A privada, o trem e Pasárgada

A privada, o trem e Pasárgada

Cláudia Trevisan

27 de abril de 2008 | 09h16

“(…) O objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica, e sim a privada. Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a progredir.” A frase escrita por Mario Vargas Llosa em um artigo publicado na revista Piauí em fevereiro de 2007 me vinha à cabeça cada vez que ia ao banheiro no meu quarto de hotel de Tóquio e encontrava um vaso sanitário high-tech, com assento aquecido e comandos do lado direito para acionar jatos e spray de água. Na rápida viagem que fiz ao Japão na semana passada, as privadas se transformaram no emblema de um país que atendeu as necessidades básicas de sua população e pode agora se dar ao luxo de tratar dos detalhes que tornam a vida mais confortável.

Derrotado e destruído na Segunda Guerra Mundial, o Japão foi protagonista de uma ascensão meteórica dos anos 60 a 80, em uma trajetória semelhante à que a China percorre hoje, com altíssimas taxas de investimento e crescimento acelerado. O PIB japonês teve expansão média de 10% na década de 60, 5% na de 70 e 4% nos anos 80. Mesmo com a forte desaceleração registrada a partir da década de 90, o Japão mantém o posto de segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com uma renda per capita de US$ 34,3 mil, comparada a US$ 6,9 mil no Brasil.

A China cresce a uma média de 10,6% ao ano há três décadas e logo vai superar o Japão no ranking das potências econômicas. O país comunista se parece com o seu vizinho de 40 anos atrás em outro aspecto: a decisão de investir em um sistema de trens de alta velocidade, algo que se discute no Brasil há anos e nunca sai do papel.

No ano passado, a China aumentou para 200 km/h a velocidade dos trens em 6.000 km de linhas pré-existentes, com utilização de tecnologia canadense, japonesa, francesa ou alemã. Mas seu projeto mais ambicioso nessa área é a ferrovia que vai ligar as duas maiores cidades do país, Pequim e Xangai. A linha de 1.318 km começou a ser construída no dia 18 de abril e consumirá investimento de US$ 31,6 bilhões, o maior já realizado em uma obra de infra-estrutura desde a Revolução Comunista de 1949. O mais importante: o trem é totalmente construído na China, com tecnologia própria. A previsão do governo é que a obra esteja concluída em 2013, quando será possível viajar de Pequim a Xangai em cinco horas.

No Japão, o chamado shinkansen liga o país de um extremo a outro. A distância entre as partidas é contada em minutos e é possível comprar as passagens quase na hora do embarque. Os trens andam a uma velocidade de 250 km/h a 300 km/h e os atrasos são praticamente inexistentes. Em 40 anos de operação, nunca houve um acidente importante com o shinkansen.

Quando eu viajava no sábado de Kyoto para Tóquio a 300 km/h tive um choque de realidade e fui lembrada do quanto ainda estamos distante deste mundo que eliminou a pobreza e pode se dar ao luxo de ter privadas aquecidas. A seção internacional do Japan Times trazia uma enorme foto em preto e branco de uma favela de Recife, na qual um grupo de moradores aparecia ao redor do corpo de um homem morto a tiros. Na legenda, a informação de que a violência no Brasil não se restringe aos grandes centros urbanos do Sudeste e atinge índices alarmantes na capital pernambucana.

O que me fez lembrar de Manoel Bandeira:

“Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização”

A privada em meu hotel:
Vaso sanitário de hotel no Japão

Trem de alta velocidade chega na estação de Tóquio
Trem chega na estação de Tóquio

Interior do shinkansen
Interior do shinkansen

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