A irresistível pirataria

Cláudia Trevisan

21 de junho de 2008 | 14h32

Comprar DVDs piratas está entre as diversões inescapáveis dos habitantes de Pequim. A cidade está cheia de lojas que parecem as vídeolocadoras do Brasil, mas ao invés de alugar, elas vendem os filmes. Os preços variam de R$ 2,50 a R$ 4,00, dependendo do lugar e da qualidade da cópia. Depois de jantar ontem, fui a uma loja de DVDs piratas em Sanlitun, um dos bairros boêmios de Pequim. Era quase meia-noite, o lugar estava cheio e a vendedora me disse que ele só fecharia às 5h.
No fundo da loja, no meio do corredor no qual os clientes passavam, a linha de montagem trabalhava a pleno vapor: um rapaz colocava o DVD em uma caixa preta e o passava a uma moça, que empurrava a embalagem dentro do invólucro que identificava o filme e dava ao produto uma aparência de autêntico _havia uma pilha de DVDs,caixas e embalagens entre eles. Em seguida, uma outra garota embrulhava a caixa em um plástico, que era selado com a ajuda de um ferro de passar roupa que estava à sua frente.
O resultado que vai parar nas prateleiras parece perfeito, ainda que todo mundo saiba que as cópias à venda são piratas. Ontem, comprei “Piaf” (ou “La Vie em Rose”) pelo equivalente a R$ 2,50, o que não paga nem a pipoca de um cinema no Brasil. A caixa com 44 filmes de Wood Allen custa um pouco mais que R$ 100. Ao lado dela, são vendidas as obras completas de Kubrick, Fellini, Hitchcock, Almodovar etc., por preços irrisórios.
As casas de DVDs piratas escapam à censura do governo chinês e vendem uma infinidade de filmes que não serão mostrados nos cinemas ou nas telas de TV do país. O mais novo hit é “Sex and the City”, para o qual muitas lojas fazem listas de espera entre seus clientes, em razão da grande demanda e a escassa oferta. Por incrível que pareça, o filme está proibido na China em razão do seu conteúdo demasiadamente sexual. “Lust, Caution”, de Ang Lee, também pode ser encontrado em qualquer loja de DVD, apesar de ter sido cortado e finalmente banido dos cinemas chineses.
Todos os seriados de TV norte-americanos de relativo sucesso podem ser comprados na China por um preço ridículo, apesar do fato de que quase nenhum deles tem autorização para ser mostrado na TV dentro do país. Nem mesmo o inofensivo “Friends” ganhou o aval da censura chinesa. Imagine “Nip, tuck” ou mesmo “Sex and the City”!
Claro que o baixo custo tem seu preço e muitos filmes vêm com problemas como legendas que não têm nenhuma relação com o que se passa na tela _o que significa que pertencem a outro filme_ ou legendas que correspondem ao que se vê na tela, mas contêm tantos erros de ortografia que acabam se transformando na atração da noite. Também há surpresas bizarras na apresentação dos produtos, como um DVD de “Sex and the City” que traz estampada a fotografia de quatro mulheres que NÃO são as atrizes da série.
Antes que eu seja acusada de apologia do crime, gostaria de dizer que a pirataria é absolutamente institucionalizada na China, com lojas instaladas em alguns dos melhores pontos comerciais da cidade. E ela está longe de se limitar aos DVDs. Mas isso é tema para outro blog…