Acabou a boa vontade com a China, afirma consultor

Cláudia Trevisan

08 de outubro de 2012 | 10h53

A China perdeu a boa vontade de governos ocidentais e elevou ao máximo a desconfiança de multinacionais em relação ao país, graças a táticas que contornam as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a políticas industriais que estimulam o roubo de tecnologia estrangeira.

“Os negociadores comerciais dos Estados Unidos e da Europa estão fartos e eu vejo conflitos à frente”, diz James McGregor, consultor, empresário e escritor que vive há 25 anos na China. Ex-presidente da Câmara Americana de Comércio na China, ele acaba de lançar o livro No Ancient Wisdom, No Followers – The Challenges of Chinese Authoritarian Capitalism (Sem Antiga Sabedoria, Sem Seguidores – Os Desafios dos Capitalismo Autoritário Chinês), no qual sustenta que o modelo local dominado por gigantescos monopólios estatais é incompatível com as regras da OMC.

McGregor mostra que as estatais se beneficiam de uma montanha de subsídios, são fonte de enriquecimento da elite do Partido Comunista e instrumento de manutenção da estabilidade política. Mas o consultor sustenta que a China tem que resgatar suas reformas e ampliar o espaço do setor privado para continuar a crescer.

“Sou otimista porque se eles não fizerem mudanças e não revitalizarem as reformas, eles serão conhecidos como aqueles que mataram o milagre econômico chinês”, afirma, em relação à geração de líderes que começará a assumir o poder no próximo mês.
A seguir, trechos da entrevista:

Estado – Quando a China entrou na OMC, em 2001, havia a expectativa de que o poder do Estado na economia diminuiria, o que não ocorreu. A China trapaceou o mundo?
James McGregor –
Essa era a trajetória em que a China estava e a trajetória mudou, mas muitas pessoas não notaram. O Partido Comunista decidiu fortalecer as empresas estatais, em parte por razões econômicas, em parte para preservar o poder político e em parte porque os atuais líderes pensam de maneira diferente dos anteriores [que estavam no poder até 2003].
Zhu Rongji [primeiro-ministro de 1998 a 2003] e Jiang Zemin [presidente de 1993 a 2003] seguiam o modelo de Deng Xiaoping de fortalecer as empresas privadas. Quando eles assumiram o poder, o setor estatal era um caos e perdia muito dinheiro. Eles demitiram 50 milhões de trabalhadores das estatais no período de dez anos entre o princípio dos anos 90 e dos anos 2000.
O partido criou a Comissão de Administração e Supervisão de Ativos de Propriedade do Estado [SASAC na sigla em inglês] e começou transformar as estatais em corporações com ações e trouxeram o governo para ser o oligarca.
Quando falo de estatais, estou falando das grandes estatais ligadas ao governo central, que hoje são 117. Esses são os grandes monopólios, alguns dos quais com milhões de empregados e milhões de dólares em faturamento.
O partido indica os principais dirigentes dessas empresas e elas são estruturadas quase como o exército e se reportam mais ao partido do que ao governo [na China, o Exército de Libertação Popular é uma organização do Partido Comunista e não do Estado].

Estado – Isso é o que o sr. chama de capitalismo autoritário?
James McGregor –
Sim. Esses grandes monopólios são dirigidos por pessoas apontadas pelo partido, que têm status de ministros ou vice-ministros. Um dia eles são dirigentes desses grandes conglomerados, no outro estão governando uma província ou ocupam uma posição no gabinete. São todos integrantes da nomenclatura do partido.
Há um estudo revelador feito por Mao Yushi, um economista de 83 anos fundador do Instituto Unirule, que identifica os subsídios dados às empresas estatais _terra de graça ou barata, eletricidade barata, descontos nas taxas de juros etc. Se os subsídios forem removidos, essas grandes estatais que supostamente têm lucros imensos, na verdade perdem dinheiro.
Mas a China nunca estaria onde está hoje sem esses companhias. No Brasil ou nos Estados Unidos, nós estamos há 20 anos falando de nossa infraestrutura falida e é difícil fazer qualquer coisa a respeito.
Os bancos estatais dão dinheiro a outras estatais e os planejadores dizem ‘vamos construir seis anéis viários, cinco aeroportos e duas estações de trem nessa cidade’. Eles fizeram isso em todo o país e é impressionante. Isso levou a China ao lugar onde está hoje, mas não a levará ao próximo passo.

Estado – Por que não?
James McGregor –
Eles chegaram a um ponto crítico e a única maneira de fazer o país avançar é voltar a Deng Xiaoping, que tirou esse país do buraco com empresas privadas. Não sou um ideólogo para quem empresas privadas solucionam tudo. Mas se olharmos para os números, vemos que a China tem que mudar para continuar avançando.
Isso também vem sendo dito pelo governo chinês, mas o problema é que essas vozes não são as mais fortes, porque os dirigentes das estatais se transformaram em um grupo político poderoso no partido.
O que o escândalo de Bo Xilai nos mostrou? A [agência de notícias] Bloomberg fez uma grande trabalho que revelou como integrantes de sua família e da família de sua mulher [Gu Kailai] têm centenas de milhões de dólares porque ocuparam posições nos conselhos de várias empresas estatais.
O caso Bo Xilai revela como a elite do partido pode usar as estatais para enriquecer. Ele também mostra como o partido usa as estatais para manter a estabilidade política.
Três meses depois que Bo Xilai foi afastado do comando de Chongqing ele ainda era muito popular na cidade, porque havia usado dinheiro do governo central para se transformar em um campeão dos pobres.
O que o governo fez? Setenta e cinco estatais fizeram contratos de US$ 50 bilhões em Chongqing para uma série de projetos, o equivalente a US$ 12 mil por residente, para mostrar que o governo central está preocupado com eles. Como você abre mão disso? Como quebrar esse poder?

Estado – O sr. diz que o sistema chinês é incompatível com as regras da OMC. Por que?
James McGregor –
A primeira razão é que a OMC e disfuncional. A OMC foi criada para substituir o GATT, que era comandado pelos Estados Unidos e alguns outros países, existiu durante a Guerra Fria e gerenciava um sistema de comércio que tratava basicamente de produtos cruzando fronteiras, suas regulações e tarifas.
O mundo é muito mais complicado agora. Há cadeias globais de suprimento, propriedade intelectual, investimentos transnacionais. Em 2001, a China entrou na OMC e a Rodada de Doha foi lançada com o objetivo de modernizar as regras para que elas contemplassem essas novas questões, mas a rodada não chegou a lugar nenhum.
Ao mesmo tempo, a China entrou da OMC e percebeu que era um organismo disfuncional e eles foram capazes de jogar com isso.
A OMC foi construída basicamente para empresas privadas e na China existe um
capitalismo autoritário com empresas estatais e um sistema legal que não é independente. Se alguém quiser iniciar um caso na OMC, precisa de provas e não consegue obter as provas aqui. É um sistema muito incompatível com a OMC.
Além disso, a China está levando práticas locais para a arena internacional. A maneira com que a China atua na OMC lembra muito a maneira com que as grandes estatais lidam com joint-ventures com empresas estrangeiras na China. Quando há um contrato, as cláusulas que são favoráveis ao lado chinês são aplicadas, as que são contrárias são ignoradas.
E isso é o que está ocorrendo na OMC e com as promessas que a China fez. Se elas são convenientes, eles podem cumpri-las. Se não são, eles as ignoram.

Estado – O sr. também menciona o uso de intimidação.
James McGregor –
A China diz para países menores ‘não se metam conosco, não iniciem processos’. A China diz a empresas ‘não se envolvam com a OMC porque senão vocês terão dificuldades em fazer negócios aqui’. Não é porque a China é venal. Eles estão apenas fazendo negócios como fazem negócios aqui. Essa é a maneira como tratam empresas aqui.
E todo mundo tem medo da China. As empresas têm medo de dizer coisas negativas em relação à China porque acham que seus negócios podem ser afetados. Governos também estão preocupados porque é um mercado em crescimento.

Estado – O problema é que empresas estrangeiras vêm para a China e recebem o ‘tratamento chinês’, mas empresas chinesas que vão ao exterior se beneficiam do Estado de Direito, de regras transparentes e um Judiciário independente. Parece um jogo desequilibrado.
James McGregor –
Sou um grande defensor de investimentos chineses na Europa, nos Estados Unidos e em outros lugares. Na América nós precisamos de capital e a China agora tem capital. Quando a China precisou de capital, a América tinha capital. Ao mesmo tempo, não há reciprocidade entre a maneira como fazemos as coisas na América e o que ocorre na China. Alguns defendem que devemos ter essa reciprocidade, mas se fizermos isso, vamos realmente explodir tudo. Eu não tenho respostas e vou deixar isso para os responsáveis por políticas públicas.

Estado – Se a China não se adapta ao sistema atual da OMC e é o maior exportador do mundo, um dos dois tem de mudar, não?
James McGregor –
Sim, a China tem uma contradição. Ao se aproveitar do fato de a OMC ser disfuncional, ela pode levar a OMC a ser totalmente irrelevante. Mas o problema é que a China é a grande beneficiária do sistema atual. A China precisa de um comércio global bem regulado, porque é um grande exportador e importador. Eles puderam se beneficiar do sistema e, ao mesmo tempo, contornar o sistema.

Estado – Como a China é capaz de contornar o sistema e ao mesmo tempo se beneficiar dele, a melhor saída para Pequim é que nada mude.
James McGregor –
O problema é que eles perderam a boa vontade [da comunidade internacional]. Os negociadores comerciais dos Estados Unidos e da Europa _e eu falo com muitos deles_ estão fartos e eu vejo conflitos à frente. O que está acontecendo não é sustentável.

Estado – Quão grande é a desconfiança em relação à China?
James McGregor –
Enorme e é triste ver isso para alguém que vive aqui há tanto tempo quanto eu. Quando cheguei aqui, o mundo tinha uma forte boa vontade em relação à China. Estados Unidos e Europa abriram seus mercados para mercadorias chinesas, nossos governos e associações empresariais vieram à China, realizaram uma série de treinamentos e ajudaram a China a construir seus sistema legal de comércio, o sistema de proteção ambiental etc. Essa boa vontade deixou de existir.

Estado – Quais são as principais fontes da desconfiança?
James McGregor –
A habilidade chinesa de manipular a seu favor uma OMC disfuncional e as políticas industriais tecnológicas, como a de inovação doméstica, pela qual as empresas estatais receberam ordens para pegar tecnologias estrangeiras e ‘reinovar’, ‘assimilar’, ‘coinovar’ e depois competir globalmente com as mesmas multinacionais que são suas parceiras dentro da China.

Estado – Pode-se falar em roubo de tecnologia?
James McGregor –
É do que se trata. A política de inovação doméstica é um plano para o roubo de tecnologia. Eu não acredito que isso era o que os líderes queriam. Eles realmente queriam encontrar uma maneira para a China inovar. Mas quando isso chegou nas mãos dos burocratas, se transformou no uso de coerção contra as multinacionais.
Antes, os CEOs de multinacionais adoravam a China. Os trabalhadores não criavam problemas, a imprensa não podia criar problemas, eles recebiam terra, eletricidade. Aqui eles eram reis. Mas um dia a China mudou e começou a dizer ‘faça isso, faça aquilo, dê para nós a sua tecnologia’. Eu vi isso acontecer basicamente entre 2006 e 2009.
A China não esperava ser a potência que é hoje tão rapidamente. E isso implica responsabilidades. O mundo espera que a China, na condição de líder, tenha políticas mais magnânimas, que sejam boas para o mundo e não apenas para a China. E a China não sabe como fazer isso.

Estado – As multinacionais reclamam, mas continuam a investir na China. Algo deve valer a pena.
James McGregor –
Elas vêm porque é um mercado em crescimento. Elas estão condenadas se vêm e condenadas se não vem. Eles têm que vir, mas estão preocupado com a maneira como as coisas funcionam aqui e com a possibilidade de perder seus mercados globalmente. Isso não é sustentável. Se você está fazendo negócios com alguém e é mal tratado, mas faz o negócio porque precisa do faturamento, assim que você tiver uma vantagem, você vai sair. A China tem de lembrar que precisa de amigos em tempos difíceis.

Estado – Qual sua expectativa em relação à nova liderança chinesa?
James McGregor –
Sou otimista porque se eles não fizerem mudanças e não revitalizarem as reformas, eles serão conhecidos como aqueles que mataram o milagre econômico chinês. E em um país que dá atenção à história como este, nenhum líder quer ser vinculado a esse legado.
Eu acredito que haverá reformas, porque eles não têm escolha. Eles têm que reformar para manter a economia em crescimento.

Estado – A falta de confiança dos chineses em relação ao governo também parece estar em alta, não?
James McGregor – Seria óbvio pensar que depois de anos de tremendo progresso, o povo chinês estaria feliz e gratos pelo que aconteceu. E isso não é o que vejo nas pessoas que conheço, dos trabalhadores aos extremamente ricos. Eu acredito que eles estão cansados do sistema e acho que o sistema social e econômico avançou muito mais que o político.
Mas nunca vi ninguém ganhar dinheiro apostando contra a China. Eu era repórter aqui no começo dos anos 90, quando a inflação estava em 25% e todo mundo dizia que o país iria quebrar. Eles superaram isso, superaram a Crise Asiática e a Crise Global. E esse é um partido que na Revolução Cultural [1966-1976] e no Grande Salto Adiante [1958-1962] destruir a economia e o sistema social chinês, se manteve no poder e fez muita gente rica depois. Eles são sobreviventes e têm sua própria maneira de fazer as coisas.

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