Agulhas e ventosas

Agulhas e ventosas

Cláudia Trevisan

30 de março de 2008 | 08h27

Acometida por uma terrível crise de insônia logo que cheguei a Pequim, decidi recorrer à medicina tradicional chinesa e à acupuntura antes de me render às tarjas pretas. Eu já era adepta da acupuntura no Brasil, mas nunca havia feito na China, mesmo tendo morado aqui durante um ano entre 2004 e 2005.

A primeira coisa que me impressionou na experiência foi ver que os chineses continuam a recorrer à medicina tradicional, apesar do enorme avanço da medicina ocidental no país. Fui à mais antiga farmácia de Pequim, fundada em 1669, e havia filas para atendimento e um feroz movimento atrás do balcão na preparação das fórmulas prescritas pelos médicos _que possuem salas de atendimento na própria farmácia.

A médica que me atendeu é especializada no tratamento de insônia. Colocou três dedos no meu pulso e escutou durante alguns minutos. Depois, pediu para ver minha língua e deu o diagnóstico: eu estava com muito calor no fígado. Paradoxalmente, deveria parar de tomar bebidas geladas e de comer comidas cruas durante uma semana. Ao mesmo tempo, ela prescreveu uma receita com quase 20 ingredientes, entre os quais raízes, casca de árvores, flores, e frutas. A fórmula é literalmente cozida na farmácia e embalada em pacotinhos de plástico. Eu deveria tomar dois por dia, pela manhã e à noite. O gosto faz jus à fama de os remédios chineses serem quase intragáveis.

Com a ajuda da minha intérprete, fui a um hospital especializado em acupuntura e, de novo, me surpreendi com o grande número de pessoas. Lá, o que é estranho para um ocidental é a falta de privacidade no atendimento, com a qual os chineses lidam sem nenhum problema. Minha médica fica em uma sala pequena, com três macas. Enquanto me atendia, pessoas entravam e saíam da sala, os próximos pacientes esperavam na porta e os que já haviam sido atendidos estavam nas macas, cheios de agulhas. Quando chegou a minha vez, a dra. Jiang começou a colocar as agulhas enquanto conversava animadamente com a paciente que estava saindo, uma outra médica e minha intérprete. Percebi que falavam de mim ao identificar as palavras Baxi (Brasil) e jizhe (jornalista). Depois de colocadas as agulhas, uma assistente veio conectar a algumas delas fios de estímulo eletrônico, algo que nunca havia experimentado no Brasil e que adorei. Quando o aparelho é ligado, as agulhas começam a vibrar, o que aumenta o efeito da terapia. Depois da acupuntura, a médica utiliza outra técnica, chamada de ba guan, que consiste na aplicação de ventosas nas costas do paciente, que têm um efeito de sucção da pele e deixam enormes marcas circulares. Já deveria ter feito seis sessões, mas só consegui ir a três, por absoluta falta de tempo.

Funcionou? A acupuntura tem um ótimo efeito, mas eu deveria estar fazendo duas sessões por semana e não uma. Quanto ao remédio…Talvez porque eu tenha continuado a tomar gelado e comer comidas cruas (como viver sem frutas?), não senti nenhum efeito. E, sim, me rendi à tarja preta.

Aí vão algumas fotos da aventura médica:

Atendentes manipulam receitas na farmácia de medicina tradicional mais antiga de Pequim

Atendentes preparam receitas em farmácia de Pequim

Ingredientes de remédio tradicional chinês, que são preparados como um chá

Ingredientes de fórmula de medicina chinesa

    Saquinhos com o remédio que tomei

    Saquinhos com o meu remédio

    A receita. Como no Brasil, os médicos chineses têm fama de escreverem de maneira ininteligível

    A receita

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