Anti-globalismo e “marxismo cultural” são teorias da conspiração nos EUA

Consideradas anti-semitas por entidades que monitoram grupos de ódio, essas ideias navegavam pelo subterrâneo da extrema direita americana, mas ganharam destaque depois da chegada de Donald Trump à Casa Branca

Cláudia Trevisan

30 de janeiro de 2019 | 02h08

Alex Jones ficou rico disseminando teorias da conspiração nos EUA. A mais cruel delas sustenta que o ataque a tiros no qual 20 crianças de 6 e 7 anos foram mortas na escola primária Sandy Hook, em 2012, não existiu. Jones também disse que o atentado de 11 de setembro de 2001, no qual quase 3.000 pessoas morreram, foi idealizado por integrantes do governo George W. Bush. Os seguidores de seu programa de rádio ouviram ainda que o Pentágono colocou produtos químicos na água para transformar americanos em gays e que desastres naturais são provocados por “máquinas do tempo” controladas pelos militares.

Jones é um dos principais propagadores das “ideias” do anti-globalismo e do suposto “marxismo cultural”, que por décadas navegaram no subterrâneo da ultradireita americana. Com a chegada de Donald Trump ao poder, essas teorias conspiratórias saíram das sombras e ganharam um aliado na Casa Branca. Por influência do ideólogo Olavo de Carvalho, elas se disseminaram entre seguidores de Jair Bolsonaro e aterrissaram no Itamaraty com o chanceler Ernesto Araújo.

Antes de a atual onda nacionalista ganhar força na Europa, o ataque ao “marxismo cultural” ocupou grande parte do manifesto divulgado pelo extremista de direita norueguês Anders Behring Breivik horas antes de ele matar 69 pessoas a tiros, no dia 22 de julho de 2011. O título do texto era “2083: Uma Declaração de Independência Europeia”.

Essas teorias conspiratórias sustentam que há uma ofensiva “globalista” para destruir a cultura ocidental cristã e patriarcal. Seus alvos são diversos e incluem o multiculturalismo, a diversidade, o feminismo, o politicamente correto, gays, liberação sexual, globalização e imigrantes. Nos EUA, elas são associadas à ansiedade do homem branco diante do avanço de negros, minorias e mulheres na sociedade. Também são denunciadas como anti-semitas por entidades que acompanham o movimento de grupos de ódio, como o Southern Poverty Law Center e a Anti-Defamation League (ADL). “A origem do termo [“marxismo cultural”] é uma referência ao povo judeu, que é visto como tendo lealdade não a seus países de origem, como os Estados Unidos, mas a alguma conspiração global”, disse o diretor da ADL, Jonathan Greenblatt, ao New York Times.

Os que atacam o suposto “marxismo cultural” apontam sua origem na Escola de Frankfurt, formada por intelectuais alemães que se refugiaram nos EUA durante o nazismo, entre os quais Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Walter Benjamin. Esses teóricos mesclaram Karl Marx, Sigmund Freud e Max Weber em sua tentativa de entender mecanismos de dominação social e defender o pensamento crítico.

A associação da Escola de Frankfurt a uma suposta conspiração judaico-marxista para destruir a civilização ocidental frequenta as fileiras da extrema direita americana há décadas. Antes de Jones, ela foi propagada nos anos 90 por discípulos de Lyndon LaRouche, outro americano célebre por disseminar teorias conspiratórias. No fim dos anos 80, ele foi preso por fraudes financeiras que provocaram prejuízo de US$ 30 milhões. Depois que policiais cercaram sua casa na Virgínia, LaRouche afirmou que a acusação era fruto de um pacto entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev.

O bilionário e filantrópico húngaro-americano George Soros é visto pela ultradireita dos EUA como uma espécie de herdeiro intelectual da Escola de Frankfurt. A ironia é que ele teve um papel relevante no fim do regime comunista em seu país de origem, no qual sua família sobreviveu ao nazismo adotando uma falsa identidade e trocando seu sobrenome de Schwartz para Soros. Um dos homens mais ricos do mundo, o investidor destinou US$ 32 bilhões de sua fortuna à ONG Open Society Foundations, uma rede com presença em uma centena de países dedicada à defesa da democracia liberal –o que inclui Estado de Direito, democracia representativa, direitos humanos, combate à corrupção, livre acesso à informação e apoio à sociedade civil. Mas talvez o que mais provoque urticária na extrema direita é seu apoio a grupos marginalizados e sua crença no internacionalismo e na cooperação entre nações como melhores antídotos contra o autoritarismo.

O mais surpreendente é como o anti-globalismo e o combate ao suposto “marxismo cultural” encontraram eco no Brasil, um país emergente multiétnico ao qual interessa o multilateralismo. Em seu discurso de posse, o chanceler Araújo declarou que a política externa “estava presa fora do Brasil” e se propôs a libertá-la. Mas sua pregação anti-globalista está muito distante de ser uma criação nacional ou original.

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