Amorim, a China e o status de economia de mercado

Cláudia Trevisan

29 de novembro de 2010 | 08h53

 

Na excelente entrevista realizada por Patrícia Campos Mello e publicada domingo no Estadão, o chanceler Celso Amorim admitiu não ter construído uma estratégia para o relacionamento com a China nos oito anos em que comandou a diplomacia brasileira. O ministro também afirmou que um país que não tem uma política cambial de mercado não pode ser tratado como economia de mercado. Amorim só não lembrou que ele próprio deu aval à decisão de reconhecer a China como economia de mercado em 2004, a despeito dos fortes protestos do setor privado brasileiro, liderado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

Se o ministro acredita que a política cambial chinesa atual não respeita as regras de mercado, com muito mais razão deveria ter essa opinião em 2004, quando o governo de que participa desconsiderou esse fato e atendeu à reivindicação de Pequim. Na época, a moeda chinesa estava congelada havia dez anos no patamar de 8,30 yuans por US$ 1,00. Hoje, a cotação ronda os 6,70 por US$ 1,00.

A concessão do status de economia de mercado dificulta a imposição de barreiras às importações chinesas e por isso foi tão criticada pelas empresas nacionais. Mas a promessa brasileira nunca saiu do papel, o que coloca o país como devedor de Pequim. Sempre que há reuniões bilaterais, os representantes chineses cobram os brasileiros e perguntam quando o documento assinado em 2004 será regulamentado. A julgar pelas declarações de Amorim, isso não ocorrerá tão cedo.

Até agora, o argumento de Brasília para justificar o não cumprimento da promessa era o fato de que Pequim não havia ampliado seus investimentos no Brasil, também frustrando compromisso assumido no mesmo documento de 2004. Com o espetacular salto nos anúncios de negócios de estatais chinesas no país desde o início deste ano é cada vez mais difícil sustentar esse argumento.

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