Ai Weiwei foi solto, mas é cedo para saber se ele está livre

Cláudia Trevisan

22 de junho de 2011 | 15h50

Mais célebre artista vivo da China, Ai Weiwei foi solto ontem pelo governo chinês depois de quase três meses de prisão, mas ainda é cedo para saber se ele está realmente “livre”. Como muitos dos ativistas que foram presos e posteriormente libertados na atual onda repressiva na China, é provável que ele tenha que abandonar, pelo menos temporariamente, um de seus principais instrumentos de crítica: a palavra.

Pouco depois de chegar à sua casa, às 23h30 de hoje (horário de Pequim), Ai Weiwei disse que está proibido de dar entrevistas. Aparentemente, também deve estar impedido de usar a internet para propagar suas posições. Horas depois de sua libertação, não havia nenhum novo post em seu Twitter, que tem 88.263 seguidores e era um de seus principais veículos de críticas ao Partido Comunista e denúncia contra abusos de poder na China. Seu último comentário foi publicado no dia 3 de abril, data de sua prisão.

O Twitter é bloqueado no país, mas é acessado por um número cada vez maior de chineses que usam VPNs (Virtual Private Network) para contornar a barreira da censura.

Ai Weiwei também era ativo no Weibo, a versão chinesa do Twitter, no qual os posts estão sujeitos ao controle estrito do governo. Ontem, o nome do artista e apelidos usados para se referir a ele (como gordo) estavam bloqueados. Ainda assim, alguns de seus amigos conseguiram anunciar sua libertação usando o caractere chinês que significa “amor” e tem a mesma pronúncia do sobrenome do artista, Ai.

“O fato é que a ‘libertação’ de Ai Weiwei vai quase certamente significar que suas liberdades e direitos continuarão a ser restringidos, violados e desrespeitados”, disse Phelim Kine, pesquisador da Human Rights Watch na Ásia.

Ai Weiwei é o mais célebre dos opositores do regime que foram presos desde o início deste ano, quando uma tentativa frustrada e anônima de realizar uma Revolução do Jasmim na China desencadeou a mais violenta onda de repressão no país em pelo menos dez anos. Cerca de 30 ativistas foram presos e mantidos incomunicáveis por semanas ou meses. Dez deles ainda continuam desaparecidos. Os que foram libertados silenciaram, provavelmente em razão de condições impostas para sua soltura.

A imensa pressão internacional exercida sobre Pequim teve papel fundamental na decisão do Partido Comunista de libertar Ai Weiwei. Na quinta-feira, o primeiro-ministro Wen Jiabao viaja à Alemanha, Inglaterra e Hungria e certamente encontraria críticas à prisão, especialmente em Berlim. No início deste mês, o escultor radicado na Inglaterra Anish Kappor cancelou exibição que faria no Museu Nacional da China em protesto contra a detenção do artista.

Segundo a agência oficial de notícias Xinhua, Ai Weiwei foi solto em razão de “sua boa atitude em confessar seus crimes” e por sofrer de uma “doença crônica”. Quatro dias depois de sua prisão, em 3 de abril, o governo o acusou de delitos econômicos, o que foi refutado por sua família e amigos que veem na ação de Pequim uma tentativa de silenciá-lo. Ontem, a Xinhua afirmou que o artista se mostrou disposto a pagar tributos que supostamente sonegou por meio de sua empresa, The Beijing Fake Cultural Development.

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