A terapia que deixa marcas (literalmente)

A terapia que deixa marcas (literalmente)

Cláudia Trevisan

23 de março de 2009 | 23h55

A foto acima parece a prova de um inquérito sobre lesões corporais, mas as marcas foram provocadas por uma das mais tradicionais técnicas de tratamento da medicina tradicional chinesa, o “guasha”, aplicado até hoje por milhões de avós para tratar gripe ou febre de seus netos. A terapia também é indicada para estimular a circulação sanguínea e combater a estagnação de “qi”, a energia vital que transita em nosso corpo, de acordo com a visão de mundo chinesa. E foi com esse propósito que meu médico a aplicou _sim, as costas da foto são minhas.

A expressão “guasha” pode ser traduzida como “raspar a febre” e tem o propósito de fazer com que a doença saia do corpo. A técnica exige esforço físico de quem a aplica e alguma resistência à dor de quem a recebe. O instrumento indicado é uma espátula de chifre de búfalo, que é usada para raspar a pele em movimentos intensos. De acordo com a medicina tradicional chinesa, o material tem a propriedade de estimular a circulação. A dor é suportável e acaba com o fim da sessão, apesar de as marcas que permanecem indicarem o contrário.

Amplamente utilizado pelas famílias, o “guasha” é fonte de um dos mais traumáticos choques culturais experimentados pelos chineses quando emigram a outros países. Os vergões vermelhos deixados nas costas das crianças são interpretados como sinais de maus-tratos por professores e não raro dão margem a acusações infundadas contra seus pais e avós. Meu terapeuta, Alex Tan, nasceu na Austrália e é filho de pai chinês e mãe australiana. Segundo ele, em seu país, casos como esses ocorrem não só com imigrantes chineses, mas também vietnamitas, que aplicam o “guasha” com moedas.

O filme chinês “O Tratamento”, de 2001, relata as desventuras de um avô que visita a família nos Estados Unidos e decide aplicar o “guasha” em seu neto doente. As marcas que ficam nas costas do garoto fazem com que as autoridades norte-americanas o retirem da família e acusem os parentes de abuso físico. A confusão só é resolvida quando um amigo do pai do garoto se submete ao mesmo tratamento e vê os seus benefícios.

Outra terapia que deixa marcas nas costas é o “baguan”, que consiste na aplicação de ventosas com objetivos semelhantes aos do “guasha”. No “baguan”, o médico esquenta com fogo o interior de um copo de vidro e o coloca em pontos determinados nas costas do paciente. Quando o ar esfria, é formado um vácuo, que suga a pele para o interior do recipiente. O “efeito colateral” são inúmeros círculos roxos ou pinks nas costas, que demoram alguns dias para desaparecer. Abaixo estão algumas fotos que mostram a técnica, aplicada nas minhas costas:

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