A invasão da história

Cláudia Trevisan

05 de novembro de 2008 | 10h24

Para milhões de pessoas ao redor do mundo, a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos vai se transformar em um daqueles dias em que a História invade as nossas vidas e se mistura às memórias de caráter pessoal. Quando no futuro eu pensar no 5 de novembro de 2008, vou lembrar que era um dia ensolarado de outono e que eu estava no meu escritório em Pequim quando um alerta da CNN entrou na minha caixa de mensagens: “Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos”.
Corri para a televisão e a primeira imagem que vi na mesma CNN foi a do reverendo negro Jesse Jackson chorando em meio à multidão que celebrava a vitória democrata em Chicago, onde Obama fez seu primeiro discurso como presidente eleito.
A escolha de um negro para o principal posto de comando em um país até pouco tempo cindido pela questão racial seria relevante em qualquer lugar do mundo. Quando este lugar é a maior economia e potência global, é difícil exagerar no significado histórico da decisão. A vitória de Obama tem um enorme poder simbólico na promoção de valores como diversidade, inclusão e tolerância.
Mas o que torna esta eleição realmente relevante é a porta que ela abre para o resgate de princípios fundamentais que haviam sido ofuscados pela guerra ao terror do governo Bush e que sedimentam o “sonho americano” tanto quanto a oferta de oportunidades para todos. Os oito anos de gestão republicana enfraqueceram garantias que fazem parte da tradição política do liberalismo e foram inscritos na Declaração Universal dos Direitos do Homem, entre os quais estão a presunção da inocência, o devido processo legal, o direito de defesa e a condenação da tortura.
Os abusos cometidos pelos norte-americanos nas prisões de Abu Ghraib e Guantanamo e a defesa do uso da tortura como método legítimo de interrogação por assessores graduados do presidente Bush minaram a autoridade moral dos Estados Unidos na defesa dos direitos humanos e deram um tom de escárnio e cinismo às críticas do governo norte-americano a abusos cometidos por outros países. A eleição de Obama traz a esperança de que isso mude a partir de 20 de janeiro de 2009.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.