A visão dos uigures

Cláudia Trevisan

16 de julho de 2009 | 00h58

Aí vai a reportagem publicada no Estadão na segunda-feira, 13 de julho.

Donos de uma cultura que não tem nenhuma semelhança com a chinesa, muitos uigures se consideram habitantes de uma terra dominada por invasores. A hostilidade teve sua mais irada manifestação no dia 5 de julho, com agressões e choques com a polícia que deixaram 184 mortos, dos quais 137 han, a etnia majoritária da China. As queixas incluem a repressão religiosa, a discriminação econômica e o desprezo por sua identidade cultural. “Eu sou muçulmano, esta é minha terra, mas eu não posso ser livre aqui”, disse ao Estadão um segurança uigur que se identificou como Murat, 68.

A tensão entre os dois grupos se agravou depois do início das reformas econômicas, que ganharam impulso em Xinjiang nos anos 90. A província cresce a taxas superiores a dois dígitos há mais de uma década, mas a prosperidade beneficiou principalmente os chineses han, sustentam os muçulmanos. “Todo o dinheiro está nas mãos dos han. Muitos uigures não têm trabalho, não têm casa, não têm dinheiro”, ressaltou Haire Jul, dona de uma pequena loja de roupas.

Os uigures se ressentem do fato de que a língua dos negócios e dos serviços públicos é o mandarim dos han. Muitos jovens falam uigur, mas não sabem mais escrever ou ler na língua árabe de seus ancestrais. Parizat, estudante de Direito, declarou que se sente discriminada na universidade. “Eles dizem que temos que aprender chinês muito bem, do contrário será difícil encontrarmos trabalho.” Um homem na faixa dos 50 anos observou que os uigures mais velhos não sabem mandarim e, ainda assim, têm que usar a língua dos han quando preenchem formulários ou documentos nas repartições públicas. Segundo outro morador da área muçulmana, antes das reformas econômicas, hans e uigures tinham a “mesma vida” e tudo era “mais justo”. Com a prosperidade, muitos hans enriqueceram e passaram a desprezar os uigures”, relatou.

A reportagem do Estadão era cercada por várias pessoas cada vez que começava a entrevistar alguém no bairro, todos querendo falar do tratamento que consideram discriminatório, da prisão de inocentes depois dos conflitos do dia 5 e do fato de que a imprensa chinesa ignorou os ataques realizados pelos han aos uigures no dia 7 de julho. “A televisão só fala dos feridos han e não menciona os uigures”, afirmou uma mulher que se identificou como Razia.

Xinjiang passou a fazer parte do território chinês durante a última dinastina do império, a Qing (1644-1911), que realizou a maior expansão das fronteiras do país da história. Com o fim do império, em 1911, Xinjiang experimentou uma relativa independência, quando o restante da China mergulhava em um período de desagregação, invasão pelo Japão e guerra civil entre comunistas e nacionalistas. A última dinastia foi fundada por invasores manchus, que dominaram os chineses han e as inúmeras minorias que habitam o país.

Durante os quase três séculos de duração da dinastia Qing, os han sofreram sob o controle dos invasores, em uma submissão que tinha como principal símbolo o uso do corte de cabelo manchu para os homens: a parte da frente da cabeça tinha que ser raspada e a parte de trás do cabelo arrumada em uma longa trança.

A Revolução Republicana foi uma revolta nacionalista dos han contra os invasores e muitos em Xinjiang e no Tibete julgaram que também estariam livres da dominação externa. Mas o Partido Comunista assumiu o poder com a intenção de restabelecer a unidade territorial existente na China até o fim do império e enviou tropas do Exército de Libertação Popular para as duas províncias do extremo oeste, as maiores do país, com 30% do território total.

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