Acidente afeta confiança nos trens de alta velocidade da China

Cláudia Trevisan

27 de julho de 2011 | 07h33

Acabo de voltar à China depois de três semanas de férias no Brasil e encontro um país traumatizado pelo choque entre dois trens de alta velocidade no sábado, que deixou 39 mortos e quase 200 feridos e aprofundou a crônica desconfiança pública em relação às autoridades. Milhares de comentários na internet questionam a demora na divulgação de informações sobre o desastre na imprensa nacional, levantam suspeitas de tentativa de acobertamento das causas do choque e refletem a insegurança em relação ao sistema de trens rápidos, com seus 8.300 km construídos no prazo recorde de cinco anos. O acidente também derrubou as ações das empresas do setor e comprometeu a ambição chinesa de se tornar um exportador de tecnologia e equipamentos para ferrovias rápidas. Segundo as autoridades de Pequim, o desastre ocorreu quando um trem se chocou com outro que ficou sem energia depois de ser atingido por um raio na província de Zhejiang. Entre as perguntas que a investigação sobre o acidente terá que responder é por que o sistema de sinalização não indicou que um trem estava parado nos trilhos.

“As exportações ferroviárias da China serão afetadas negativamente, na medida em que os clientes internacionais podem duvidar de nossa qualidade”, declarou ao jornal oficial China Daily Yang Hao, professor da Universidade de Transportes (Jiaotong) de Pequim. Os chineses estão entre os potenciais interessados no trem de alta velocidade que o Brasil pretende construir entre Campinas, São Paulo e Rio, especialmente agora que o modelo de licitação será alterado, com a separação das fases de construção e de operação do projeto _Pequim tem interesse em realizar a obra e fornecer equipamentos, mas não em operar a linha.

No início do mês, o Ministério das Ferrovias da China revelou que pediu o registro de 21 patentes relacionadas aos trens de alta velocidade no Brasil, Estados Unidos, Europa Rússia e Japão, medida abre terreno para a eventual exportação dos produtos para esses países. A japonesa Kawasaki reagiu à iniciativa e acusou Pequim de violar seus direitos de propriedade intelectual. A empresa transferiu tecnologia de trens rápidos para a China em 2004, mas o contrato impediria a exportação da mesma a terceiros países.

O Ministério das Ferrovias refutou a acusação. “Todas as patentes de alta velocidade que a China está requerendo no exterior foram desenvolvidas de maneira independente e não violam as patentes de trens de alta velocidade de outros países”, afirmou no início do mês o diretor de assuntos gerais do Ministério das Ferrovias, Li Jun. Apesar de sustentarem que detêm a tecnologia, as autoridades chinesas admitem que fizeram “re-inovações”, depois de “importar, digerir e absorver” invenções estrangeiras.

Yang Jixiang, do Quarto Instituto de Pesquisa e Design Ferroviário da China, acredita que o impacto sobre as vendas ao exterior não será significativo. Em sua avaliação, o acidente não foi provado por falhas nos equipamentos, mas sim no sistema de sinalização. “Para a China, a pior coisa é que não poderemos realizar essa parte do trabalho quando realizarmos projetos no exterior. Mas poderemos fazer o restante”, disse Yang.
Com 8.300 km de linhas, a China tem a mais extensa malha de alta velocidade do mundo, construída em um período de cinco anos, outro recorde global. A rapidez com que as obras foram realizadas e o escândalo de corrupção que levaram à queda em fevereiro do ex-ministro das Ferrovias Liu Zhijun já haviam levantado dúvidas sobre a segurança do sistema.

Milhares de comentários na internet questionaram a demora na divulgação de informações sobre o desastre na imprensa nacional, levantaram suspeitas de tentativa de acobertamento das causas do choque e refletiram a insegurança em relação ao sistema de trens rápidos. A crítica dos internautas subiu de tom na segunda-feira, quando uma menina de 2 anos foi encontrada com vida em um dos vagões, depois de as equipes de resgate terem anunciado que não havia mais sobreviventes nos escombros. Entre quase 11 mil pessoas que responderam pesquisa online até ontem, 33% declararam que “nunca usarão” um trem bala, enquanto 54% disseram que não utilizarão o sistema no curto prazo.

Para financiar a expansão do setor, o Ministério das Ferrovias contraiu uma dívida de US$ 300 bilhões, que deverá dobrar em quatro anos. Na opinião de muitos especialistas, o débito é impagável, pois grande parte das linhas é deficitária. A subutilização de vários trechos deverá se agravar depois do acidente de sábado. “Os passageiros perderam a confiança nos trens de alta velocidade e isso é um grande problema”, ressaltou Yang Jixiang.

O trecho em que ocorreu o acidente não foi o único a apresentar dificuldades. Inaugurada há menos de um mês, a linha Pequim-Xangai registrou seis falhas de operação desde o dia 10 de julho, a maioria provocada por mau tempo. Só na segunda-feira, 20 trens tiveram atrasos. A linha Pequim-Xangai tem 1.318 km de extensão e é a mais longa construída de uma só vez em todo o mundo. A obra custou US$ 33 bilhões e é a mais cara desde a chegada do Partido Comunista do poder, em 1949 _sua inauguração, no dia 1˚ de julho coincidiu com a celebração dos 90 anos da organização.

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