Americanos se unem contra violência policial

Cláudia Trevisan

05 de dezembro de 2014 | 02h21

A cena está gravada em vídeo: um homem grande, mas desarmado, tem seu pescoço envolvido pelo braço de um policial, é atirado no chão e imobilizado por cinco oficiais, enquanto repete por 11 vezes “eu não consigo respirar”. Em minutos, seu corpo de quase 160 quilos está inconsciente. Logo depois, Eric Garner está morto.

O fato de o encontro fatal estar registrado em imagens e sons parece ter despertado um sentimento comum de injustiça nas milhares de pessoas que saíram às ruas em várias cidades americanas na noite de quinta-feira para protestar contra a decisão de um grande júri de Nova York de não autorizar o início de um processo criminal contra o policial Daniel Pantaleo, autor da “gravata” que derrubou Garner no chão.

Pantaleo não foi absolvido porque não chegou nem mesmo a ser acusado e julgado. Ele foi isento de qualquer responsabilidade pela morte de Garner antes disso, em uma decisão criticada por conservadores e liberais, republicanos e democratas.

O centro das manifestações foi Nova York, onde milhares de pessoas marcharam pelas ruas da cidade gritando a que se transformou na principal palavra de ordem dos protestos: I can’t breath (Eu não posso respirar). Em Washington, uma multidão diversa caminhou nas imediações da Casa Branca e do Congresso. Eram negros, brancos, asiáticos, cristãos e muçulmanos. “Estou cansada de ver corpos de negros assassinados nas ruas”, disse Sharlene Juste, de 24 anos, que participava pela primeira vez de um protesto contra violência policial e a injustiça do “sistema”, esse lugar-comum que representa muito bem o poder estabelecido.

Negra, Juste é filha de um integrante do Departamento de Polícia de Nova York, ao que também pertence Pantaleo. Segundo ela, nem mesmo um policial está protegido da discriminação. “Sem uniforme, ele também é vítima de ‘perfil racial’. É uma linha fina e se você é negro, não importa se é policial ou qualquer outra coisa”, disse Juste, que pretende participar da marcha contra violência policial convocada para o dia 13 em Washington.

Apesar de Garner ter provocado uma mobilização nacional porque sua morte está registrado em vídeo, muitos dos que protestavam ontem ressaltavam que sua indignação vai além desse caso. Há Michael Brown, o jovem de 18 anos morto a tiros por um policial no dia 9 de agosto em Ferguson. Há Tamir Rice, o adolescente de 12 anos morto a tiros menos de duas semanas atrás quando brincava com uma arma de brinquedo em um parque de Cleveland. A lista inclui Trayvon Martin, o negro de 17 anos assassinado a tiros em 2012 por um segurança que foi absolvido. Ou Dante Parker, um gráfico de 36 anos e pai de cinco filhos morto no dia 12 de agosto por sucessivas descargas de um taser, arma que emite choques elétricos. Suspeito de furtar uma bicicleta, Parker estava desarmado e não tinha antecedentes criminais.

“Existem uma série de questões sistemáticas de natureza racial e encarceramento em massa que precisam ser enfrentadas”, observou Isaac Kramer, um branco que participava dos protestos de ontem. Em sua opinião, há um sentimento de unidade nacional de indignação provocado pelo fato de a morte de Garner estar registrada em vídeo e por ele ter sido abordado em razão de uma infração menor: vender cigarros soltos sem pagar impostos. “Está em vídeo e todo o país viu o que aconteceu.”

Pierre Lawson era um dos líderes da manifestação de Washington. Negro, disse que sentia “dor” por ter de protestar contra discriminação racial 50 anos depois que o movimento dos direitos civis levou à revisão das leis de segregação que separavam brancos e negros americanos. “Não imaginava que ainda teria que fazer isso. Nós supostamente vivemos na terra dos homens livres, na qual todos são iguais”, ironizou.

A percepção de que a discriminação racial continua a se manifestar na ação da polícia e do poder judicial permanece seis anos depois de o país ter eleito seu primeiro presidente negro, Barack Obama. “Nada mudou. Ele falava em mudança, mudança e isso era mais profundo que a questão racial. Mas a mudança não aconteceu”, afirmou Janie B., de 29 anos, que participou de outras manifestação, mas acredita que o movimento atual é diferente. “As pessoas estão mais bravas. A injustiça está registrada em vídeo.”

 

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