instalou um serviço gratuito de wi-fi no estádio de baseball onde o presidente Barack Obama assistiu a uma partida entre o Tampa Bays e o time nacional da ilha na terça-feira, mas não repetiu a oferta ontem.

Sem conexão à internet, os cubanos não podiam alimentar suas timelines no Facebook nem postar nas redes sociais durante o show. Ainda assim, muitos gravaram e fotografaram o concerto em seus telefones celulares. Apesar do ineditismo da presença do Rolling Stones em Cuba, o público ficou longe de ocupar todo o gramado destinado ao show, no qual havia grandes espaços vazios. Era possível entrar e sair do local sem problemas durante o concerto.

Além da diversidade etária, havia uma democracia econômica na plateia do show, que foi gratuito. Com salário médio de US$ 20, poucos em Cuba poderiam pagar o preço típico de uma apresentação da banda criada em 1964, pouco depois do rompimento de relações diplomáticas entre a ilha e os Estados Unidos e da imposição do embargo econômico americano que continua em vigor ainda hoje.

Engenheiros estavam ao lado de pedreiros e médicos dividiam a experiência com caixas de supermercado. O soldador Juan Carlos López, de 52 anos, viajou 260 km de ônibus para ver os Rolling Stones.

Sua maior frustração era não poder estar mais próximo do palco, apesar de haver chegado ao local quase dez horas antes do início do show. Entre o local que estava e o que Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood se apresentariam havia uma ampla área VIP para convidados especiais.

“Se somos todos cubanos, não deveria haver privilégios. Somos todos iguais”, afirmou López, que foi ao show com os amigos Roberto Rodríguez, de 49 anos, Bernardo León, de 52. Ambos trabalham como pedreiros e ganham cerca de 300 pesos cubanos por mês, o equivalente a US$ 12. López trabalha por conta própria e consegue renda mensal de até 2.000 pesos (US$ 80). “Sou fã dos Rolling desde que tinha 16 anos”, afirmou.

Com uma camiseta do Iron Maiden, Alejandro Trujillo, de 21 anos, vivia seu primeiro grande show de rock na companhia do pai, que tem o mesmo nome, do irmão, de amigos e da namorada, Katherin Quinhones, de 19 anos. Ela tinha as unhas pintadas de azul e uma camiseta na qual estavam estampadas as palavras paz, música, amor e rock, em inglês.

Com um topete sustentado por gel, tatuagens e piercings, Osiel Power, de 25 anos, assistiu ao show com quatro amigos. “Eu gosto dos Rolling Stones desde criança por causa de minha mãe, que era uma roqueira louca.” Power é cozinheiro em um paladar –nome dos restaurantes privados de Cuba- e estuda engenharia civil.

Sentado no gramado à espera dos Rolling Stones, o pintor Ciro Henrique, de 50 anos, lembrou o período de sua juventude em que ouvia as canções da banda de forma clandestina, em fitas compartilhadas entre amigos.

A banda subiu ao palco às 20h37, determinada a seduzir os cubanos. Jagger se dirigiu várias vezes à plateia em um espanhol carregado de sotaque inglês. A frase mais de mais significado político veio depois das duas primeiras canções. “Sabemos que antes era difícil escutar nossa música em Cuba, mas aqui estamos. Os tempos estão mudando, não?”, exclamou o vocalista, sem receber uma resposta entusiasmada do público. Muitos em Cuba ainda estão céticos quanto aos rumos do país, mesmo depois do restabelecimento de relações diplomáticas com os EUA. “Aqui estamos finalmente. Estamos certos de que esta será uma noite inesquecível”, declarou Jagger, vestindo uma camisa pink e dançando sem parar.

O contraste tecnológico também esteve presente nas necessidades básicas. Não havia banheiros químicos nas imediações do show e os sanitários eram caixas de metal com portas colocadas sobre bueiros.

Cobrir o primeiro show dos Rolling Stones em Cuba foi uma volta ao jornalismo off-line, no qual os textos eram ditados pelo telefone quando não havia máquinas de telex ou de fax à mão. A experiência de Havana foi ainda mais desafiante pela sobrecarga do sistema de telecomunicações na região do concerto, o que me obrigou a caminhar por quadras em busca de sinal, em uma corrida contra o tempo para falar com o jornal antes do fechamento –o horário em que as páginas devem ser enviadas para a impressão a tempo de chegarem aos leitores no dia seguinte.

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